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— A Amyrlin — disse Nynaeve, amarga — tem suas próprias opiniões, e pouco se importa se nos queimarmos por causa disso! — Ela respirou fundo e espirrou, por conta da poeira revolvida. — O que me preocupa é que estou olhando uma isca.

— Uma isca? — perguntou Egwene. Mas percebeu assim que falou.

Nynaeve assentiu.

— Uma isca. Uma armadilha. Ou talvez um desvio. Mas, seja isca ou desvio, está tão óbvio que ninguém poderia ser enganado por isso.

— A não ser que não se importassem se a pessoa que encontrasse isso visse ou não a armadilha. — A voz de Elayne estava carregada de dúvida. — Ou talvez quisessem que ficasse bem óbvio, para que quem a encontrasse resolvesse descartar Tear na mesma hora.

Egwene desejou não acreditar que a Ajah Negra fosse tão confiante assim. Ela percebeu que estava agarrando a bolsa e passando o dedo pela curva retorcida do anel de pedra do lado de dentro.

— Talvez quisessem zombar de quem encontrasse isso — disse, baixinho. — Talvez pensassem que quem encontrasse sairia correndo atrás delas, cheia de raiva e orgulho ferido. — Será que sabiam que nós encontraríamos? Será que nos veem dessa forma?

— Que me queime! — urrou Nynaeve. Foi um choque: a mulher nunca usava esse tipo de linguajar.

Por um instante as três apenas encararam o conjunto de objetos, em silêncio.

— O que fazemos agora? — perguntou Elayne, por fim.

Egwene apertou o anel com força. Sonhos eram muito próximos de Previsões. O futuro, e também os acontecimentos de outros lugares, podiam aparecer nos sonhos de uma Sonhadora. — Talvez possamos saber depois dessa noite.

Nynaeve olhou para ela, inexpressiva e em silêncio, e então escolheu uma saia preta que não parecia ter muitos furos e rasgões e começou a amontoar os objetos encontrados dentro dela.

— Por enquanto — disse —, vamos levar isso tudo de volta para o meu quarto e esconder. Acho que temos que ir logo se não quisermos chegar tarde nas cozinhas.

Chegar tarde, pensou Egwene. Quanto mais segurava o anel dentro da bolsa, mais urgência sentia. Já estamos um passo atrás, mas talvez não cheguemos tarde demais.

27

Tel’aran’rhiod

O novo quarto de Egwene ficava no mesmo corredor dos das duas amigas, era quase igual ao de Nynaeve. A cama era um tantinho mais larga, e a mesa, um pouco menor. O tapetinho tinha flores, em vez de arabescos. Eram as únicas diferenças. Comparado ao da ala das noviças, parecia o quarto de um palácio. No entanto, um pouco depois, quando as três se reuniram, naquela mesma noite, Egwene desejou estar de volta à ala das noviças, sem anel no dedo ou faixas coloridas na barra do vestido. As outras duas pareciam tão nervosas quanto ela.

Tinham trabalhado na cozinha por mais duas refeições e, entre uma e outra, tentaram desvendar o que tinham encontrado no depósito. Será que era uma armadilha ou uma forma de dificultar a busca? Será que a Amyrlin sabia daquilo? Se sabia, por que não tinha falado nada? Debater não trazia respostas, e a Amyrlin nunca aparecia para que perguntassem a ela.

Verin tinha ido às cozinhas depois da refeição do meio-dia, piscando como se não soubesse ao certo por que estava ali. Ao ver Egwene e as outras duas ajoelhadas em meio a caldeirões e tachos, pareceu surpresa por um instante, depois aproximou-se e perguntou, alto o bastante para os ouvidos de qualquer um:

— Encontraram alguma coisa?

Elayne, com a cabeça e os ombros enfiados em um imenso tacho de sopa, esbarrou a cabeça na borda quando saiu, espantada. Os olhos azuis pareciam ocupar todo o rosto.

— Nada além de gordura e suor, Aes Sedai — respondeu Nynaeve. O puxão que deu na trança lambuzou os cabelos de espuma de sabão gordurosa, e ela fez uma careta.

Verin assentiu, como se fosse a resposta que buscava.

— Bem, continuem procurando. — Ela deu outra olhadela pela cozinha, franzindo a testa como se estivesse intrigada por estar ali, e saiu.

Alanna também apareceu na cozinha. Veio depois do meio-dia para pegar uma tigela de groselhas verdes e uma jarra de vinho. Elaida, e depois Sheriam, vieram após a ceia, assim como Anaiya.

Alanna perguntara a Egwene se ela queria mais informações sobre a Ajah Verde e quisera saber quando as três retomariam os estudos. Não era porque as Aceitas podiam escolher as próprias lições e o ritmo a ser seguido que elas podiam ficar à toa. As primeiras semanas seriam ruins, é claro, mas as três precisavam escolher, ou alguém faria isso por elas.

Elaida ficou pouco tempo, apenas observando-as com a expressão séria e as mãos nos quadris. Sheriam fez o mesmo, em uma pose quase idêntica. Anaiya ficou parada do mesmo jeito, porém tinha o olhar mais preocupado. Até que reparou que as moças a olhavam de soslaio. Então fechou a cara, em uma expressão idêntica à que Elaida e Sheriam haviam feito antes mais cedo.

Nenhuma dessas visitas pareceu ter qualquer significado especial aos olhos de Egwene. A Mestra das Noviças sem dúvida tinha motivos para supervisioná-las, assim como às outras noviças que trabalhavam na cozinha, e Elaida tinha motivos para ficar de olho na Filha-herdeira de Andor. Egwene tentou não pensar sobre o interesse da mulher em Rand. Quanto a Alanna, ela não era a única Aes Sedai a pedir uma bandeja para levar para o quarto, em vez de comer com as outras. Metade das irmãs na Torre estava ocupada demais para se juntar às refeições, ocupada demais para perder o tempo de chamar uma serviçal para apanhar uma bandeja. E Anaiya…? Anaiya poderia muito bem estar preocupada com sua Sonhadora. Não que fosse fazer qualquer coisa para aliviar uma punição ordenada pelo próprio Trono de Amyrlin. Essa talvez fosse a razão da visita. Talvez.

Pendurando o vestido no guarda-roupa, Egwene disse a si mesma, mais uma vez, que até o lapso de Verin podia ser algo perfeitamente normaclass="underline" a irmã Marrom era mesmo meio distraída. Se é que foi um lapso. Sentada na beirada da cama, ela se despiu e passou a tirar as meias. Já estava começando a detestar o branco quase tanto quanto detestava o cinza.

Nynaeve permanecia parada diante da lareira. Segurava a bolsa de Egwene em uma das mãos e puxava a trança com a outra. Elayne estava sentada à mesa e falava sem parar, nervosa:

— Ajah Verde — disse a moça de cabelos dourados, pelo que Egwene pensava ser a vigésima vez desde o meio-dia. — Talvez eu também escolha a Ajah Verde, Egwene. Então poderei ter três ou quatro Guardiões, talvez até me casar com um deles. Quem daria um melhor Príncipe Consorte de Andor que um Guardião? A não ser que… — A voz dela foi morrendo, e ela corou.

Egwene sentiu uma pontada de ciúmes que pensava já ter suprimido havia tempo, mesclada com certa compaixão. Luz, como posso sentir ciúmes se nem sequer consigo olhar para Galad sem estremecer e me desmanchar toda ao mesmo tempo? Rand era meu, mas não é mais. Gostaria de poder entregá-lo a você, Elayne, mas acho que ele não é de nenhuma de nós. A Filha-herdeira pode até ter carta branca para se casar com um homem do povo, desde que seja andoriano, mas não com o Dragão Renascido. Ela deixou as meias caírem no chão, dizendo a si mesma que, naquela noite, havia coisas mais importantes com que se preocupar do que com organização.

— Estou pronta, Nynaeve.

A mulher entregou-lhe a bolsa, junto com uma tira de couro comprida e fina.

— Talvez funcione com mais de uma ao mesmo tempo. Eu poderia… ir com você, talvez.

Egwene deixou o anel de pedra cair na palma da mão, passou a tira de couro por ele e a amarrou no pescoço. As listras e manchas azuis, marrons e vermelhas pareciam ainda mais vívidas em contraste com o branco de sua roupa de baixo.

— E deixar Elayne sozinha para vigiar nós duas? Sendo que a Ajah Negra pode saber quem somos?