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— Você não o matou. Eu o ouvi gemendo, então já deve estar de pé, mas elas não vão deixar passar essa chance, agora que puseram as mãos nele. Luz, quatro dessas são da Ajah Verde! — Mat lhe lançou um olhar confuso. Ajah Verde? O que é que isso tem a ver? Gawyn balançou a cabeça. — Não importa. Mas pode ter certeza de que o pior tormento de Galad agora é acabar virando Guardião de uma Aes Sedai Verde antes de clarear as ideias. — Ele riu. — Não, elas não fariam isso. Mas aposto esses meus dois marcos que estão na sua mão que algumas delas gostariam de fazer.

— Não são seus marcos — retrucou Mat, enfiando as moedas no bolso do casaco —, são meus. — A explicação não fez sentido para ele. Exceto que Galad estava bem. Tudo o que sabia a respeito do que se passava entre Guardiões e Aes Sedai eram os fragmentos do que se lembrava de Lan e Moiraine, e não havia nada entre eles que se parecesse com o que Gawyn parecia sugerir. — Acha que elas vão se irritar se eu for até lá pegar meu pagamento?

— É muito provável que sim — respondeu Hammar, secamente, juntando-se aos dois. — No momento, você não é muito bem quisto por essas Aes Sedai em particular. — Ele bufou. — Pensei que ao menos as Aes Sedai Verdes não agiriam feito garotas que acabaram de sair da barra da saia da mãe. E ele não é tão bonito assim.

— Não mesmo — concordou Mat.

Gawyn abriu um sorriso para os dois, até que Hammar cravou os olhos nele.

— Aqui — disse o Guardião, empurrando mais duas moedas de prata na mão de Mat. — Depois eu cobro de Galad. De onde você é, rapaz?

— Manetheren. — Mat congelou ao ouvir o nome sair de sua boca. — Quer dizer, sou de Dois Rios. Andei escutando muitas histórias antigas. — Os dois o encararam sem dizer uma palavra. — Eu… acho melhor voltar e ver se encontro algo para comer. — Nem o sino da meia-manhã havia soado ainda, mas os dois assentiram, como se aquilo fizesse sentido.

Ele pegou o bastão, que ninguém havia mandado devolver, e seguiu caminhando devagar, até que as árvores esconderam o pátio de treinamento. Quando isso aconteceu, ele se apoiou no bastão como se fosse a única coisa que o sustentasse. Não estava certo de que não era.

Pensou que, se abrisse o casaco, veria um buraco onde o estômago deveria estar; um buraco crescendo cada vez mais, tomando todo o seu corpo. No entanto, não pensava na fome. Continuava ouvindo vozes na cabeça. Você fala a Língua Antiga, rapaz? Manetheren. Um calafrio o percorreu. Que a Luz me ajude, estou me afundando cada vez mais. Preciso sair daqui. Mas como? Ele seguiu de volta para a Torre, apoiado no bastão como um homem muito, muito velho. Como?

25

Perguntas

Egwene estava deitada na cama de Nynaeve, o queixo apoiado nas mãos, observando-a andar de um lado para o outro. Elayne se encontrava esparramada diante da lareira, que ainda estava cheia das cinzas do fogo da noite anterior. Mais uma vez, Elayne estudava a lista de nomes que Verin havia fornecido, lendo cada palavra novamente, com muita paciência. As outras páginas, com a lista de ter’angreal, jaziam na mesa. Depois de uma única e chocante leitura, não voltaram a conversar a respeito dela, embora tenham falado sobre todo o resto. E discutido, também.

Egwene bocejou, cobrindo a boca com a mão. A manhã ainda estava na metade, mas nenhuma delas tinha dormido muito. Tiveram que levantar cedo. Para ajudar nas cozinhas e no café da manhã. Para outras coisas sobre as quais ela se recusava a pensar. As poucas horas de sono que conseguira foram repletas de sonhos desagradáveis. Talvez Anaiya pudesse me ajudar a entender os sonhos, aqueles que preciso entender, mas… e se ela for da Ajah Negra? Depois de olhar para cada mulher presente na noite anterior, perguntando-se qual delas seria da Ajah Negra, começava a achar muito difícil confiar em qualquer uma além de suas duas companheiras. No entanto, queria mesmo encontrar uma forma de interpretar aqueles sonhos.

Os pesadelos sobre o que havia acontecido dentro do ter’angreal na noite anterior eram muito fáceis de explicar, embora a tivessem feito acordar chorando. Ela também sonhara com os Seanchan, com mulheres em vestidos com raios bordados nos seios que encolaravam uma longa fileira de mulheres com anéis da Grande Serpente, forçando-as a lançar raios sobre a Torre Branca. Aquilo a fizera acordar suando frio, mas também devia ser só um pesadelo. E o sonho com os Mantos-brancos atando as mãos de seu pai. Um pesadelo causado pelas saudades de casa, supôs. Os outros, no entanto…

Ela olhou mais uma vez para as outras duas mulheres. Elayne ainda lia. Nynaeve ainda andava de um lado para o outro.

Houvera um sonho com Rand estendendo a mão para pegar uma espada que parecia feita de cristal, sem enxergar a fina rede que caía sobre ele. E outro dele ajoelhado em uma câmara onde um vento seco soprava poeira pelo chão, e figuras como a do estandarte do Dragão, porém menores, flutuavam e pousavam em sua pele. Houvera um sonho em que ele caminhava por um grande buraco dentro de uma montanha negra, um buraco repleto de um brilho avermelhado, como se grandes fogueiras ardessem lá embaixo, e até um sonho em que ele enfrentava os Seanchan.

Não estava certa a respeito desse último, mas sabia que os outros deviam significar alguma coisa. Quando ainda pensava que podia confiar em Anaiya, muito antes de ter deixado a Torre, antes de descobrir a verdade sobre a Ajah Negra, algumas perguntas que fizera com muito cuidado — muito, muito cuidado, para que Anaiya achasse que não passava da mesma curiosidade que ela demonstrava a respeito de outros assuntos — revelaram que os sonhos de uma Sonhadora com os ta’veren eram quase sempre significativos. E que, quanto mais forte o ta’veren, mais “quase sempre” se tornava “sempre”.

No entanto, Mat e Perrin eram ta’veren, e ela também havia sonhado com os dois. Sonhos estranhos, até mais difíceis de entender do que os com Rand. Perrin com um falcão no ombro, e Perrin com um gavião. Mas o gavião tinha as garras acorrentadas. Egwene estava convencida, de alguma forma, de que tanto o gavião quanto o falcão eram fêmeas. E o gavião tentava prender a corrente no pescoço de Perrin. Aquilo a fazia tremer mesmo acordada, não gostava de sonhar com correntes. E mais um sonho com Perrin — de barba! — conduzindo uma alcateia enorme, que se estendia até onde a visão alcançava.

Os sonhos com Mat tinham sido ainda piores. Mat colocando o próprio olho esquerdo no prato de uma balança. Mat enforcado em um galho de árvore. Também houve um sonho com o rapaz e os Seanchan, mas ela estava inclinada a descartá-lo como um pesadelo. Fora apenas um pesadelo. Assim como o outro, com Mat falando a Língua Antiga. Devia ter sonhado aquilo por conta do que ouvira durante a Cura dele.

Ela suspirou, e o suspiro transformou-se em outro bocejo. Depois do café da manhã, ela e as outras tinham ido até o quarto de Mat para ver como ele se sentia, mas o rapaz não estava lá.

Ele já deve estar bom até para dançar. Luz, eu provavelmente vou sonhar com danças com os Seanchan! Chega de sonhos, disse a si mesma, com firmeza. Não nesse momento. Pensarei neles quando não estiver tão cansada. Ela pensou nas cozinhas, na refeição do meio-dia que já se aproximava, e depois no jantar e no café da manhã do dia seguinte, e nas panelas, limpeza e esfregação que não acabavam mais. Se é que um dia eu não estarei tão cansada. Trocando de posição na cama, olhou outra vez para as amigas. Elayne ainda estava ocupada com a lista de nomes. Nynaeve andava mais devagar. A qualquer momento, Nynaeve dirá aquilo outra vez. A qualquer momento.

A mulher parou de supetão, encarando Elayne.