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Ali, no topo da torre, equilibrado nos azulejos inclinados, pairava um arco de prata tomado por um brilho luminoso. O arco cintilava e tremeluzia. Faixas de amarelo e vermelho vivo saltavam através da luz branca.

A saída só aparecerá uma vez. Seja firme.

O arco se enfraqueceu até ficar transparente… então retornou à forma sólida.

Em um frenesi, Egwene lançou um olhar na direção do Pátio dos Traidores. Tinha que dar tempo. Tinha que dar. Ela só precisava de alguns minutos, talvez dez, e de sorte.

Vozes lhe perfuravam a cabeça, não vozes desconhecidas que a mandavam ser firme, mas vozes de mulheres que ela quase acreditava conhecer.

— …não posso aguentar muito mais. Se ela não sair agora…

— Aguente! Aguente, que a queime, ou eu estripo todas vocês feito peixes!

— …enlouquecendo, Mãe! Não vamos conseguir.

As vozes se atenuaram e formaram um zumbido, mas a outra, irreconhecível, pronunciou-se mais uma vez.

A saída só aparecerá uma vez. Seja firme.

Existe um preço para ser Aes Sedai.

A Ajah Negra a aguarda.

Com um grito de raiva e sofrimento, Egwene atirou-se dentro do arco que reluzia como uma névoa incandescente. Quase desejou errar o salto e ser arrastada para a morte.

A luz a destroçou, fibra por fibra, dilacerou-as em pedaços ainda menores, então dividiu os pedaços até partículas minúsculas. Tudo aquilo se desfez com a luz. Para sempre.

23

Ligada

A luz a destroçou, fibra por fibra, dilacerou-as em partículas minúsculas, que se espalharam, queimando. Vagando, em chamas, para sempre. Para sempre.

Egwene saiu do arco de pedra, gelada e rígida de raiva. Queria que a gelidez da raiva se opusesse às queimaduras da memória. Seu corpo ainda carregava a memória do fogo, mas outras lembranças ardiam e marcavam com mais força. Raiva fria como a morte.

— É esse o meu destino? — inquiriu. — Abandoná-lo todas as vezes? Trair, fracassar, todas as vezes? É esse o meu destino?

De repente, percebeu que as coisas não estavam como deveriam. A Amyrlin estava presente, como Egwene sabia que estaria, junto com uma irmã com o xale de cada Ajah, mas todas a olhavam com preocupação. Em cada ponto de encontro dos arcos, estavam sentadas na pedra nua duas outras Aes Sedai, o com os rostos suados. O ter’angreal emitia um zumbido, quase uma vibração, e intensas faixas coloridas rasgavam a luz branca dentro dos arcos.

O brilho suave de saidar envolveu Sheriam por um breve instante quando ela pousou a mão na cabeça de Egwene, causando-lhe mais um calafrio.

— Ela está bem. — A Mestra das Noviças soava aliviada. — Não está ferida. — Era como se não esperasse por aquilo.

As outras Aes Sedai que observavam Egwene pareceram aliviadas. Elaida soltou um longo suspiro, depois correu para o último cálice. Apenas as Aes Sedai próximas ao ter’angreal não relaxaram. O zumbido enfraqueceu, e a luz começou a tremeluzir, sinalizando que o objeto estava começando a voltar ao normal, mas as Aes Sedai ainda pareciam lutar com todas as forças.

— O quê…? O que aconteceu? — perguntou Egwene.

— Fique quieta — disse Sheriam, com delicadeza. — Por enquanto, apenas fique em silêncio. Você está bem, é isso que importa, e precisamos concluir a cerimônia.

Elaida aproximou-se, quase correndo, e entregou o último cálice de prata à Amyrlin.

Egwene hesitou por um instante e se ajoelhou. O que aconteceu?

Bem devagar, a Amyrlin despejou o conteúdo do cálice na cabeça de Egwene.

— Você está lavada de Egwene al’Vere, do Campo de Emond. Você está lavada de todos os laços que a prendem ao mundo. Você vem a nós lavada, de coração e alma. Você é Egwene al’Vere, Aceita da Torre Branca. — A última gota respingou nos cabelos da jovem. — Você agora está ligada a nós.

As últimas palavras pareciam ter um significado especial, apenas entre Egwene e a Amyrlin. A Amyrlin entregou o cálice para uma das outras Aes Sedai e exibiu um anel de ouro na forma de uma serpente mordendo a própria cauda. Egwene tremeu involuntariamente ao erguer a mão esquerda, e tremeu outra vez enquanto a Amyrlin pôs o anel da Grande Serpente em seu dedo do meio. Quando se tornasse Aes Sedai, usaria o anel no dedo em que escolhesse, ou não usaria, se fosse preciso esconder quem era, mas as Aceitas usavam a Grande Serpente apenas no dedo do meio.

Impassível, a Amyrlin levantou Egwene.

— Seja bem-vinda, Filha — disse, beijando-lhe a face. Egwene surpreendeu-se com a empolgação que sentiu. Não criança, mas filha. Antes, ela sempre fora chamada de criança. A Amyrlin beijou sua outra face. — Bem-vinda.

Dando um passo atrás, a Amyrlin a analisou com um olhar crítico, mas dirigiu-se a Sheriam.

— Leve-a para se secar e vestir umas roupas, depois certifique-se de que ela está bem. Certifique-se, entendeu?

— Eu tenho certeza, Mãe — Sheriam soou surpresa. — A senhora me viu examiná-la.

A Amyrlin soltou um grunhido e olhou para o ter’angreal.

— Pretendo descobrir o que deu errado aqui hoje. — Ela avançou na direção em que seus olhos estavam cravados, com passos rápidos e seguros, as saias balançando. A maioria das outras Aes Sedai juntou-se a ela ao redor do ter’angreal, que então era apenas uma estrutura prateada de arcos sobre aros.

— A Mãe está preocupada com você — disse Sheriam, enquanto levava Egwene para um canto, onde havia uma toalha grossa para o cabelo e outra para o corpo.

— Ela tem motivo? — perguntou Egwene.

A Amyrlin não quer que nada aconteça a seu cão de caça antes que o cervo seja abatido.

Sheriam não respondeu. Apenas franziu de leve a testa, aguardou Egwene se secar e entregou-lhe um vestido branco com sete faixas na barra.

Ela vestiu a roupa com uma pontada de decepção. Era uma Aceita, tinha o anel e o vestido com as faixas. Por que não me sinto diferente?

Elaida aproximou-se, trazendo o vestido e os sapatos de noviça de Egwene, além do cinto e da bolsa. E os papéis que Verin havia entregado a ela. Nas mãos de Elaida.

Egwene forçou-se a aguardar que a mulher entregasse a trouxa em vez de agarrá-la.

— Obrigada, Aes Sedai.

Tentou dar uma olhadela furtiva nos papéis, mas não soube dizer se alguém tinha mexido neles. O barbante ainda estava amarrado. Como vou saber se ela não leu tudo? Espremeu a bolsa escondida sob o vestido de noviça e sentiu o estranho anel, o ter’angreal, do lado de dentro. Pelo menos isso ainda está aqui. Luz, ela poderia tê-lo levado, e não sei se eu teria me importado. Sim, teria. Acho que teria.

O rosto de Elaida estava tão frio quanto sua voz.

— Não queria que você fosse Aceita hoje à noite. Não por temer o que aconteceu, ninguém poderia prever uma coisa dessas. Mas pelo que você é. Uma bravia. — Egwene tentou protestar, mas Elaida continuou, implacável como um vento glaciaclass="underline" — Sim, sei que você aprendeu a canalizar instruída pelas Aes Sedai, mas ainda assim é uma bravia. Bravia no espírito, bravia nos modos. Você tem um potencial enorme, caso contrário não teria sobrevivido a esta noite, mas potencial não muda nada. Não acredito que você algum dia venha a fazer parte da Torre Branca, não do jeito que todas nós fazemos, não importa em qual dedo use o anel. Teria sido melhor se tivesse se contentado a aprender o suficiente para sobreviver e voltado para sua aldeia pacata. Muito melhor. — Ela se virou e saiu da sala, a passos largos.

Se ela não for da Ajah Negra, pensou Egwene com amargura, é quase isso.

— Você poderia ter falado alguma coisa. Poderia ter me ajudado.