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Perambulou pelo pátio e observou os soldados como se não tivesse nada melhor a fazer. Enquanto trabalhavam, eles conversavam e riam entre si, como homens após a colheita. Vez ou outra, algum olhava com curiosidade para Mat, que passeava entre eles, mas nenhum questionou seu direito de estar ali. De tempos em tempos, o rapaz perguntava alguma coisa, displicente. Por fim, conseguiu a resposta que buscava.

— Guarda da ponte? — perguntou um homem robusto de cabelos escuros, no máximo cinco anos mais velho que Mat. Falava com um forte sotaque illianense. Por mais jovem que fosse, uma fina cicatriz branca cruzava sua face esquerda, e as mãos que lubrificavam a espada se moviam com familiaridade e competência. Ele apertou os olhos para Mat antes de voltar à tarefa. — Eu, no caso, vigio a ponte, e estarei de volta lá hoje à noite. Por que pergunta?

— Estava só imaginando quais seriam as condições do outro lado do rio. — É melhor eu descobrir isso também. — Boas para viajar? Não pode estar lamacento, a não ser que tenha chovido mais do que estou sabendo.

— De que lado do rio? — perguntou o guarda, muito calmo. Não tirou os olhos do trapo besuntado que esfregava na lâmina.

— Ah… para o leste. Para o lado leste.

— Nada de lama. Mantos-brancos. — O homem inclinou-se para um dos lados e cuspiu, mas não alterou a voz. — Sim, os Mantos-brancos estão metendo o nariz em todas as aldeias em um raio de dez milhas. Ainda nem feriram ninguém, no caso, mas a mera presença deles incomoda o pessoal. Que a Sorte me espicace se nem estiverem querendo nos provocar, pois de fato parece que atacariam, se pudessem. Nada bom para quem, no caso, quer viajar.

— E para o oeste, então?

— Mesma coisa. — O guarda ergueu o olhar para Mat. — Mas o senhor vai cruzar é nada, meu camarada, nem a leste nem a oeste. Sim, seu nome, no caso, é Matrim Cauthon, ou a Sorte que me abandone. Ontem à noite uma irmã, a própria em pessoa, veio até a ponte onde monto guarda. Ela descreveu você com detalhes até que cada um de nós pudesse repetir a descrição. Um convidado, ela disse, e nem podemos machucá-lo. Mas nem podemos também permitir que saia da cidade, ainda que seja preciso amarrar seus pés e mãos. — Ele apertou os olhos. — Será que, no caso, o senhor roubou alguma coisa delas? — perguntou, desconfiado. — Nem tem cara de ser um dos convidados das irmãs.

— Eu não roubei nada! — gritou Mat, indignado. Que me queime, nem tive a chance de facilitar as coisas. Eles todos devem saber quem sou. — Não sou nenhum ladrão!

— Sim, nem é que isso esteja estampado na sua cara. Nada de ladroagem. Mas o senhor é, no caso, parecido com o sujeito que tentou me vender a Trombeta de Valere três dias atrás. Pelo menos foi o que ele disse que era, toda arrebentada e avariada como estava. O senhor está vendendo uma Trombeta de Valere? Ou quiçá seria a espada do Dragão?

Mat deu um salto ao ouvir a menção à Trombeta, mas conseguiu manter a voz firme.

— Eu estava doente. — Agora, outros guardas olhavam para ele. Luz, todos eles já sabem que não tenho permissão para sair. Ele forçou uma risada. — As irmãs me Curaram. — Alguns guardas franziram a testa. Talvez achassem que os homens deveriam demonstrar mais respeito do que chamar as Aes Sedai de irmãs. — Acho que as Aes Sedai não querem que eu saia antes de recuperar todas as forças. — Ele tentou convencer os homens, todos os que agora o observavam, a aceitar aquilo. Apenas um homem Curado. Nada mais. Não há razão para grandes preocupações.

O illianense assentiu.

— O senhor de fato está com cara de doente. Talvez esse seja mesmo, no caso, o motivo. Mas nunca ouvi falar de tantos esforços para manter um doente na cidade.

— Esse é o motivo — disse Mat, com firmeza. Todos ainda o encaravam. — Bem, preciso ir. Elas disseram que preciso caminhar. Muitas caminhadas longas. Para recuperar a força, entendem?

Ao se virar, sentiu todos os olhos o acompanhando e fechou a cara. Só queria descobrir o quanto sua descrição havia se espalhado. Se somente os guardas da ponte a tivessem, talvez ele conseguisse escapulir. Sempre tivera talento para entrar nos lugares sem ser notado. E sair deles. Era um talento que um sujeito desenvolvia quando tinha uma mãe que sempre suspeitava de que ele estivesse aprontando alguma, além de duas irmãs dedos-duros. Agora acabei de garantir que quase todos os guardas da caserna me reconheçam. Sangue e malditas cinzas!

A Torre tinha muitos jardins arborizados, repletos de folhas-de-couro, ulmeiros e malaleucas, e logo ele se viu percorrendo um amplo caminho de cascalhos. Poderia levar a um campo, se não fossem as torres visíveis acima das copas das árvores, e a magnitude branca da própria Torre, que estava atrás dele, mas o pressionava como se ele a carregasse nos ombros. Se houvesse algum caminho para fora dos muros da Torre que não fossem vigiados, aquele parecia o local certo para encontrá-lo. Se ele existisse.

Uma garota em roupas brancas de noviça surgiu diante dele, caminhando em sua direção a passos largos e decididos. Perdida nos próprios pensamentos, ela não o viu de primeira. Quando se aproximou o suficiente para que ele visse seus olhos grandes e negros e a forma com que seus cabelos estavam trançados, ele abriu um sorriso. Conhecia a garota, as lembranças emergiam de profundezas ocultas, embora jamais esperasse encontrá-la ali. Na verdade, achava que não a veria nunca mais. Ele sorriu para si mesmo. Sorte para equilibrar o azar. Pelo que lembrava, ela era muito atenta aos rapazes.

— Else — chamou ele. — Else Grinwell. Você se lembra de mim, não é? Mat Cauthon. Um amigo e eu visitamos a fazenda do seu pai. Lembra? Então você decidiu se tornar Aes Sedai?

Ela parou de repente, olhando para ele.

— O que você está fazendo aqui fora? — perguntou, com frieza.

— Você está sabendo, não é? — Ele se aproximou dela, mas ela recuou, mantendo a distância. Ele parou. — Não é contagioso. Eu fui Curado, Else. — Os olhos grandes e negros pareciam mais astutos e menos afetuosos do que ele se recordava, porém ele supôs que a preparação para se tornar Aes Sedai pudesse ter esse efeito. — Qual é o problema, Else? Parece até que você não me conhece.

— Eu conheço você — respondeu ela. Os modos da moça também não eram os mesmos de antes. Ele pensou que ela agora talvez desse aulas a Elayne. — Eu tenho… um trabalho a fazer. Me deixe passar.

Ele fez uma careta. O corredor era largo o bastante para seis pessoas caminharem lado a lado sem se esbarrar.

— Eu disse que não é contagioso.

— Me deixe passar!

Resmungando para si mesmo, ele deu um passo para o canto. Ela passou pelo outro lado, observando-o para garantir que ele não se aproximaria. Depois de passar, a jovem apressou o passo, olhando por cima do ombro até fazer uma curva e desaparecer.

Ela quis ter certeza de que eu não a seguiria, pensou, amargo. Primeiro os guardas, e agora Else. Estou sem sorte hoje.

Ele voltou a caminhar e logo ouviu uma intensa algazarra de um lado mais à frente, como o som do açoite de dez varas ao mesmo tempo. Curioso, tomou um desvio em direção ao barulho, para dentro das árvores.

Um pequeno caminho o conduziu a uma extensa área de chão batido, com pelo menos cinquenta passos de comprimento e quase o dobro de largura. Entremeados sob as árvores ao redor, havia suportes de madeira contendo bastões e espadas de treino feitas de ripas de madeira frouxamente atadas, além de algumas espadas de verdade, machados e lanças.