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— Sim, Mãe. — A voz de Alanna era perfeitamente neutra.

O desejo de confessar morreu dentro de Egwene. Alanna demonstrara apenas um breve lampejo de decepção ao perceber que a Amyrlin não permitiria que ela se juntasse a Egwene nas cozinhas. Ela não deseja ser punida mais do que qualquer pessoa sensata. Queria apenas uma desculpa para estar em minha companhia. Luz, ela não poderia ter causado o problema no ter’angreal, fui eu quem fiz aquilo. Será que ela é da Ajah Negra?

Perdida em pensamentos, Egwene ouviu um pigarro, e depois outro, mais áspero. Apertou os olhos. A Amyrlin a encarava, e, quando falou, pronunciou bem cada palavra.

— Como parece estar dormindo em pé, criança, sugiro que vá para a cama. — Por um instante, ela dirigiu o olhar aos papéis quase escondidos nas mãos de Egwene. — Você tem muito trabalho a fazer amanhã, e por muitos outros dias. — Encarou Egwene por mais um instante, e saiu a passos largos antes que qualquer uma delas pudesse se curvar em uma reverência.

Sheriam virou-se para Alanna assim que a Amyrlin saiu do alcance de sua voz. A Aes Sedai Verde fechou a cara e manteve-se em silêncio.

— Você está louca, Alanna! Uma idiota, e duplamente idiota se acha que vou pegar leve com você só porque fomos noviças juntas. Por acaso foi tomada pelo Dragão, para estar…? — De repente, Sheriam se deu conta da presença de Egwene, e o alvo de sua raiva mudou. — Eu não ouvi o Trono de Amyrlin mandá-la para a cama, Aceita? Se sussurrar sequer uma palavra sobre isso, vai desejar que eu tivesse enterrado você em um campo para servir de adubo. Nos veremos amanhã de manhã no meu gabinete, quando o sino soar a primeira hora, nem um segundo depois. Agora, vá!

Egwene saiu, a mente em turbilhão. Será que posso confiar em alguém? Na Amyrlin? Ela nos mandou à caça de treze Ajah Negras e se esqueceu de mencionar que treze é o número necessário para levar à Sombra, contra vontade, uma mulher capaz de canalizar. Em quem posso confiar?

Ela não queria ficar sozinha, nem podia aguentar pensar naquilo, então correu até o alojamento das Aceitas, pensando que no dia seguinte ela própria se mudaria para lá, e abriu a porta de Nynaeve um instante depois de bater. Podia confiar nela em relação a tudo. Nela e em Elayne.

Nynaeve, porém, estava sentada em uma das duas cadeiras do aposento, com a cabeça de Elayne enterrada em seu colo. Os ombros de Elayne se sacudiam ao som de um choro, o choro suave que vem quando não resta energia para soluços mais profundos, mas a emoção ainda arde. O rosto de Nynaeve também estava molhado. O anel da Grande Serpente que brilhava em sua mão ao acariciar os cabelos da Filha-herdeira era idêntico ao anel na mão de Elayne que agarrava a saia de Nynaeve.

A jovem, que chorava baixinho, ergueu o rosto vermelho e inchado, fungando entre os soluços ao notar a recém-chegada.

— Eu não posso ser tão horrível, Egwene. Não posso!

O acidente com o ter’angreal, o temor de que alguém pudesse ter lido os papéis que Verin havia lhe entregado, as suspeitas sobre todas as presentes naquela sala, tudo fora terrível, mas servira para distanciá-la de uma forma ríspida e violenta dos acontecimentos dentro do ter’angreal. Tinham vindo de fora, e tudo o mais estava dentro dela. As palavras de Elayne romperam a barreira, e o que estava dentro de Egwene a atingiu como se o teto tivesse desabado. Rand, seu marido, e Joiya, sua bebê. Rand preso, implorando que ela o matasse. Rand acorrentado e prestes a ser amansado.

Antes de se dar conta dos próprios movimentos, estava ajoelhada ao lado de Elayne, e todas as lágrimas que deveriam ter se derramado antes passaram a cair, como uma torrente.

— Não pude ajudá-lo, Nynaeve — soluçou. — Simplesmente o larguei lá.

A mulher recuou, como se atingida por um soco, mas no instante seguinte já abraçava Egwene e Elayne, envolvendo e embalando as duas.

— Calma — entoou, baixinho. — Vai melhorar com o tempo. Vai melhorar um pouco. Um dia, faremos todas elas pagarem. Calma… calma.

24

Investigações e Descobertas

A luz do sol que entrava pelas persianas esculpidas e começava a invadir a cama acordou Mat. Por um instante, ele permaneceu deitado com o cenho franzido. Não conseguira bolar um plano para fugir de Tar Valon antes que o sono o dominasse, porém também não desistira. Muitas lembranças ainda estavam enevoadas, mas ele não desistiria.

Duas serviçais entraram, agitadas, trazendo água quente e uma bandeja pesada de comida, rindo e dizendo que ele já parecia melhor e logo estaria de pé outra vez, se seguisse as ordens da Aes Sedai. Ele respondeu em um tom seco, tentando não soar amargo. Deixe pensarem que pretendo obedecer. Seu estômago roncou com os aromas que vinham da bandeja.

Quando as mulheres foram embora, Mat jogou o cobertor de lado e pulou da cama, parando apenas para enfiar uma fatia de presunto na boca antes de preparar a água para fazer a barba e se lavar. Encarou o espelho acima do lavatório e parou, ensaboando o rosto. De fato parecia melhor.

O rosto ainda estava magro, mas não tanto quanto antes. As olheiras tinham sumido, e seus olhos já não pareciam tão encovados. Era como se cada mordida que dera na noite anterior houvesse servido para engordá-lo. Ele até se sentia mais forte.

— Neste ritmo — balbuciou —, vou embora antes que elas percebam.

No entanto, ainda se surpreendeu quando, depois de se barbear, sentou-se e devorou cada pedacinho de presunto, nabos e peras na bandeja.

Tinha certeza de que esperavam que ele voltasse para a cama depois de comer, mas, em vez disso, se vestiu. Batendo os pés para acomodá-los dentro das botas, olhou a muda de roupas sobressalente e decidiu deixá-las ali, por enquanto. Primeiro, preciso saber o que fazer. E, se eu tiver que deixá-las… Enfiou os copos de dados na bolsa. Com eles, conseguiria todas as roupas de que precisasse.

Abriu a porta e espiou o lado de fora. Outras portas de madeira clara e dourada se enfileiravam pelo corredor, com tapeçarias coloridas entre elas, e uma tira de carpete azul marcava o caminho no piso branco azulejado. Nenhum guarda. Ele jogou o manto por cima do ombro e saiu correndo. Tinha que encontrar uma saída.

Precisou perambular um pouco, descendo escadas e cruzando corredores e pátios abertos, até encontrar o que procurava: uma porta de saída. Antes disso, viu algumas pessoas: serviçais e noviças de branco, andando, apressadas, para cuidar de suas tarefas, as noviças correndo ainda mais que as serviçais. E também um punhado de serviçais homens vestidos de maneira rústica e carregando grandes armaduras e outras cargas pesadas, além de Aceitas em vestidos de barras listradas. Até algumas Aes Sedai.

Estas não pareciam notá-lo, concentradas no que quer que fosse, ou no máximo lhe lançavam uma olhadela. As roupas dele eram simples, mas de qualidade. Não aparentava ser um vagabundo, e a presença dos serviçais comprovava que era permitida a circulação de homens naquela parte da Torre. Suspeitou que elas talvez o tomassem por mais um serviçal, e para ele isso estava ótimo, desde que ninguém lhe pedisse para carregar alguma coisa.

Mat sentia certa frustração por não ter cruzado com Egwene, Nynaeve ou até Elayne. Ela é bonita, mesmo com aquele nariz em pé o tempo todo. E poderia me ajudar a encontrar Egwene e a Sabedoria. Não posso ir embora sem me despedir. Luz, será que alguma delas me entregaria, só porque agora estão prestes a se tornarem Aes Sedai? Que me queime, mas que idiota! Elas nunca fariam uma coisa dessas. De todo modo, vale o risco.

Entretanto, uma vez do lado de fora, sob o céu claro da manhã com apenas algumas nuvens brancas, ele afastou as mulheres de seus pensamentos. Estava diante de um grande pátio de pedras com uma fonte plana no centro e uma caserna do outro lado, feita de pedras cinzentas. Parecia quase um imenso rochedo entre as poucas árvores que cresciam em meio a buracos com aros nas pedras próximas. Havia guardas uniformizados diante do edifício largo e baixo, vigiando armas, armaduras e arreios. Guardas eram o que ele queria agora.