— Não importa. Eu dou um jeito. — Talvez desse para jogar nas estalagens perto das docas. Uma noite com os dados o ajudaria a embarcar com os bolsos cheios na manhã seguinte.
— Só entregue a carta à Rainha Morgase, Mat — instruiu Nynaeve. — E não deixe ninguém descobrir o que você está carregando.
— Vou entregar. Eu disse que entregaria, não disse? Desse jeito, até parece que não cumpro minhas promessas. — Os olhares que recebeu de Nynaeve e Egwene o fizeram se lembrar de algumas promessas não cumpridas. — Eu vou entregar. Sangue e… eu vou!
Os quatro conversaram um pouco mais, principalmente sobre casa. Egwene e Elayne sentaram-se na cama, Nynaeve ocupou a poltrona, e ele ficou com o banquinho. Falar de Campo de Emond o fazia sentir saudades de casa e parecia entristecer Nynaeve e Egwene, como se falassem de algo que nunca mais veriam. Ele reparou que os olhos delas se enchiam de lágrimas, mas quando tentava desconversar elas traziam o assunto à tona outra vez, recordando os conhecidos, os festivais do Bel Tine e do Dia do Sol, as danças das colheitas e os piqueniques de celebração das tosquias.
Elayne contou a ele sobre Caemlyn, sobre o que esperar do Palácio Real e a quem se dirigir, e falou um pouco da cidade. Às vezes ela se portava de um jeito que quase dava para ele ver a coroa em sua cabeça. Um homem teria que ser muito idiota para se envolver com uma mulher como aquela. Quando as três se levantaram para sair, ele ficou um pouco triste em vê-las partir.
Ele se levantou, sentindo-se estranho de repente.
— Olhem, vocês me fizeram um favor. — Ele tocou o papel da Amyrlin na mesa. — Um enorme favor. Sei que vão se tornar Aes Sedai — balbuciou um pouco ao dizer essa parte —, e que você um dia será rainha, Elayne. Mas, se precisarem de ajuda, se houver qualquer coisa que eu possa fazer por vocês, eu farei. Podem contar comigo. Eu disse alguma coisa engraçada?
Elayne cobria a boca com uma das mãos, e Egwene claramente lutava para não soltar uma risada.
— Não, Mat — respondeu Nynaeve, tranquila, mas com os lábios quase sorrindo. — É só uma coisa que andei observando sobre os homens.
— Você precisaria ser mulher para entender — completou Elayne.
— Tome cuidado na viagem, Mat — disse Egwene. — E não esqueça: quando uma mulher precisa de um herói, precisa dele na hora, não no dia seguinte. — Já não conseguia conter a risada.
Ele observou a porta se fechar. As mulheres, concluiu, pela centésima vez, eram estranhas.
Então levou os olhos à carta de Elayne e ao papel dobrado por cima. O papel abençoado da Amyrlin, que não cabia a ele entender, apenas aceitar e ficar feliz por tê-lo, como uma boa fogueira em pleno inverno. Ele fez uma dancinha sobre o tapete florido. Veria Caemlyn e conheceria uma rainha. Suas próprias palavras me livrarão da senhora, Amyrlin. E também me afastarão de Selene.
— Vocês nunca vão me pegar. — Ele riu, pensando nas duas. — Nunca pegarão Mat Cauthon.
29
Uma Armadilha Para Acionar
O cão que usavam na cozinha para girar os espetos dos assados estava deitado em sua roda de vime, descansando. Lançando um olhar irritado para ele, Nynaeve limpou o suor da testa com uma das mãos e curvou-se para fazer o trabalho do animal. Não me espantaria se me obrigassem a entrar no lugar dele na roda de vime, em vez de girar essa manivela abandonada pela Luz! Aes Sedai! Que a Luz as queime todas! O linguajar era um sinal de como estava irritada. Outro sinal era ela sequer ter percebido o que dissera. Achava que o fogo na comprida lareira de pedra não pareceria mais quente nem mesmo se ela entrasse lá engatinhando. Tinha certeza de que o cão malhado zombava dela.
Elayne removia a gordura do tabuleiro sob os assados com uma colher de pau de cabo longo, enquanto Egwene usava uma similar para regar as carnes. Ao redor delas, a rotina do meio-dia prosseguia na imensa cozinha. Até as noviças estavam tão acostumadas a ter as Aceitas ali que mal olhavam para as três mulheres. Não que as cozinheiras permitissem que as noviças perdessem tempo olhando com cara de bobas para o que quer que fosse. O trabalho edificava o caráter, diziam as Aes Sedai, e as cozinheiras estavam ali para garantir que as noviças o edificassem bastante. E as três Aceitas também.
Laras, a Mestra das Cozinhas — na realidade ela era cozinheira-chefe, porém, era chamada dessa forma havia tanto tempo que aquele poderia muito bem ser seu título —, apareceu para verificar os assados e as mulheres que suavam para fazê-los. Ela era mais que um pouco cheinha, com um queixo triplo e um avental branco imaculado feito com tecido o bastante para três vestidos de noviça. Carregava uma colher de pau de cabo longo como se fosse um cetro. Aquela colher não era para mexer ensopados. Era para comandar as subordinadas e açoitar as que não estivessem edificando o caráter com a rapidez exigida. Ela analisou os assados, cheirou-os com cara de desagrado e franziu a testa para as três Aceitas.
Nynaeve retribuiu o olhar de Laras com o mesmo desagrado e continuou girando o espeto. A mulher robusta ainda estava impassível. Nynaeve já tentara sorrir, mas isso não havia alterado a expressão de Laras. Parar de trabalhar para falar cordialmente provara-se um desastre. Já era ruim o bastante ser ameaçada e atormentada por Aes Sedai. Afinal, aguentar aquilo era necessário, não importava o quão irritante e humilhante fosse, para aprender a usar as habilidades. Não que ela gostasse do que era capaz de fazer — uma coisa era saber que Aes Sedai não eram Amigas das Trevas só porque canalizavam o Poder, outra muito diferente era saber que ela própria era capaz de canalizar —, mas, se quisesse se vingar de Moiraine, era preciso aprender. Seu ódio pela Azul, por tudo o que fizera com Egwene e os outros moradores de Campo de Emond, por acabar com as vidas deles e manipulá-los em prol dos objetivos das Aes Sedai, era praticamente o que a fazia seguir em frente. No entanto, ser tratada como uma criança preguiçosa e pouco inteligente por aquela tal Laras, ser forçada a fazer mesuras e correr para cumprir ordens daquela mulher que ela poderia ter colocado em seu devido lugar com meia dúzia de boas palavras, se estivesse em casa… aquilo a fazia ranger os dentes quase tanto quanto pensar em Moiraine. Talvez, se eu apenas não olhar para ela… Não! Que me queime se eu vou baixar os olhos para essa… essa vaca!
Laras fungou mais alto e foi embora. A mulher bamboleava de um lado a outro ao cruzar os azulejos cinza que haviam acabado de ser esfregados.
Ainda agachada, raspando o tabuleiro engordurado, Elayne lançou um olhar furioso para as costas da Mestra das Cozinhas.
— Se essa mulher me açoitar mais uma vez, vou mandar Gareth Bryne prendê-la, e…
— Cale a boca — sussurrou Egwene. Não parou de mexer os cozidos nem olhou para Elayne. — Ela tem ouvidos de…
Laras se virou como se de fato tivesse escutado, a testa ainda mais franzida, a boca escancarada. Antes que pudesse falar, o Trono de Amyrlin adentrou a cozinha como um furacão. Até a estola listrada em seus ombros parecia irritada. Pela primeira vez, Leane não estava à vista.
Até que enfim, pensou Nynaeve, emburrada. Já não era sem tempo!
A Amyrlin, porém, não olhou para ela. Nem disse uma palavra para qualquer pessoa. A mulher passou a mão por uma mesa que fora escovada até ficar branca, olhou para os próprios dedos e fez uma careta de nojo. Laras surgiu a seu lado em um instante, toda sorrisos, mas o olhar impassível da Amyrlin a fez engoli-los.
A Amyrlin saiu andando pela cozinha. Encarou as mulheres que fatiavam um bolo de aveia. Cravou os olhos nas que descascavam vegetais. Olhou com desprezo para os caldeirões de sopa e para as mulheres que cuidavam deles, que por sua vez voltaram a atenção para a superfície da sopa. A carranca da Amyrlin botou para correr as garotas que entraram carregando pratos e tigelas, de volta para o salão de jantar. A cara fechada afugentou as noviças como ratos ao avistarem um gato. Quando completou meia-volta em torno da cozinha, todas as mulheres trabalhavam com o dobro da velocidade. Quando terminou o circuito, Laras era a única que se atrevia a olhar para ela.