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Antes que ela pudesse se mover, Rand ergueu a cabeça. Surpresa, reparou que ele fumava um cachimbo. Uma fina linha de fumaça de tabaco subia do fornilho. Ele tinha um semblante muito, muito cansado.

— Quem está aí? — perguntou o rapaz, em voz alta. — Já remexeu tantas folhas que é bem capaz de acordar os mortos, então é melhor aparecer de uma vez.

Egwene apertou os lábios, mas deu um passo adiante. Não remexi!

— Sou eu, Rand. Não tenha medo. É um sonho. Devo estar nos seus sonhos.

Ele se levantou tão depressa que ela ficou petrificada. De alguma forma, parecia maior do que ela se lembrava. E um pouco perigoso. Talvez mais que apenas um pouco. Os olhos azuis acinzentados pareciam arder com uma espécie de um fogo congelante.

— Acha que não sei que é um sonho? — Ele a olhou com desprezo. — Sei que isso não torna as coisas menos reais. — Ele encarou a escuridão com raiva, como se procurasse alguém. — Por quanto tempo vai ficar tentando? — gritou em direção à noite. — Quantos rostos vai enviar? Minha mãe, meu pai, agora ela! Garotas bonitas não podem me tentar com um beijo, nem mesmo uma que eu conheça! Eu o renego, Pai das Mentiras! Eu o renego!

— Rand — respondeu, insegura. — Sou eu, Egwene. Eu sou Egwene.

De súbito, vinda do nada, uma espada surgiu nas mãos dele. A lâmina era feita de uma única chama, levemente curvada, gravada com uma marca da garça.

— Minha mãe trouxe bolo de mel — respondeu, em um tom severo — com cheiro de veneno rançoso. Meu pai tinha uma faca para cravar em meu coração. Ela… me ofereceu beijos, e mais. — O suor escorria pelo rosto de Rand, que a encarava com um olhar que parecia capaz de fulminá-la. — O que é que você trouxe?

— Você vai me escutar, Rand al’Thor, nem que eu precise sentar em cima de você. — Ela invocou saidar, canalizou os fluxos e produziu uma rede de ar para envolvê-lo.

A espada girou nas mãos dele, rugindo como uma caldeira aberta.

Ela grunhiu e cambaleou: era como se uma corda retesada tivesse se soltado e a açoitasse com força.

Rand riu.

— Eu aprendi, está vendo? Quando funciona… — Ele fez uma careta e avançou em direção a ela. — Eu poderia suportar qualquer rosto, menos este. Não o dela, que o queime!

A espada lampejou.

Egwene fugiu.

Ela não soube ao certo o que fez, nem como, mas se viu de volta às colinas ondulantes sob o céu ensolarado, com cotovias cantarolando e borboletas voejando ao redor. Respirou fundo, trêmula.

Eu descobri… o quê? Que o Tenebroso ainda está atrás de Rand? Disso eu já sabia. Que talvez o Tenebroso queira matá-lo? Isso é diferente. A não ser que ele já tenha enlouquecido e não saiba o que está dizendo. Luz, por que não pude ajudá-lo? Ah, Luz, Rand!

Ela respirou fundo mais uma vez, para se acalmar.

— A única forma de ajudá-lo é amansando-o — murmurou. — Ou seguindo em frente e matando-o. — Seu estômago se revirou em um nó. — Eu nunca farei isso. Nunca!

Um pássaro vermelho se empoleirou em uma moita de framboesas ali por perto, olhando-a com cautela, a crista eriçada. Ela falou com o pássaro.

— Pois é, não adianta nada ficar aqui parada, falando sozinha, não é? Nem falando com você.

Ela deu um passo em direção à moita, e o pássaro levantou voo. Transformou-se em um borrão carmesim quando ela avançou mais um passo, e desapareceu em um dos pequenos bosques quando ela deu o terceiro.

Ela parou e puxou o anel de pedra amarrado na frente do vestido. Por que não mudava? Até agora, tudo mudara tão depressa que ela mal tivera tempo de recuperar o fôlego. Por que não mudava agora? Será que havia alguma resposta bem ali? Olhou ao redor, desconfiada. As flores silvestres a provocavam, o piar das cotovias soava como um deboche. Aquele lugar decerto parecia fruto da própria imaginação.

Determinada, ela apertou o ter’angreal com a mão.

— Me leve para onde eu preciso estar. — Ela fechou os olhos e se concentrou no anel. Era de pedra, afinaclass="underline" a Terra poderia aguçar um pouco seu tato. — Ande. Me leve para onde eu preciso estar. — Mais uma vez, ela abraçou saidar, vertendo um mínimo do Poder Único para o anel. Sabia que não era preciso direcionar o fluxo do Poder ao anel para fazê-lo funcionar, nem tentou fazer qualquer coisa com ele. Apenas forneceu mais Poder. — Me leve para onde eu possa encontrar uma resposta. Preciso saber o que a Ajah Negra quer. Me leve até a resposta.

— Ora, enfim encontrou o caminho, criança. Todas as respostas estão aqui.

Egwene abriu os olhos de repente. Estava em um grande corredor, o imenso teto abobadado sustentado por inúmeras e pesadas colunas de pedra vermelha. Pairando no ar havia uma espada de cristal, que reluzia e cintilava enquanto girava bem devagar. Não tinha certeza, mas achou que aquela talvez fosse a espada que Rand havia tentado pegar em seu sonho. No outro sonho. Tudo ali parecia tão real que ela precisava ficar lembrando que aquilo também era um sonho.

Uma velha saiu das sombras da pilastra, corcunda e mancando, apoiada em um bastão. Feia era pouco para descrevê-la. Tinha o queixo ossudo e pontudo, o nariz ainda mais pontudo e comprido, e parecia ter mais verrugas peludas do que pele no rosto.

— Quem é você? — perguntou Egwene.

As únicas pessoas que vira em Tel’aran’rhiod, até então, eram conhecidas, mas ela achava que não seria capaz de se esquecer do rosto daquela pobre mulher.

— Só a velha Silvie, milady — cacarejou a velha. Ao mesmo tempo, curvou-se de um modo que pode ter sido tanto de cortesia quanto de nojo. — A senhora conhece a velha Silvie, milady. Servi e fui leal à sua família por todos esses anos. Esse velho rosto ainda a assusta? Não permita, milady. Ele me serve, quando é preciso, tão bem quanto um belo.

— É claro que sim — respondeu Egwene. — Um rosto forte. Um rosto bom. — Esperava que a mulher acreditasse. Quem quer que fosse a tal Silvie, parecia acreditar que conhecia Egwene. Talvez também tivesse alguma resposta. — Silvie, você disse algo sobre encontrar respostas aqui.

— Sim, a senhora veio ao lugar certo para obter respostas, milady. O Coração da Pedra está cheio de respostas. E de segredos. Os Grão-lordes não vão gostar nada de nos ver aqui, milady. Ah, não. Ninguém entra aqui, a não ser os Grão-lordes. E os serviçais, é claro. — Ela deu uma risada aguda e dissimulada. — Os Grão-lordes não arrastam esfregões. Mas quem é que enxerga um serviçal?

— Que tipo de segredos?

Mas Silvie já coxeava em direção à espada de cristal.

— Tramas — murmurou, como se falasse sozinha. — Todos fingindo servirem ao Grande Senhor, mas ao mesmo tempo tramando e planejando recuperar o que perderam. Cada um pensa que é o único que está tramando. Ishamael é um idiota!

— O quê? — perguntou Egwene, de supetão. — O que foi que você disse sobre Ishamael?

A velha virou-se, exibindo um sorriso bajulador.

— Só algo que os pobres dizem, milady. Afasta o poder dos Abandonados, chamá-los de idiotas. Faz nos sentirmos bem e seguros. Nem a Sombra tolera ser chamada de idiota. Tente, minha Senhora. Diga: Ba’alzamon é um idiota!

Egwene contorceu os lábios quase em um sorriso.

— Ba’alzamon é um idiota! Tem razão, Silvie. — De fato, rir do Tenebroso a fez sentir-se bem. A velha soltou um risinho. A espada girava logo atrás de seu ombro. — Silvie, o que é isso?

Callandor, milady. Sabe disso, não sabe? A Espada Que Não Pode Ser Tocada. — De repente, ela balançou a bengala atrás de si. A um passo da espada, o objeto parou com um baque surdo e foi lançada na direção oposta. O sorriso de Silvie ficou ainda maior. — A Espada Que Não É Espada, ainda que pouquíssimos saibam o que é. Mas ninguém pode tocá-la, exceto um. Eles arranjaram para que assim fosse, aqueles que a puseram aqui. O Dragão Renascido um dia empunhará Callandor, e com isso provará ao mundo que é o Dragão. Bem, será a primeira prova, pelo menos. Lews Therin retorna para que o mundo inteiro o veja e rasteje a seus pés. Ah, os Grão-lordes não gostam de manter a espada aqui. Não gostam de nada que tenha a ver com o Poder. Se pudessem, se livrariam dela. Se pudessem. Acredito que outros a levariam, se pudessem. O que um dos Abandonados não daria para empunhar Callandor?