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— Eu teria ajudado uma noviça, criança — retrucou Sheriam, muito calma, e Egwene estremeceu. Voltara a ser chamada de “criança”. — Tento defender as noviças quando é preciso, pois elas não são capazes de fazer isso sozinhas. Você agora é uma Aceita. Já é hora de aprender a se defender.

Egwene examinou os olhos de Sheriam e se perguntou se a ênfase na última frase teria sido sua imaginação. A Mestra das Noviças tivera tanta oportunidade quanto Elaida de ler a lista de nomes e concluir que Egwene estava mancomunada com a Ajah Negra. Luz, você está começando a suspeitar de todo mundo. Melhor do que morrer ou ser capturada por treze delas e… Ela interrompeu a linha de pensamento mais do que depressa: não queria aquilo martelando em sua cabeça.

— Sheriam, o que aconteceu hoje? — perguntou. — Não me enrole. — A mulher ergueu as sobrancelhas quase até o alto da testa, e Egwene corrigiu a pergunta: — Quer dizer, Sheriam Sedai. Peço perdão, Sheriam Sedai.

— Lembre-se de que ainda não é uma Aes Sedai, criança. — Apesar da rigidez da voz, um sorriso formou-se nos lábios da mulher, mas desapareceu assim que ela continuou a falar. — Não sei o que aconteceu. Só sei que creio piamente que você quase tenha morrido.

— Quem sabe o que acontece com as que não saem de um ter’angreal? — perguntou Alanna, juntando-se a elas. A irmã Verde era conhecida pelo gênio forte e pelo senso de humor, e diziam que era capaz de ir de um a outro em um piscar de olhos. Mas o olhar que ela lançou a Egwene era quase acanhado. — Criança, eu deveria ter interrompido tudo quando tive a chance, quando comecei a perceber a… reverberação. E ela voltou. Foi isso o que aconteceu. Voltou mil vezes mais forte. Dez mil. O ter’angreal parecia quase estar tentando interromper o fluxo de saidar, ou se desintegrar no chão. Peço desculpas, embora palavras não sejam o suficiente pelo que quase aconteceu a você. Por causa do Primeiro Juramento, você sabe que digo a verdade. Para mostrar meu remorso, pedirei à Mãe que me deixe dividir seu tempo nas cozinhas. E suas visitas a Sheriam. Se eu tivesse feito o que deveria, não teria posto sua vida em risco, e pretendo reparar meu erro.

Sheriam soltou uma risada escandalizada.

— Ela nunca permitirá isso, Alanna. Uma irmã nas cozinhas, que dirá… Nunca se ouviu falar de algo assim. É impossível! Você fez o que julgou certo. Não tem culpa nenhuma.

— Não foi culpa sua, Alanna Sedai — concordou Egwene. Por que Alanna está fazendo isso? Talvez queira me convencer de que não teve nada a ver com o que deu errado. E talvez queira me vigiar o tempo todo. Foi a imagem de uma Aes Sedai orgulhosa com os cotovelos enfiados em panelas gordurosas três vezes por dia, só para vigiar alguém, que a convenceu de que estava deixando sua imaginação ir longe demais. Porém, também era impensável que Alanna fizesse o que disse que faria. Em qualquer um dos casos, a irmã Verde decerto não tivera chance de ver os nomes enquanto cuidava do ter’angreal. Mas, se Nynaeve estiver certa, ela não precisaria ver os nomes para querer me matar, se for da Ajah Negra. Pare com isso! — Não foi mesmo, de verdade.

— Se eu tivesse feito o que deveria — insistiu Alanna —, isso nunca teria acontecido. A única vez que vi uma coisa dessas foi há anos, quando tentamos usar, no mesmo recinto, dois ter’angreal que talvez estivessem relacionados de alguma forma. É extremamente raro encontrar dois assim. Ambos se desintegraram, e todas as irmãs que se encontravam em um raio de cem passos tiveram uma dor de cabeça tão forte que foram incapazes de canalizar sequer uma gota por uma semana. Qual é o problema, criança?

Egwene espremera a mão dentro da bolsa até o anel de pedra retorcido formar uma marca em sua palma por cima do tecido grosso. Estava quente? Luz, a culpa foi minha.

— Nada, Alanna Sedai. Aes Sedai, a senhora não fez nada de errado. Não há motivo para dividir minhas punições. Motivo nenhum!

— Um tanto veemente — observou Sheriam —, mas correto.

Alanna apenas balançou a cabeça.

— Aes Sedai — continuou Egwene, devagar —, o que significa ser da Ajah Verde?

Sheriam arregalou os olhos, bem-humorada, e Alanna abriu um largo sorriso.

— Mal pôs o anel no dedo — respondeu a irmã Verde — e já está pensando em que Ajah escolherá? Primeiro, você precisa amar os homens. Não digo estar apaixonada, mas amá-los. Não como as Azuis, que só gostam de homens desde que compartilhem de suas causas e não fiquem no caminho. E sem dúvida não como as Vermelhas, que os desprezam como se cada um deles fosse responsável pela Ruptura. — Alviarin, a irmã Branca que viera com a Amyrlin, lançou-lhes um olhar indiferente e continuou andando. — E nem como as Brancas — completou Alanna, com uma risada —, que não têm lugar em suas vidas para qualquer tipo de paixão.

— Não foi o que eu quis dizer, Alanna Sedai. Quero saber o que significa ser uma irmã Verde. — Ela não sabia ao certo se Alanna entenderia, já que ela mesma não tinha certeza de que compreendia o que queria saber, mas Alanna assentiu devagar, como se entendesse.

— Marrons buscam conhecimento, Azuis se metem em causas, e Brancas contemplam as questões da verdade com lógica implacável. Nós fazemos um pouco de tudo isso, é claro. Mas ser uma Verde significa estar a postos. — Um tom de orgulho transparecia na voz de Alanna. — Nas Guerras dos Trollocs, éramos conhecidas como a Ajah Guerreira. Todas as Aes Sedai ajudavam onde e quando podiam, mas apenas a Ajah Verde estava sempre ao lado dos exércitos, em quase todas as batalhas. Éramos a oposição aos Senhores do Medo. A Ajah Guerreira. E agora continuamos a postos, aguardando que os Trollocs invadam o sul mais uma vez, à espera de Tarmon Gai’don, a Última Batalha. Estaremos lá. É isso que significa ser uma Verde.

— Obrigada, Aes Sedai — respondeu Egwene. É isso que eu era? Ou o que serei? Luz, queria tanto saber se aquilo foi real, se teve alguma relação com aqui e agora.

A Amyrlin se aproximou, e todas se curvaram em mesuras profundas.

— Você está bem, Filha? — perguntou ela a Egwene. Seus olhos captaram a ponta dos papéis nas mãos de Egwene, que se projetavam por debaixo o vestido de noviça, e voltaram-se para o rosto dela no mesmo instante. — Saberei o motivo dos acontecimentos de hoje antes de terminar por aqui.

Egwene enrubesceu.

— Estou bem, Mãe.

Alanna surpreendeu Egwene ao pedir à Amyrlin exatamente o que disse que pediria.

— Nunca ouvi falar de uma coisa dessas — vociferou a Amyrlin. — O dono do barco não se mete com os estivadores, mesmo se tiver enfiado o barco em um lodaçal. — Ela olhou para Egwene e estreitou os olhos, preocupada. E irritada. — Compartilho da sua preocupação, Alanna. Seja lá o que essa criança tenha feito, não merecia isso. Muito bem. Se vai acalmar seu coração, pode visitar Sheriam. Mas isso fica estritamente entre vocês duas. Não aceitarei que Aes Sedai sejam expostas ao ridículo, nem mesmo dentro da Torre.

Egwene abriu a boca para confessar tudo e deixar que elas levassem o anel — eu nem quero essa porcaria, na verdade —, mas Alanna se antecipou.

— E a outra punição, Mãe?

— Não seja ridícula, Filha. — A Amyrlin estava com raiva e soava ainda mais irritada a cada palavra. — Você seria motivo de chacota, ou então tida como louca. E não pense que isso não iria afetar seu futuro. Histórias assim arrumam um jeito de se espalhar. Ouviríamos falar sobre a Aes Sedai ajudante de cozinha de Tear a Maradon. E isso prejudicaria todas as irmãs. Não. Se precisa se livrar de algum sentimento de culpa e não é capaz de lidar com ele como uma mulher, muito bem. Eu já disse que pode visitar Sheriam. Acompanhe-a hoje à noite, quando sair daqui. Assim terá o resto da noite para decidir se isso ajudou em alguma coisa. E amanhã pode começar a investigar o que aconteceu de errado aqui!