— Acabei de sair de uma — disse Mat — e estou preparado. Tenho que estar. Não quero perder meus dois marcos.
Hammar ergueu as sobrancelhas pesadas, surpreso.
— Pretende levar adiante essa aposta, rapaz?
— Preciso do dinheiro. — Mat deu uma risada.
A risada foi interrompida de repente quando se virou em direção ao suporte mais próximo que continha os bastões, e seus joelhos quase cederam. Ele se aprumou com tanta rapidez que achou que qualquer um que tivesse notado teria pensado que ele acabara de tropeçar. Diante do suporte, tomou tempo e escolheu um bastão de quase duas polegadas de diâmetro, quase um pé maior que ele. Preciso vencer. Fui abrir essa boca idiota, e agora preciso vencer. Não posso perder esses dois marcos. Sem eles para começar, levarei a vida inteira para ganhar todo o dinheiro de que preciso.
Quando se virou, segurando o bastão à frente com as duas mãos, Gawyn e Galad já o aguardavam. Preciso vencer.
— Sorte — murmurou. — Está na hora de jogar os dados.
Hammar lhe lançou um olhar estranho.
— Você fala a Língua Antiga, rapaz?
Mat o encarou por um instante, calado. Sentiu um calafrio. Obrigou-se a começar a caminhar até o pátio de treinamento.
— Lembrem-se da aposta — disse, em voz alta. — Dois marcos de prata de cada um, contra dois meus.
Um murmúrio percorreu o grupo das Aceitas quando perceberam o que estava acontecendo. As Aes Sedai observavam em silêncio. Silêncio reprovador.
Gawyn e Galad se separaram, um de cada lado de Mat, mantendo a distância, as duas espadas apenas parcialmente erguidas.
— Nada de apostas — disse Gawyn. — Não vamos apostar.
— Não vou levar seu dinheiro desse jeito — disse Galad, ao mesmo tempo.
— Eu pretendo levar o de vocês — respondeu Mat.
— Resolvido! — rosnou Hammar. — Se eles não têm coragem de cobrir a aposta, rapaz, eu mesmo pago o resultado.
— Muito bem — retrucou Gawyn. — Se o senhor insiste… combinado!
Galad hesitou mais um instante e grunhiu:
— Combinado, então. Vamos acabar de uma vez com essa palhaçada.
A breve advertência era só tudo de que Mat precisava. Enquanto Galad avançava, ele deslizou as mãos pelo bastão e passou a girá-lo. A extremidade do bastão acertou com um baque as costelas do rapaz alto, que soltou um grunhido e cambaleou. Mat afastou o bastão de Galad e o girou, no mesmo instante em que Gawyn se colocava a seu alcance. O bastão se inclinou, passou por cima da espada de treino de Gawyn e golpeou seu tornozelo em uma rasteira. Enquanto Gawyn caía, Mat completou o giro a tempo de pegar Galad pelo punho erguido, jogando a espada de treino para longe. Como se não sentisse dor alguma no pulso, Galad lançou-se em um suave mergulho para o chão, rolou e se levantou, segurando a espada com ambas as mãos.
Ignorando-o por um instante, Mat se virou um pouco e, com um movimento ágil dos punhos, investiu com o bastão para o lado. Gawyn, que começava a se levantar, foi atingido em um dos lados da cabeça com um baque alto, apenas parcialmente suavizado pelos cabelos. Ele desabou.
Mat teve a vaga consciência de que uma Aes Sedai correra para socorrer o irmão de Elayne. Espero que ele esteja bem. Deve estar. Já levei pancadas mais fortes que essa pulando muros. Ele ainda precisava dar conta de Galad, e, pela posição do rapaz, equilibrado nas pontas dos pés e erguendo a espada com precisão, ele tinha começado a levar Mat a sério.
Suas pernas escolheram justo aquele instante para cambalear. Luz, não posso fraquejar agora. Mas ele sentiu outra vez, insinuando-se, aquela sensação de fraqueza, aquela fome, como se não comesse havia dias. Se eu esperar ele me atacar, vou cair de cara no chão. Foi difícil manter os joelhos firmes no início da investida. Sorte, não me abandone.
Desde o primeiro golpe ele soube que aquela sorte, habilidade ou o que quer que o tivesse feito vencer até ali ainda persistia. Galad conseguiu desviar do golpe com um estrépito, e do seguinte, e do seguinte, mas o cansaço era visível em seu rosto. Aquele espadachim competente, quase tão bom quanto um Guardião, lutava com toda a sua habilidade para aparar os golpes do bastão de Mat. Ele não atacava, só era capaz de se defender. Deslocava-se o tempo inteiro para o lado, tentando não ser forçado a recuar, e Mat o encurralava, o bastão se movendo tão rápido que parecia um borrão. Galad recuava e desviava: a lâmina de madeira era um fino escudo contra o bastão.
A fome consumia Mat como se ele tivesse engolido um trator. O suor caía em seus olhos, e sua força começou a se esvair como se levada com o suor. Ainda não. Não posso cair ainda. Preciso vencer. Agora. Com um rugido, lançou toda a reserva de força em uma última explosão.
O bastão, rápido como um raio, desviou da espada de Galad e atingiu joelho, punhos e costela, chegando enfim ao estômago de Galad feito uma lança. O aluno soltou um grunhido e se curvou, tentando não cair. Mat aplicou um último golpe na garganta. Galad desabou no chão.
Mat quase largou o bastão quando percebeu o que estava prestes a fazer. Vencer, não matar. Luz, o que é que eu estava pensando? Por reflexo, apoiou o bastão no chão, e assim que o fez precisou daquele apoio para manter-se ereto. A fome o consumia como uma faca escavando o tutano de dentro de um osso. De súbito, percebeu que as Aes Sedai e Aceitas não eram as únicas espectadoras. Toda a prática e todo o treino haviam parado. Guardiões e alunos os observavam.
Hammar aproximou-se de Galad, que ainda gemia no chão e tentava se levantar. O Guardião gritou:
— Quem foi o maior mestre espadachim de todos os tempos?
Das bocas de dezenas de alunos saiu a resposta, em uníssono:
— Jearom, Gaidin!
— Isso! — gritou Hammar, virando-se para que todos os ouvissem. — Durante toda a vida, Jearom lutou mais de dez mil vezes, em batalhas e duelos. Foi derrotado uma única vez. Por um fazendeiro com um bastão! Lembrem-se disso. Lembrem-se do que acabaram de ver. — Ele olhou para Galad, no chão, e baixou a voz. — Se não conseguir se levantar agora, rapaz, a luta acabou. — Ergueu a mão, e as Aes Sedai e Aceitas se apressaram para cercar Galad.
Mat deslizou as mãos pelo bastão e caiu de joelhos. Nenhuma das Aes Sedai sequer olhou em sua direção. Mas uma das Aceitas sim, uma garota corpulenta que talvez ele tivesse se animado em tirar para uma dança, se ela não fosse se tornar uma Aes Sedai. A moça franziu o rosto para ele e virou-se para espiar o que as Aes Sedai faziam em torno de Galad.
Gawyn estava de pé, percebeu Mat, aliviado. Quando Gawyn se aproximou, ele se levantou. Não posso deixar que percebam. Nunca sairei daqui se decidirem cuidar de mim para sempre. O sangue escurecia os cabelos ruivos na lateral da cabeça de Gawyn, mas não havia corte ou ferimento aparente.
Ele colocou dois marcos de prata nas mãos de Mat enquanto dizia:
— Acho que vou escutar da próxima vez. — Percebendo o olhar do rapaz, Gawyn tocou a cabeça. — Elas Curaram, mas não foi nada sério. Elayne já fez pior, mais de uma vez. Você é bom nisso.
— Não tanto quanto meu pai. Ele vence o torneio de bastão do Bel Tine todos os anos desde que me entendo por gente, exceto por uma ou duas vezes em que o pai de Rand venceu. — Os olhos de Gawyn voltaram a demonstrar interesse, e Mat desejou não ter mencionado Rand al’Thor. As Aes Sedai e Aceitas ainda estavam agrupadas em torno de Galad. — Eu… devo ter feito um estrago nele. Não foi minha intenção.
Gawyn olhou na direção do irmão. Não era possível ver nada além de dois círculos formados pelas costas das mulheres, os vestidos brancos de Aceitas por fora, enquanto elas espiavam por cima dos ombros das Aes Sedai agachadas. Então soltou uma risada.