— Eu consigo — disse Elayne, resoluta. — Ou posso ir junto com você, e Nynaeve monta guarda. Ela é a mais forte de nós, quando está com raiva. Além disso, se for mesmo preciso que alguém vigie, pode ter certeza de que ela dá conta.
Egwene negou com a cabeça.
— E se não funcionar para duas? E se o anel não tiver efeito nenhum quando duas tentam? A gente não vai saber disso até acordar, e aí teremos desperdiçado a noite. Não podemos desperdiçar nenhum instante, se não quisermos ficar para trás. Já estamos muito atrás delas. — Eram argumentos válidos, e ela acreditava neles, mas havia outro em seu coração, mais premente. — Além disso, vou me sentir melhor sabendo que vocês duas estarão tomando conta de mim, se…
Ela não queria dizer em voz alta. Caso alguém viesse enquanto ela dormia. Os Homens Cinza. A Ajah Negra. Qualquer uma das coisas que haviam transformado a Torre Branca, antes segura, em uma floresta negra, cheia de abismos e armadilhas. Algo que viesse enquanto ela dormia, indefesa. A expressão das outras demonstrava que compreendiam.
Enquanto Egwene se deitava na cama e afofava um travesseiro de penas sob a cabeça, Elayne arrastou as duas cadeiras, uma para cada lado da cama. Nynaeve apagou as velas uma a uma e depois, no escuro, sentou-se em uma das cadeiras. Elayne ficou com a outra.
Ela fechou os olhos e tentou pegar no sono, mas estava muito consciente do objeto entre seus seios. Muito mais do que de qualquer dor remanescente da visita ao gabinete de Sheriam. O anel parecia pesar tanto quanto um tijolo. Todas as lembranças de casa e dos lagos tranquilos se desvaneceram ao se lembrar daquilo. De Tel’aran’rhiod. Do Mundo Invisível. O Mundo dos Sonhos. À espera, do outro lado do sono.
Nynaeve começou a cantarolar, bem baixinho. Egwene reconheceu a melodia sem nome ou palavras que sua mãe cantarolava quando ela era menina. Quando se deitava na cama, no próprio quarto, com um travesseiro macio, cobertores quentinhos, envolta no perfume de óleo de rosas e no cheiro das refeições que sua mãe preparava na cozinha, e… Rand, está tudo bem? Perrin? Quem era ela? O sono veio.
Notou que estava em meio a colinas cobertas de flores silvestres, pontilhadas por pequenas áreas cheias de árvores frondosas nos vales e cumes. Borboletas voavam sobre as flores, batendo asas amarelas, azuis e verdes, e duas cotovias cantarolavam ali por perto. Havia algumas nuvens brancas e fofas no céu azul, e a brisa era de uma harmonia delicada entre frio e quente que só acontecia em poucos dias da primavera. Um dia perfeito demais para não ser sonho.
Ela olhou o próprio vestido e riu, encantada. Era seu tom preferido de seda azul-celeste, com faixas brancas na saia, que ficaram verdes quando ela franziu a testa por um instante, e fileiras de minúsculas pérolas cerzidas nas mangas e no colo. Ela esticou um dos pés e espiou a ponta de uma sapatilha de veludo. O único detalhe dissonante era o anel trançado, todo de pedra multicolorida, que pendia de seu pescoço, preso a um cordão de couro.
Ela tomou o anel nas mãos e arfou, surpresa. Era leve como pluma. Se o jogasse para cima, tinha certeza de que ele sairia voando ao sabor de vento, como as sementes de dentes-de-leão que soprava quando era pequena. De alguma forma, não sentia mais medo. Ela enfiou o anel no decote do vestido, para não atrapalhá-la.
— Então este é o Tel’aran’rhiod de Verin — comentou. — O Mundo dos Sonhos de Corianin Nedeal. Não me parece perigoso. — Mas Verin tinha dito que era. Ajah Negra ou não, Egwene não conseguia imaginar uma forma de qualquer Aes Sedai contar uma mentira. Verin pode estar enganada. Mas duvidava que estivesse.
Só para testar, ela se abriu ao Poder Único. Saidar a preencheu. Mesmo ali, estava presente. Ela canalizou o fluxo de forma suave e delicada, direcionando-o à brisa, fazendo as borboletas girarem em espirais coloridas, em círculos unidos a outros círculos.
De súbito, abandonou o Poder. As borboletas voltaram ao normal, indiferentes à breve aventura. Myrddraal e outros Filhos das Sombras eram capazes de sentir quando alguém canalizava. Olhando ao redor, ela não podia imaginar que ali houvesse tais criaturas, mas não conseguir imaginar não era motivo suficiente para eles não estarem por lá. E a Ajah Negra possuía todos aqueles ter’angreal analisados por Corianin Nedeal. Era um lembrete repugnante do motivo pelo qual estava ali.
— Pelo menos sei que consigo canalizar — murmurou. — Não vou descobrir nada parada aqui. Talvez, se olhar em volta…
Ela deu um passo…
…e viu-se no corredor escuro e abafado de uma estalagem. Era a filha de um estalajadeiro, tinha certeza de que aquilo era uma estalagem. Não havia um som sequer, e todas as portas ao longo do corredor estavam bem fechadas. Assim que Egwene se perguntou quem estaria por trás da porta lisa de madeira que havia à sua frente, ela se abriu sem o menor ruído.
O quarto era simples, e um vento gelado uivava ao entrar pelas janelas abertas, revolvendo as cinzas velhas da lareira. Um grande cão estava enroscado no chão, o nariz coberto pelo rabo desgrenhado, deitado entre a porta e uma grossa pilastra de pedra negra toscamente talhada, que ficava bem no centro do aposento. Um jovem robusto e de cabelos bagunçados estava sentado, recostado na pilastra. Vestia apenas roupas de baixo, a cabeça inclinada como se estivesse dormindo. Uma corrente preta pesada circundava a pilastra e envolvia seu peito, as extremidades amarradas em suas mãos rígidas. Dormindo ou não, o homem musculoso esforçava-se para segurar firme a corrente, para manter-se preso à pilastra.
— Perrin? — perguntou, intrigada. Entrou no quarto. — Perrin, o que houve com você? Perrin!
O cão desenroscou-se e se levantou.
Não era um cão, mas um lobo, todo cinza e negro, revelando dentes brancos e brilhantes, os olhos amarelos encarando-a como se ela fosse um rato. Um rato que ele pretendia devorar.
Por impulso, Egwene recuou depressa para o corredor.
— Perrin! Acorde! É um lobo! — Verin dissera que o que acontecia ali era real, e mostrara a cicatriz para provar. Os dentes do lobo eram grandes como facas. — Perrin, acorde! Diga a ele que sou sua amiga! — Ela abraçou saidar. O lobo avançou furtivamente.
Perrin ergueu a cabeça e abriu os olhos, sonolento. Dois pares de olhos amarelos a observavam. O lobo se aprumou.
— Saltador — gritou Perrin —, não! Egwene!
A porta fechou-se diante dela, e a escuridão a envolveu.
Ela não podia enxergar, mas sentia o suor escorrendo pela testa. E não era pelo calor. Luz, onde estou? Não gosto deste lugar. Quero acordar!
Um chiado soou, e ela deu um salto antes de perceber que era um grilo. Um sapo coaxou na escuridão, e um coro veio em resposta. Quando seus olhos se adaptaram à pouca luz, Egwene percebeu árvores indistintas ao seu redor. Nuvens encobriam as estrelas, e a lua brilhava em um traço fino.
À direita, no matagal, algo mais brilhava, tremeluzente. Uma fogueira.
Ela refletiu por um instante antes de se mover. O desejo de acordar não fora o bastante para levá-la embora de Tel’aran’rhiod, e ela ainda não encontrara qualquer coisa de útil. Nem havia sido ferida. Por enquanto, pensou, tremendo. Porém, não fazia ideia de quem — ou o que — estava naquela fogueira. Podem ser Myrddraal. Além do mais, não estou vestida para correr pela floresta. O último pensamento a fez decidir. Sempre se orgulhara de perceber quando estava sendo boba.
Ela respirou fundo, ergueu as saias de seda e se aproximou furtivamente. Talvez não tivesse a habilidade de Nynaeve na floresta, mas conseguia evitar pisar em galhos secos. Por fim, espiou a fogueira com cuidado, por trás do tronco de um velho carvalho.
Havia apenas um jovem alto, sentado, observando o fogo. Rand. As chamas não ardiam na madeira. Não queimavam qualquer material que ela pudesse ver. O fogo dançava em um pedaço de chão vazio. Ela achava que sequer queimava o solo.