— É maravilhoso, não é? — murmurou.
— Tome cuidado — respondeu Egwene.
— Estou tomando — suspirou Elayne. — Eu só sinto… vou tomar cuidado.
— Por aqui — disse Nynaeve, com rispidez, apressando-se a conduzi-las para baixo. Não ficou muito à frente. Não sentia raiva, e por isso precisava usar a luz fornecida pelas outras duas.
O corredor lateral empoeirado por onde haviam entrado, com uma série de portas de madeira nas paredes de pedras cinza, tinha uns cem passos de comprimento até o corredor principal, bem mais largo, que cruzava toda a extensão da biblioteca. As bolas de luz revelaram pegadas sobre pegadas na poeira, a maioria de botas masculinas grandes e também apagadas pela poeira. O teto ali era mais alto, e algumas portas tinham a largura das de um celeiro. A escadaria principal, do outro lado, tinha a metade da largura do corredor. Era por ali que os objetos maiores eram levados para baixo. Outro lance de escadas as conduziu ainda mais para baixo. Nynaeve prosseguia sem parar.
Egwene a seguia depressa. A luz azulada empalidecia o rosto de Elayne, mas Egwene achou a moça ainda mais branca do que deveria. Poderíamos nos esgoelar de tanto gritar aqui embaixo, e ninguém ouviria um pio sequer.
Ela sentiu um raio se formando, ou o potencial para um, e quase tropeçou. Nunca canalizara dois fluxos de uma vez, mas não sentia dificuldade alguma.
O corredor principal do segundo porão era muito parecido com o do andar de cima, amplo e empoeirado, mas com um teto mais baixo. Nynaeve correu para a terceira porta à esquerda e parou.
A porta não era grande, mas as placas grosseiras de madeira faziam-na parecer mais grossa. Um cadeado redondo de ferro pendia de uma corrente robusta bem apertada em volta de dois grandes pregos em forma de U, um na porta, o outro cimentado à parede. O cadeado e a corrente pareciam novos, quase não se via poeira neles.
— Um cadeado! — Nynaeve deu um puxão: a corrente não cedeu, nem o cadeado. — Vocês viram cadeados em algum outro lugar? — Ela deu outro puxão, depois empurrou a porta com força o bastante para rebater. O barulho ecoou pelo corredor. — Não vi mais nenhuma porta trancada! — Ela bateu com um punho na madeira. — Nem mesmo uma!
— Fique calma — disse Elayne. — Não precisa ter um ataque. Eu mesma poderia abrir essa tranca, se pudesse ver como funciona a parte de dentro. Vamos dar um jeito.
— Não quero ficar calma — retrucou Nynaeve, bruscamente. — Quero ficar furiosa! Quero…!
Sem dar atenção às reclamações de Nynaeve, Egwene tocou a corrente. Desde a partida de Tar Valon, ela descobrira que podia fazer mais coisas do que raios. Uma delas fora a afinidade com metais. Aquilo vinha da Terra, um dos Cinco Poderes em que poucas mulheres eram fortes — o outro era o Fogo —, mas ela era diferente e podia sentir a corrente, sentir a corrente por dentro, sentir as menores partículas do metal frio e como se configuravam. O Poder dentro dela estremecia com as vibrações dessa configuração.
— Saia da frente, Egwene.
Ela olhou ao redor e viu Nynaeve envolta no brilho tênue de saidar, segurando um pé de cabra de um azul tão próximo ao azul esbranquiçado da luz que era quase invisível. Nynaeve encarou a corrente com a testa franzida, murmurou qualquer coisa sobre alavancagem, e o pé de cabra de repente dobrou de tamanho.
— Saia, Egwene.
Egwene se afastou.
Nynaeve atravessou a corrente com uma das extremidades do pé de cabra, agarrou-a e ergueu-a com toda a força. A corrente se rompeu como se fosse um fio. Nynaeve arquejou e cambaleou até o meio do corredor, surpresa, e o pé de cabra se estatelou no chão. Nynaeve endireitou-se, encarando a barra e a corrente, estupefata. O pé de cabra desapareceu.
— Acho que fiz alguma coisa com a corrente — disse Egwene. E queria saber o que foi.
— Podia ter avisado — resmungou Nynaeve. Ela puxou o que restava da corrente e abriu a porta com um empurrão. — Então? Vão ficar paradas aí o dia inteiro?
O cômodo empoeirado tinha cerca de dez passos de extensão, mas continha apenas uma pilha de sacolas grandes feitas de tecido marrom grosso, todas cheias, etiquetadas e seladas com a Chama de Tar Valon. Egwene não precisou contá-las para saber que havia treze.
Ela deslocou a bola de luz até a parede e a prendeu. Não soube ao certo como fez isso, mas a luz ficou presa quando ela removeu a mão. Continuo aprendendo a fazer coisas que não sei o que são, pensou, nervosa.
Elayne franziu as sobrancelhas como se refletisse, depois também pendurou sua luz na parede. Observando, Egwene pensou ter visto o que ela tinha feito. Ela aprendeu comigo, mas eu acabei de aprender com ela. A jovem estremeceu.
Nynaeve foi direto para as sacolas, separou umas das outras e começou a ler as etiquetas.
— Rianna. Joiya Byir. É isso que estamos procurando. — Ela examinou o selo de uma das sacolas, depois rompeu-o e desamarrou as cordas. — Pelo menos sabemos que ninguém esteve aqui antes de nós.
Egwene escolheu uma sacola e rompeu o selo, sem ler o nome na etiqueta. Não queria de fato saber de quem eram os pertences que revirava. Quando derrubou tudo no chão empoeirado, viu que eram basicamente roupas e sapatos velhos, além de alguns papéis rasgados e amassados, do tipo que se encontraria debaixo do guarda-roupa de uma mulher não muito cuidadosa com a limpeza do quarto.
— Não vejo nada de útil neste aqui. Um manto que não serve nem como trapo. O mapa rasgado de alguma cidade. Tear, diz aqui no canto. Três meias precisando de remendo. — Ela enfiou o dedo pelo buraco de um chinelo de veludo sem par e jogou-o junto aos outros objetos. — Essa aqui não deixou pistas.
— Amico também não deixou nada — disse Elayne, soturna, atirando as roupas com as mãos. — Também só tem trapos. Esperem, tem um livro aqui. Quem fez essa trouxa devia estar com muita pressa, para jogar um livro dentro. Costumes e cerimônias da corte tairena. Está sem capa, mas as bibliotecárias vão gostar mesmo assim. — Sem dúvida, iriam. Não se jogava um livro fora, independentemente do quanto estivesse danificado.
— Tear — disse Nynaeve, com a voz impassível. De joelhos em meio à bagunça da sacola que vasculhava, ela recuperou um pedaço de papel que já havia descartado. — Uma lista de navios mercantes do Erinin, com as datas que zarparam de Tar Valon e a previsão de chegada em Tear.
— Pode ser coincidência — disse Egwene, devagar.
— Talvez — respondeu Nynaeve. Ela dobrou o papel, enfiou-o na manga e foi romper o selo de outra sacola.
Quando enfim terminaram, cada sacola fora revirada duas vezes e o lixo fora descartado em montinhos nos cantos da sala. Egwene sentou-se em uma das sacolas vazias, tão absorta que mal percebeu que estava trêmula. Esticando os joelhos, observou a pequena compilação que haviam feito, todos os objetos dispostos em uma fileira.
— É muita coisa — disse Elayne. — Tem coisa demais.
— Tem mesmo — concordou Nynaeve.
Havia um segundo livro, um volume de capa de couro bem esfarrapado intitulado Observações de uma visita a Tear, com metade das páginas faltando. Do forro de um manto mal cerzido que havia na sacola de Chesmal Emry, por onde decerto escorregara através de um rasgão, elas encontraram outra lista de navios mercantes. Não listava nada além de nomes, mas todos também estavam na outra lista, e de acordo com aquela, todos os navios haviam zarpado cedo na manhã em que Liandrin e as outras deixaram a Torre. Havia um mapa rascunhado de algum edifício grande, com uma sala marcada como “Coração da Pedra”, e uma página com os nomes de cinco estalagens e a palavra “Tear” no cabeçalho, muito borrada mas ainda legível. Havia…
— Há algo em todas — murmurou Egwene. — Cada uma delas deixou algo apontando para uma viagem a Tear. Como é que alguém deixaria de notar isso, se procurasse? Por que a Amyrlin não falou nada a respeito?