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Egwene suspirou, se levantou e caminhou, ereta, até a lareira. Elayne se levantou com dificuldade, observando em silêncio, assim como Nynaeve. Egwene puxou a manga para cima o máximo que pôde e enfiou a mão com cuidado pela chaminé. Seus dedos tocaram uma lã dentro da câmara de fumaça, e ela tirou um chumaço de meia fina, empelotado no dedão. Limpou a sujeira de fuligem do braço, levou a meia até a mesa e a sacudiu. O anel retorcido de pedra listrada e manchada rodopiou e caiu em uma página da lista de ter’angreal. Por alguns instantes as três ficaram paradas, observando-o.

— Talvez — disse Nynaeve, por fim — Verin apenas não tenha atentado para o fato de que tantos deles tiveram a última análise feita por Corianin. — Ela não parecia acreditar no que dizia.

Elayne assentiu, mas estava desconfiada.

— Eu a vi caminhando na chuva um dia, ensopada, e levei um manto para ela. Estava tão absorta, pensando em sei lá o quê, que acho que não percebeu que estava chovendo até eu envolvê-la com o manto. Talvez tenha deixado algo passar.

— Talvez — disse Egwene. — Se não tiver esquecido, ela deveria saber que eu perceberia assim que lesse a lista. Não sei. Às vezes acho que Verin percebe mais do que deixa transparecer. Simplesmente não sei.

— Então Verin é suspeita. — Elayne suspirou. — Se ela for da Ajah Negra, elas sabem exatamente o que estamos fazendo. E Alanna. — Lançou um olhar indeciso a Egwene, de esguelha.

A jovem havia contado tudo. Exceto o que acontecera dentro do ter’angreal durante o teste. Não podia se forçar a falar sobre o que se passara lá, não mais do que Nynaeve ou Elayne podiam contar sobre os próprios testes. Havia contado tudo o que acontecera na sala, o que Sheriam dissera sobre a terrível fraqueza conferida pela habilidade de canalizar, cada palavra que Verin dissera, fosse ou não importante. O único ponto que as três tiveram problemas em aceitar fora Alanna. Aes Sedai simplesmente não agiam daquele jeito. Ninguém em sã consciência agia assim, muito menos uma Aes Sedai.

Egwene as encarou, irritada, quase escutando as palavras.

— Uma Aes Sedai também não deve mentir, mas Verin e a Mãe parecem chegar muito perto disso. A Ajah Negra não deveria existir.

— Eu gosto de Alanna. — Nynaeve puxou a trança, depois deu de ombros. — Ah, está bem. Talv… Quer dizer, ela de fato se comportou de um jeito esquisito.

— Obrigada — disse Egwene, e Nynaeve meneou a cabeça em consentimento, como se não tivesse compreendido a ironia.

— De qualquer modo, a Amyrlin viu o que aconteceu, e ela tem muito mais facilidade que nós para ficar de olho em Alanna.

— E quanto a Elaida e Sheriam? — perguntou Egwene.

— Nunca gostei de Elaida — disse Elayne —, mas não acredito que ela seja da Ajah Negra de verdade. E Sheriam? Impossível.

Nynaeve bufou.

— Seria impossível para qualquer uma delas. Quando as encontrarmos, nada pode garantir que todas serão mulheres de quem não gostamos. Mas não pretendo levantar suspeitas, não desse tipo, sobre toda mulher. Precisamos de mais para seguir em frente, além do fato de que talvez tenham visto algo que não deveriam. — Egwene consentiu com a cabeça, tão depressa quanto Elayne, e Nynaeve prosseguiu: — Vamos contar isso à Amyrlin, mas sem dar um peso maior que o merecido. Se ela vier nos visitar como disse que faria. Elayne, se você estiver com a gente quando ela vier, lembre-se de que ela não sabe a seu respeito.

— Vai ser difícil esquecer — retrucou Elayne, enfática. — Mas precisamos encontrar outra forma de falar com ela. Minha mãe teria planejado isso melhor.

— Não se ela não pudesse confiar nas próprias mensageiras — retrucou Nynaeve. — Vamos esperar. Ou vocês acham que uma de nós deveria conversar com Verin? Ninguém acharia suspeito.

Elayne hesitou, então sacudiu a cabeça de leve. Egwene foi mais ligeira e mais vigorosa. Desatenta ou não, Verin omitira muitas coisas para ser alguém confiável.

— Bom. — Nynaeve soava mais do que satisfeita. — Estou muito contente por não podermos falar com a Amyrlin quando quisermos. Assim tomamos nossas próprias decisões e agimos quando e como decidimos, sem que ela conduza cada passo. — Correu a mão pelas páginas que listavam os ter’angreal roubados como se as lesse mais uma vez, depois apertou os olhos na direção do anel de pedra listrada. — A primeira decisão envolve isso. É a primeira coisa que vimos ter ligação real com Liandrin e as outras. — Ela franziu o rosto para o anel e respirou fundo. — Vou dormir com ele hoje à noite.

Egwene não hesitou em tirar o anel da mão de Nynaeve. Quis hesitar — quis manter as mãos onde estavam —, mas não o fez, e ficou satisfeita.

— Sou eu que dizem ser Sonhadora. Não sei se isso me dá alguma vantagem, mas Verin falou que é perigoso usar o anel. Qualquer uma de nós que o use vai precisar de todas as vantagens que tiver.

Nynaeve agarrou a trança e abriu a boca como se fosse protestar. Quando enfim se pronunciou, foi para dizer:

— Tem certeza, Egwene? Sequer sabemos se você é uma Sonhadora, e eu posso canalizar com mais força que você. Ainda acho…

— Você pode canalizar com mais força se estiver com raiva — Egwene a interrompeu. — Como pode ter certeza de que vai ficar com raiva no meio de um sonho? Será que vai ter tempo para ficar com raiva antes de precisar canalizar? Luz, nem ao menos sabemos se alguém é capaz de canalizar em um sonho. Se uma de nós tiver que fazer isso, e você está certa, é a única ligação que temos, esse alguém deveria ser eu. Talvez eu seja mesmo uma Sonhadora. Além disso, foi para mim que Verin deu o anel.

Nynaeve olhou como se quisesse discutir, mas enfim concordou, contrariada:

— Está bem. Elayne e eu estaremos perto. Não sei o que poderemos fazer, mas, se alguma coisa der errado, pelo menos poderemos acordá-la ou… estaremos perto.

Elayne também assentiu.

Agora que tinha o consentimento das outras, Egwene sentiu um embrulho no estômago. Eu as persuadi. Queria não desejar que elas me dissuadissem. Ela notou a presença de uma mulher parada diante da porta, uma mulher em trajes brancos de noviça, com os cabelos em tranças longas.

— Não a ensinaram a bater na porta, Else? — perguntou Nynaeve.

Egwene fechou o punho para esconder o anel de pedra. Teve a estranha sensação de que Else estava olhando para ele.

— Tenho um recado para vocês — respondeu a jovem, muito calma. Seus olhos observavam a mesa, com todos os papéis espalhados, e as três mulheres em volta. — Da Amyrlin.

As três trocaram olhares surpresos.

— Então, o que é? — inquiriu Nynaeve.

Else arqueou uma sobrancelha, divertindo-se.

— Os pertences deixados por Liandrin e as outras foram levados para o terceiro depósito à direita da escadaria principal no segundo porão debaixo da biblioteca. — Ela olhou mais uma vez para os papéis na mesa e saiu, nem devagar nem depressa.

Egwene sentiu dificuldade para respirar. Temos medo de confiar em qualquer uma, e a Amyrlin resolve confiar justo em Else Grinwell?

— Não dá para confiar que aquela idiota não vá soltar a língua para a primeira que encontrar! — Nynaeve correu para a porta.

Egwene agarrou as saias e disparou atrás dela. Seus sapatos derraparam nos azulejos do corredor, mas ela conseguiu ver a roupa branca desaparecendo pela rampa mais próxima e a seguiu correndo. Ela também deve estar correndo, para já estar tão longe. Por que está correndo? O lampejo de branco já desaparecia na descida de outra rampa. Egwene a seguiu.

Uma mulher virou-se na direção dela, na base da rampa, e Egwene parou, confusa. Quem quer que fosse, certamente não era Else. Toda vestida de seda branca e prateada, ela despertava sentimentos que Egwene jamais tivera. Era mais alta e muito mais bonita. Seus olhos negros faziam Egwene sentir-se pequena, franzina e meio suja. Além disso, ela deve conseguir canalizar muito mais Poder que eu. Luz, ela deve ser muito mais esperta que nós três juntas. Não é justo que uma mulher… De repente, deu-se conta de para onde seus pensamentos se encaminhavam. Sua face enrubesceu, e ela se recompôs. Nunca se sentira… menos… que outra mulher, e essa não seria a primeira vez.