Luz, pensou Egwene, enquanto a água caía pelo seu corpo, que assim seja. Será que a água pode lavar o que eu fiz?
— O nome dela era Joiya — disse a Sheriam, entre soluços. — Joiya. Nada pode valer o que eu acabei de… o que eu…
— Tornar-se Aes Sedai tem um preço — retrucou Sheriam, mas a compaixão havia retornado ao olhar da mulher, agora mais forte do que antes. — Sempre tem um preço.
— Isso foi real? Ou eu sonhei? — O choro consumiu o restante do que ela queria dizer. Eu abandonei Rand lá, para morrer? Abandonei minha filha?
Sheriam a envolveu com um dos braços e começou a conduzi-la ao redor do círculo de arcos.
— Toda mulher que vi sair dali fez a mesma pergunta. A resposta é que ninguém sabe. Já se especulou que talvez algumas que não voltaram tenham escolhido ficar por terem encontrado um lugar mais feliz, e viveram o resto da vida do outro lado. — A voz dela ficou mais severa. — Se isso for verdade, se elas ficaram por escolha própria, espero que não sejam nada felizes. Não tenho pena de quem foge das responsabilidades. — Ela suavizou um pouco o tom firme. — Eu, particularmente, não acredito que seja real. Mas o perigo é. Lembre-se disso. — Ela parou diante do próximo arco luminoso. — Está pronta?
Nervosa, Egwene assentiu, e Sheriam tomou-a pelo braço.
— A segunda vez é pelo que é. A saída só aparecerá uma vez. Seja firme.
Egwene estremeceu. Seja lá o que aconteça, não tem como ser pior que o anterior. Não tem como. Então adentrou a luz.
Ela olhou para o próprio vestido, de seda azul com pérolas costuradas, todo empoeirado e rasgado. Ergueu a cabeça e viu as ruínas de um grande palácio ao redor. O Palácio Real de Andor, em Caemlyn. Sabia daquilo, e quis gritar.
A saída só aparecerá uma vez. Seja firme.
O mundo não era como ela gostaria, e não havia forma de pensar naquilo sem ter vontade de chorar, mas suas lágrimas tinham secado havia muito tempo, e o mundo era o que era. Ruínas eram exatamente o que ela esperava ver.
Sem se preocupar em rasgar ainda mais o vestido, mas tão atenta aos sons quanto um rato, ela escalou uma das pilhas de cascalho e avistou as curvas das ruas da Cidade Interior. Em todas as direções, viu apenas ruínas e destruição, prédios que pareciam ter sido destroçados por homens insanos, colunas grossas de fumaça subindo de fogueiras que ainda ardiam. Havia gente nas ruas, bandos de homens armados em ronda, vasculhando. E Trollocs. Os homens se mantinham longe dos Trollocs, e os Trollocs rosnavam para eles e riam, soltando gargalhadas roucas e guturais. Mas eles se conheciam, trabalhavam juntos.
Um Myrddraal avançou pela rua a passos largos. O manto negro drapejava de leve com os passos, mesmo sob as rajadas de vento que carregavam poeira e lixo ao redor dele. Homens e Trollocs acovardaram-se diante daquele rosto que os encarava sem olhos.
— Cacem! — A voz soava como algo em decomposição havia muito tempo. — Não fiquem aí parados, tremendo! Encontrem-no!
Egwene escorregou de volta para a pilha de pedras amontoadas do modo mais silencioso que pôde.
A saída só aparecerá uma vez. Seja firme.
Ela parou, temendo que o sussurro tivesse vindo do Filho das Sombras. De alguma forma, no entanto, tinha certeza de que não viera. Ela olhou por cima do ombro, quase com medo de ver o Myrddraal parado bem atrás dela, então correu para a frente e entrou no palácio em ruínas, escalando vigas de madeira caídas e espremendo-se entre blocos pesados de alvenaria enquanto abria caminho. Chegou a pisar no braço de uma mulher que saía de debaixo do monte de gesso e tijolos que já haviam constituído uma parede interna e talvez parte do piso superior. Mal percebeu o braço, e tampouco o anel da Grande Serpente em um dos dedos da mão. Ela aprendera a não enxergar os mortos enterrados na montanha de sucata em que os Trollocs e Amigos das Trevas haviam transformado Caemlyn. Nada podia fazer pelos mortos.
Forçando passagem entre um vão estreito, onde parte do teto havia desabado, ela chegou em um aposento meio soterrado sob o que ficava acima dele, antes de tudo aquilo. Rand estava no chão, com uma viga pesada comprimindo seu quadril, as pernas escondidas sob os blocos de pedra que preenchiam metade do recinto. Tinha o rosto coberto de poeira e suor. Quando ela se aproximou, ele abriu os olhos.
— Você voltou. — Ele proferiu as palavras com dificuldade, em um ruído rouco. — Eu pensei que… não importa. Você precisa me ajudar.
Cansada, ela se jogou no chão.
— Eu poderia levantar essa viga com Ar sem dificuldade, mas assim que ela se mover tudo vai desabar bem em você. Em nós dois. Não consigo dar conta de tudo isso, Rand.
Ele soltou uma risada amarga e dolorida, interrompida quase no instante em que começou. O suor cintilava em seu rosto, e ele falava com dificuldade.
— Eu mesmo poderia deslocar a viga. Você sabe disso. Eu poderia mover a viga e as pedras acima, todas elas. Mas preciso me entregar para fazer isso, e não posso confiar nela. Não posso confiar… — Ele hesitou, sem fôlego.
— Não estou entendendo — retrucou ela, devagar. — Se entregar? Em quem é que você não pode confiar?
A saída só aparecerá uma vez. Seja firme. Ela esfregou as mãos na orelha com força.
— Na loucura, Egwene. Eu estou… na verdade… mantendo-a… afastada. — A risada sem fôlego fez a pele de Egwene se arrepiar. — Mas fazer isso requer toda a minha força. Se eu parar, mesmo por um instante, a loucura vai me consumir. Então não vou mais me importar com o que fizer. Você precisa me ajudar.
— Como, Rand? Já tentei tudo o que sei. Diga-me como, e eu farei.
Ele deixou a mão cair ao lado de uma adaga que jazia na poeira, a lâmina à mostra.
— A adaga — sussurrou. Com muito esforço, levou a mão de volta até o peito. — Aqui. No coração. Me mate.
Ela olhou para ele e para a adaga, como se ambos fossem serpentes venenosas.
— Não! Rand, não vou fazer isso. Não posso! Como é que você me pede uma coisa dessas?
Bem devagar, ele arrastou a mão de volta até a adaga. Mais uma vez, os dedos não a alcançaram. Ele se esticou, gemendo, e tocou a arma com a ponta dos dedos. Antes que ele pudesse tentar de novo, ela chutou o objeto para longe. Rand desabou em soluços.
— Por quê? — exigiu saber. — Por que está me pedindo para… matar você? Eu vou Curá-lo, farei qualquer coisa para tirá-lo daqui, mas não posso matá-lo. Por quê?
— Eles podem me obrigar, Egwene. — A respiração dele era tão angustiante que ela quis chorar. — Se me levarem… o Myrddraal… os Senhores do Medo… podem me levar para a Sombra. Se a loucura me dominar, não vou poder resistir. Não vou nem saber o que estão fazendo, até que seja tarde demais. Se houver a menor centelha de vida em mim quando eles me encontrarem, poderão levar tudo adiante. Por favor, Egwene. Pelo amor da Luz. Me mate.
— Eu… eu não consigo, Rand! Que a Luz me ajude, eu não consigo!
A saída só aparecerá uma vez. Seja firme.
Ela olhou por cima do ombro, e um arco de prata repleto de luz branca ocupou a maior parte do espaço entre os destroços.
— Egwene, me ajude.
Seja firme.
Ela se levantou e deu um passo em direção ao arco. Estava bem na sua frente. Mais um passo, e…
— Por favor, Egwene. Me ajude. Eu não consigo alcançar. Pelo amor da Luz, Egwene, me ajude!
— Não posso matar você — sussurrou. — Não posso. Me perdoe.
Ela deu um passo à frente.
— EGWENE, ME AJUDE!
A luz a reduziu a cinzas.
Ela saiu do arco cambaleante, sem perceber ou se importar com a nudez. Um tremor a percorreu, e ela cobriu a boca com as mãos.
— Eu não consegui, Rand — sussurrou. — Não consegui. Por favor, me perdoe. — Luz, ajude-o. Por favor, Luz, ajude Rand.