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O que foi que você disse, Egwene?, pensou o rapaz, furioso. Que eu sou um paspalho que qualquer garota consegue ganhar com um sorriso? No entanto, manteve o semblante tranquilo e tentou continuar sorrindo.

— Queria que bastasse lhe pedir — suspirou Egwene —, mas você não faz favores, não é, Mat? Já fez alguma coisa sem ser persuadido, adulado ou ameaçado?

Ele apenas sorriu.

— Posso dançar com vocês duas, Egwene, mas não sou garoto de recados.

Por um instante ele pensou que ela lhe daria língua.

— É melhor voltarmos ao plano inicial — disse Nynaeve, com a voz excessivamente calma.

As outras duas assentiram, e a mulher voltou a atenção para ele. Pela primeira vez desde que chegaram, ela o encarou como a Sabedoria de antes: com um olhar capaz de colocá-lo de volta nos eixos e a trança pronta para açoitá-lo que nem o rabo de um gato.

— Você é ainda mais rude do que eu me lembrava, Matrim Cauthon. Ficou doente por tanto tempo, com Egwene, Elayne e eu cuidando de você como se fosse um bebezinho de fraldas, que quase me esqueci. Mesmo assim, pensei que tivesse alguma gratidão. Você falou sobre ver o mundo, ver grandes cidades. Então, que cidade é melhor que Caemlyn? Você mata seu desejo, demonstra gratidão e ao mesmo tempo faz uma boa ação. — Ela retirou do manto um pergaminho dobrado e colocou-o na mesa. Tinha um lacre de cera dourada em forma de lírio. — Não pode querer nada além disso.

Ele olhou para o papel, lamentando-se. Mal se lembrava de quando passara por Caemlyn com Rand. Seria uma pena negar tão rápido, mas achou que era o melhor a fazer. Não dá para dançar jiga sem pagar o harpista. E, pelo jeito de Nynaeve, quanto mais tempo ele levasse para pagar, pior seria.

— Nynaeve, eu não posso.

— Como assim não pode? Você é um homem ou uma mosquinha na parede? Tem a chance de fazer um favor para a Filha-herdeira de Andor, de ver Caemlyn, de muito provavelmente conhecer a Rainha Morgase em pessoa e diz que não pode? Eu não sei o que mais você poderia querer. Não banque o desentendido dessa vez, Matrim Cauthon! Ou será que seu coração mudou tanto que agora gosta de ver esses anéis por todo lado? — Ela aproximou a mão esquerda do rosto dele, quase acertando seu nariz com o anel.

— Por favor, Mat? — completou Elayne.

Egwene o encarava como se ele tivesse os chifres de um Trolloc.

Ele se contorceu na cadeira.

— Não é que eu não queira. Eu não posso! A Amyrlin acertou tudo para que eu não consiga sair da porc… da ilha. Se conseguirem mudar isso, Elayne, levo sua carta nos dentes.

Elas se entreolharam. Ele às vezes se perguntava se as mulheres conseguiam ler os pensamentos umas das outras. Sem dúvida pareciam ler os dele, e quando ele menos queria. Dessa vez, no entanto, fosse lá o que tivessem decidido entre si em silêncio, não leram os pensamentos dele.

— Explique — ordenou Nynaeve, ríspida. — Por que a Amyrlin iria querer mantê-lo aqui?

Ele deu de ombros, encarou-a e abriu seu sorriso mais infeliz.

— Porque eu estava doente. Porque fiquei doente muito tempo. Ela disse que não me deixaria ir embora antes de ter certeza de que eu não acabaria morrendo em algum outro lugar. Não que eu vá, é claro. Morrer, quer dizer.

Nynaeve franziu a testa, deu um puxão na trança e segurou a cabeça de Mat de repente. Um arrepio percorreu a espinha do rapaz. Luz, o Poder! Antes que ele concluísse o pensamento, ela o soltou.

— O quê…? O que você fez comigo, Nynaeve?

— Nem um décimo do que você merece, com toda a certeza. — Foi a resposta. — Está saudável como um touro. Mais fraco do que aparenta, porém saudável.

— Mas eu disse isso — retrucou o rapaz, constrangido. Tentou recuperar o sorriso. — Nynaeve, ela parecia com você. A Amyrlin, digo. Tentando intimidar mesmo sem ter tamanho para isso, e ameaçar… — Pelo erguer das sobrancelhas dela, Mat decidiu que era melhor não seguir mais por aquele caminho. Ele só precisava manter a conversa longe da Trombeta. Perguntou-se se elas sabiam. — Bom. De qualquer forma, acho que querem me manter aqui por causa daquela adaga. Quer dizer, até descobrirem exatamente como ela fez o que fez. Sabem como são as Aes Sedai. — Ele deu uma risadinha. As três o encararam. Talvez eu não devesse ter dito isso. Que me queime! Elas querem ser Aes Sedai. Que me queime, estou falando demais. Queria que Nynaeve parasse de me olhar desse jeito. Seja breve. — A Amyrlin arranjou tudo de modo que eu não consiga cruzar nenhuma ponte ou subir em nenhum barco sem ordem dela. Estão vendo? Não é que eu não queira ajudar. Não posso.

— Mas se conseguirmos tirá-lo de Tar Valon, você ajudará? — perguntou Nynaeve, com certo tom de urgência.

— Se me tirarem de Tar Valon, carrego a própria Elayne até a mãe no lombo.

Dessa vez, foi a Filha-herdeira quem ergueu as sobrancelhas. Egwene balançou a cabeça e disse o nome dele, apenas movendo os lábios, com um olhar severo. As mulheres às vezes não tinham o menor senso de humor.

Nynaeve fez um gesto para que as outras a seguissem até as janelas, onde as três deram as costas para Mat e conversaram tão baixinho que ele só escutou murmúrios. Pensou ter ouvido Egwene dizer algo sobre precisarem de apenas uma, bastava manterem-se juntas. Atento, ele se perguntou se elas realmente achavam que poderiam desfazer as ordens da Amyrlin. Se conseguirem fazer isso, eu levo a maldita carta. Levo a carta nos dentes, de verdade.

Sem pensar, ele pegou o miolo de uma maçã e comeu o que restava. Mastigou um pouco e cuspiu o bocado de sementes amargas de volta no prato.

Quando as três retornaram à mesa, Egwene entregou a ele um papel grosso e dobrado. Ele olhou, desconfiado, antes de abrir. Sem perceber, começou a cantarolar baixinho, para si mesmo.

O que o portador fizer é sob meu comando e autoridade. Obedeça e mantenha o silêncio, por ordem minha.

Siuan Sanche
Vigia dos Selos
Chama de Tar Valon
O Trono de Amyrlin

No pé da carta, havia um selo com a Chama de Tar Valon sobre um círculo de cera branca, duro feito pedra.

Ao perceber que cantarolava “Um Bolso Cheio de Ouro”, Mat parou.

— É legítima? Você não…? Como foi que conseguiu isso?

— Ela não falsificou, se é o que está pensando — retrucou Elayne.

— Não importa como foi que conseguimos — respondeu Nynaeve. — É legítima. É tudo o que você precisa saber. Se eu fosse você, não ficaria mostrando esse papel por aí, ou a Amyrlin vai acabar pegando de volta. Mas vai servir para você passar pelos guardas e chegar até um navio. Disse que levaria a carta se conseguíssemos tirar você daqui.

— Já pode considerá-la nas mãos de Morgase. — Ele não queria parar de ler o papel, mas mesmo assim dobrou-o e o colocou sobre a carta de Elayne. — Por acaso não teriam uma moedinha para acompanhar os papéis? Alguma prata? Um ou dois marcos de ouro? Tenho quase o suficiente para a passagem, mas ouvi dizer que está tudo encarecendo muito ao sul do rio.

Nynaeve negou com a cabeça.

— Você não tem dinheiro? Apostou com Hurin quase todas as noites, até ficar doente a ponto de não conseguir mais segurar os dados. E por que é que as coisas estariam encarecendo ao sul do rio?

— Apostávamos cobre, Nynaeve, e depois de um tempo nem isso ele queria. Não importa. Eu dou um jeito. Não sabem das notícias? Cairhien está em guerra civil, e ouvi dizer que as coisas em Tear também não estão nada boas. Soube que um quarto de estalagem em Aringill está custando mais que pagaríamos por um bom cavalo, lá perto de casa.

— Andamos muito ocupadas — retrucou ela com rispidez, trocando olhares preocupados com Egwene e Elayne, olhares que o deixaram outra vez desconfiado.