A Amyrlin parou diante do espeto de assar com as mãos na cintura e olhou para Laras. Apenas olhou, sem expressão, os olhos azuis frios e severos.
A mulher corpulenta engoliu em seco, o queixo tremendo enquanto as mãos alisavam o avental. A Amyrlin não piscou. Laras baixou o olhar, mudando o apoio de um pé a outro.
— A Mãe me dê licença — disse com a voz fraca. Fez um movimento que pareceu o arremedo de uma mesura e saiu correndo, tão fora de si que foi se juntar às mulheres diante dos caldeirões de sopa e começou a mexê-los com a própria colher.
Nynaeve deu um sorriso, mantendo a cabeça baixa para escondê-lo. Egwene e Elayne continuaram trabalhando, mas também olhavam de esguelha para a Amyrlin, parada de pé, de costas para elas, a menos de dois passos de distância.
De onde estava, a Amyrlin podia olhar, irritada, para toda a cozinha.
— Se é assim tão fácil intimidá-las — murmurou, baixinho —, devem ter andado trabalhando menos do que deveriam.
É mesmo fácil intimidá-las, pensou Nynaeve. Que mulheres deploráveis. Ela só precisou olhar para elas! A Amyrlin olhou por cima do ombro coberto pela estola, encarando-a por um instante. De súbito, a Aceita percebeu que girava o espeto mais depressa. Disse a si mesma que precisava fingir estar intimidada como todas as outras.
A Amyrlin pousou os olhos em Elayne e falou de repente, em um tom de voz tão alto que quase ecoou nas caçarolas e frigideiras de cobre que pendiam das paredes:
— Algumas palavras eu não tolerarei na boca de uma jovem, Elayne da Casa Trakand. Se as proferir, mandarei limpar sua boca com sabão! — Todas na cozinha deram um salto.
Elayne pareceu confusa, e a indignação surgiu no rosto de Egwene.
Nynaeve sacudiu a cabeça em pequenos espasmos exaltados. Não, garota! Segure essa língua! Não vê o que ela está fazendo?
Mas Egwene abriu a boca. Respeitosa, porém determinada.
— Mãe, ela não…
— Silêncio! — O rugido da Amyrlin produziu outra onda de sobressaltos. — Laras! Pode encontrar algo que ensine essas duas garotas a falarem apenas quando e o que for preciso, Mestra das Cozinhas? Será que consegue fazer isso?
Laras cambaleou com uma rapidez que Nynaeve jamais vira, avançando para cima de Elayne e Egwene e agarrando as duas pela orelha, repetindo o tempo todo:
— Sim, Mãe. Agora mesmo, Mãe. Como a senhora ordenar, Mãe. — Ela saiu arrastando as duas jovens da cozinha, como se estivesse ansiosa para escapar do olhar da mulher.
A Amyrlin naquele momento estava quase colada em Nynaeve, mas ainda olhava para a cozinha. Ao virar com uma tigela nas mãos, uma jovem cozinheira encontrou o olhar da Amyrlin. A jovem soltou um grito agudo e saiu em disparada.
— Não queria que Egwene fosse pega. — A Amyrlin mal movia os lábios. Parecia murmurar para si mesma, e, pela expressão em seu rosto, ninguém na cozinha queria ouvir o que ela dizia. Nynaeve mal conseguiu entender as palavras. — Mas talvez isso a ensine a pensar antes de falar.
A Aceita girou o espeto, mantendo a cabeça baixa e tentando parecer como se também murmurasse entre dentes, caso alguém estivesse olhando.
— Pensei que fosse ficar de olho em nós, Mãe. Para que pudéssemos informá-la do que encontrássemos.
— Filha, se eu viesse aqui para olhar irritada para vocês todos os dias, poderia gerar desconfiança. — A Amyrlin continuou estudando a cozinha. A maioria das mulheres evitava sequer olhar em sua direção, por medo de provocar sua ira. — Planejava levar vocês ao meu gabinete depois da refeição do meio-dia. Para repreendê-las por não escolherem seus estudos, como sugeri a Leane. Mas tenho notícias que não puderam esperar. Sheriam encontrou outro Homem Cinza. Uma mulher. Tão morta quanto pescado de uma semana atrás, sem nem uma marca no corpo. Estava deitada bem na cama da Mestra das Noviças, como se estivesse descansando. Não foi nada agradável para ela.
Nynaeve enrijeceu. O espeto parou de girar por um instante, mas ela se pôs a movimentá-lo outra vez.
— Sheriam teve a chance de ver as listas que Verin deu a Egwene. Elaida também. Não estou fazendo acusações, mas elas tiveram a chance. E Egwene disse que Alanna… também se comportou de forma estranha.
— Ela contou isso a você, foi? Alanna é de Arafel. Eles lá têm umas ideias estranhas sobre honra e dívidas. — Ela deu de ombros, descartando aquilo, mas prosseguiu. — Acho que posso ficar de olho nela. Já descobriram algo de útil, criança?
— Algumas coisas — murmurou Nynaeve, com uma careta. Que tal ficar de olho em Sheriam? Talvez ela não tenha só encontrado esse Homem Cinza. A Amyrlin poderia ficar de olho em Elaida também, aliás. Então quer dizer que Alanna realmente… — Não entendo por que a senhora confia em Else Grinwell, mas a mensagem foi muito útil.
Com frases curtas e rápidas, Nynaeve contou tudo o que haviam encontrado no depósito sob a biblioteca, dando a entender que apenas ela e Egwene tinham ido até lá, e acrescentou as conclusões às quais chegaram. Não mencionou o sonho de Egwene com Tel’aran’rhiod. Ou o que quer que tenha sido aquilo, já que a menina insistia que fora real. Nem falou sobre o ter’angreal que Verin dera a Egwene. Não conseguia confiar plenamente na mulher com a estola de sete listras ou em qualquer uma que usasse o xale, na verdade, e talvez fosse melhor manter algumas coisas em segredo.
Quando ela terminou, a Amyrlin ficou em silêncio por tanto tempo que Nynaeve começou a pensar que a mulher não escutara. Estava prestes a repetir um pouco mais alto quando a mulher enfim se pronunciou, ainda quase sem mover os lábios.
— Não enviei mensagem alguma, Filha. As coisas que Liandrin e as outras deixaram foram vasculhadas à exaustão e depois queimadas, nada foi encontrado. Ninguém usaria os restos da Ajah Negra. Quanto a Else Grinwell… eu me lembro da garota. Ela poderia ter aprendido, caso se esforçasse, mas só tinha interesse em sorrir para os rapazes no pátio de treinamento dos Guardiões. Else Grinwell embarcou em um navio mercante e foi enviada de volta à mãe, dez dias atrás.
Nynaeve tentou engolir o nó que se formara em sua garganta. As palavras da Amyrlin a fizeram pensar nos valentões que aterrorizavam crianças pequenas. Os valentões eram sempre tão desdenhosos das crianças menores, sempre tão seguros de que as pequenas eram muito burras para perceber o que acontecia que se esforçavam muito pouco para disfarçar as armadilhas. Imaginar que a Ajah Negra pensava assim dela fez seu sangue ferver. Imaginar que podiam ter preparado aquela armadilha lhe deu calafrios. Luz, se Else foi mandada embora… Luz, qualquer uma com quem eu fale pode ser Liandrin ou alguma das outras. Luz!
O espeto estava parado. Mais do que depressa, ela voltou a girá-lo. No entanto, ninguém pareceu ter percebido. Todas ainda se esforçavam para não olhar para a Amyrlin.
— E que atitude vocês pretendem tomar a respeito dessa armadilha… tão óbvia? — perguntou, em voz baixa, ainda olhando para a cozinha, não para a mulher no espeto. — Pretende cair nessa também?
Nynaeve enrubesceu.
— Dessa vez sei que é uma armadilha, Mãe. E a melhor maneira de pegar alguém que monta uma armadilha é acioná-la e esperar o caçador… ou caçadora. — Depois do que a Amyrilin havia contado, o argumento pareceu mais fraco do que quando o dissera a Egwene e Elayne, mas ela ainda acreditava naquilo.
— Pode ser, criança. Talvez seja esse o jeito de encontrá-las. Se elas não chegarem e encontrarem vocês presas na armadilha. — Ela soltou um suspiro exasperado. — Vou deixar algum ouro no seu quarto, para a viagem. E vou plantar a notícia de que estou enviando vocês a uma fazenda para carpir repolho. Elayne vai acompanhá-las?