Выбрать главу

— Guarde isso. Já repassamos tudo mais de vinte vezes e não encontramos nada que ajudasse. Verin nos entregou um monte de lixo. A pergunta é: isso era tudo o que tinha ou ela nos deu esse monte de lixo de propósito?

Conforme o esperado. Talvez daqui a meia hora ela diga mais uma vez. Egwene encarou as mãos com a testa franzida, feliz por não poder vê-las direito. O anel da Grande Serpente parecia… deslocado… naquelas mãos enrugadas pela longa imersão em água quente e cheia de sabão.

— Saber os nomes delas ajuda — disse Elayne, ainda lendo. — Saber como elas são, também.

— Você entendeu muito bem o que eu quis dizer — retrucou Nynaeve, ríspida.

Egwene suspirou, cruzou os braços e apoiou o queixo neles. Quando saíra do gabinete de Sheriam naquela manhã, ainda sem um mísero lampejo de sol no horizonte, Nynaeve a aguardava com uma vela no corredor frio e escuro. Ela não pôde enxergar com muita clareza, mas teve certeza de que Nynaeve parecia prestes a explodir. E parecia saber que explodir não adiantaria de nada. Era por isso que estava tão irritada. Ela é tão orgulhosa quanto qualquer homem que já conheci. Mas não deveria descontar em Elayne ou em mim. Luz, se Elayne pode aguentar, ela também deveria poder. Ela não é mais a Sabedoria.

Elayne mal parecia notar se Nynaeve estava ou não irritada. Com a testa franzida, encarava o vazio, pensativa.

— Liandrin era a única Vermelha. Todas as outras Ajahs perderam duas mulheres.

— Ah, fique quieta, criança — resmungou Nynaeve.

Elayne balançou a mão esquerda para exibir o anel da Grande Serpente, lançou um olhar significativo a Nynaeve e prosseguiu.

— Não há duas nascidas na mesma cidade, e não mais que duas no mesmo país. Amico Nagoyin era a mais jovem, uns quinze anos mais velha que Egwene e eu. E Joiya Byir poderia ser a bisavó de nossa bisavó.

Egwene não apreciava o fato de uma Ajah Negra ter o mesmo nome de sua filha. Sua boba! Várias pessoas têm o mesmo nome, e você nunca teve uma filha. Não foi real!

— E o que isso nos diz? — Nynaeve tinha a voz tranquila demais: estava prestes a explodir feito uma carroça cheia de fogos de artifício. — Que segredos você descobriu que eu deixei passar? Estou mesmo ficando velha e cega!

— Isso nos diz que está tudo organizado demais — respondeu Elayne, com calma. — Quais são as chances de treze mulheres escolhidas unicamente por serem Amigas das Trevas estarem tão bem distribuídas entre países e Ajahs? Não deveria haver três Vermelhas, quatro nascidas em Cairhien, ou talvez duas da mesma idade, se fossem escolhidas ao acaso? Deveria haver muitas como opções, ou não conseguiriam tanta aleatoriedade. Ainda há Negras na Torre ou em algum outro lugar que desconhecemos. Só pode significar isso.

Nynaeve deu um puxão na trança, irritada.

— Luz! Acho que você pode estar certa. Realmente, encontrou segredos que eu não encontrei. Luz, esperava que todas tivessem ido embora com Liandrin.

— Nós sequer sabemos se ela é a líder — continuou Elayne. — Ela pode ter recebido a ordem de… se livrar de nós. — Ela comprimiu os lábios. — Acho que só consigo pensar em uma razão para terem escolhido mulheres tão diferentes entre si, para evitar qualquer padrão a não ser uma falta de padrão. Acho que isso significa que existe algum tipo de padrão na Ajah Negra.

— Se houver algum — disse Nynaeve, com firmeza —, nós vamos descobrir. Elayne, se observar sua mãe governar a corte fez você aprender a pensar assim, estou muito contente por ter prestado tanta atenção.

O sorriso que Elayne deu em resposta formou covinhas em suas bochechas.

Egwene olhou para a mulher mais velha com cautela. Parecia que Nynaeve enfim pararia de agir como um urso com dor de dente. Egwene ergueu a cabeça e disse:

— A não ser que queiram nos levar a pensar que estão escondendo algum padrão, para que percamos tempo procurando onde não existe nada. Não estou dizendo que não existe, só que ainda não sabemos. Vamos procurar, mas acho que precisamos procurar outras coisas também. Não acham?

— Até que enfim você decidiu se levantar — disse Nynaeve. — Pensei que tivesse pegado no sono. — A mulher ainda sorria.

— Ela está certa — concordou Elayne, enojada. — Construí uma ponte de palha. Pior que palha. De anseios. Talvez você também tenha razão, Nynaeve. De que adianta esse… lixo? — Ela pegou uma folha de papel da pilha à sua frente. — Rianna tem cabelos pretos com uma mecha branca acima da orelha esquerda. Se eu estiver enxergando isso, é porque estou mais perto dela do que gostaria. — Pegou outra folha. — Chesmal Emry é uma das Curandeiras mais talentosas que já se viu em anos. Luz, imagine só, ser Curada por uma Ajah Negra! — Ela pegou uma terceira folha. — Marillin Gemalphin gosta de gatos e para tudo o que está fazendo para socorrer um animal ferido. Gatos! Ora! — Ela espalhou as folhas e as amassou com as mãos. — É mesmo um monte de lixo.

Nynaeve ajoelhou-se ao lado dela e afastou delicadamente as mãos da jovem dos papéis.

— Talvez sim, talvez não. — Ela alisou as páginas com cuidado sobre o peito. — Você encontrou uma pista para seguirmos. Talvez encontremos outras, se formos persistentes. E ainda tem a outra lista. — Os olhos dela e os de Elayne saltaram para Egwene, olhos castanhos e azuis com a mesma expressão preocupada.

Egwene evitou olhar para a mesa onde estavam as outras folhas. Não queria pensar nelas, mas não podia evitar. A lista de ter’angreal já estava gravada em sua mente.

Item. Uma barra de cristal, lisa e perfeitamente límpida, com um pé de comprimento e uma polegada de diâmetro. Uso desconhecido. Última análise realizada por Corianin Nedeal. Item. A estatueta de uma mulher desnuda, de alabastro, uma mão de altura. Uso desconhecido. Última análise realizada por Corianin Nedeal. Item. Um disco, aparentemente de ferro simples, ainda não enferrujado, de três polegadas de diâmetro, com entalhes finos em ambos os lados, no formato de uma espiral compacta. Uso desconhecido. Última análise realizada por Corianin Nedeal. Muitos itens, e mais da metade com “uso desconhecido” e “última análise realizada por Corianin Nedeal”. Mais precisamente, treze.

Egwene estremeceu. Estou chegando ao ponto de não querer mais nem pensar nesse número.

Eram poucos os itens conhecidos da lista. Aparentemente, nem todos tinham utilidade real, mas ela imaginava que aquilo não era muito reconfortante. Um ouriço entalhado em madeira do tamanho da última junta do dedão de um homem. Uma coisa tão pequena, e sem dúvida inofensiva. Qualquer mulher que tentasse canalizar por esse objeto acabava dormindo. Meio dia de sono tranquilo e sem sonhos, mas era próximo demais para que Egwene não sentisse arrepios. Mais três tinham algo a ver com sono. Foi quase um alívio ler sobre uma barra estriada de pedra negra de um passo de comprimento que produzia fogo devastador, com o aviso PERIGOSO E QUASE IMPOSSÍVEL DE CONTROLAR, escrito à mão com tanta força que Verin havia chegado a rasgar o papel em dois lugares diferentes. Egwene ainda não fazia ideia do que era fogo devastador, mas, embora sem dúvida parecesse mais perigoso que tudo, também era certo que nada tinha a ver com Corianin Nedeal ou sonhos.

Nynaeve depositou as páginas alisadas na mesa. Hesitou antes de espalhar as outras e passar o dedo por uma, depois pela seguinte.

— Aqui tem uma coisa de que Mat iria gostar — disse, em uma voz leve e despreocupada demais. — Item. Um conjunto de seis dados entalhados, com junção nos cantos, de menos de duas polegadas. Uso desconhecido, salvo que canalizar por meio dele parece atrair a sorte de alguma forma ou causar uma reviravolta. — Ela começou a ler em voz alta. — “As moedas jogadas apresentavam a mesma face todas as vezes, e em um teste caíram de pé cem vezes seguidas. Mil lances do dado resultaram em cinco coroas mil vezes.” — Ela deu uma risada forçada. — Mat amaria isso.