Nynaeve se espantou e se distraiu o suficiente para encarar a Amyrlin por um tempo, mas voltou a olhar para as mãos bem depressa. As juntas brancas agarravam o cabo do espeto.
— Sua tratante desg… por que o fingimento, se sabia? Suas conspirações dissimuladas nos confundiram quase tanto quanto a Ajah Negra. Por quê? — A Amyrlin contraiu o rosto, o suficiente para Nynaeve se obrigar a adotar um tom mais respeitoso. — Se me permite a pergunta, Mãe.
A Amyrlin bufou.
— Já vai ser bem difícil pôr Morgase de volta no caminho certo, por vontade dela ou não, sem que a rainha pense que mandei sua filha ao mar num esquife furado. Desse jeito, posso dizer que não tive nada a ver com o assunto. Talvez finalmente enfrentar a mãe seja um pouco difícil para Elayne, mas tenho três sabujos agora, não dois. Eu disse que teria cem, se pudesse. — Ela ajeitou a estola nos ombros. — Já estendemos isso demais. Se eu ficar tão perto de você pode ser que percebam. Tem algo mais a me dizer? Seja breve, Filha.
— O que é Callandor, Mãe?
Dessa vez foi a Amyrlin quem perdeu a compostura, virando metade do corpo para Nynaeve antes de se ajeitar outra vez.
— Elas não podem conseguir aquilo. — O sussurro era quase inaudível, como se ela falasse apenas consigo mesma. — Não podem apanhá-la de forma alguma, mas… — A mulher respirou fundo e proferiu as palavras com firmeza suficiente para que Nynaeve as ouvisse com clareza, ainda que ninguém a mais dois passos de distância conseguisse fazê-lo. — Não mais que dez mulheres na Torre sabem o que é Callandor, e talvez haja a mesma quantidade de conhecedoras do lado de fora. Os Grão-lordes de Tear sabem, mas nunca falam a respeito, exceto quando um Senhor das Terras é elevado. A Espada Que Não Pode Ser Tocada é um sa’angreal, garota. Só dois mais poderosos que ela foram criados, e graças à Luz nenhum foi usado. Com Callandor nas mãos, criança, é possível derrubar uma cidade inteira com um só golpe. Se for preciso morrer para manter esse objeto longe das mãos da Ajah Negra… você, Egwene, Elayne, todas as três, estarão fazendo um favor ao mundo inteiro, e a um preço muito barato.
— Como é que poderiam pegá-la? — perguntou Nynaeve. — Pensei que só o Dragão Renascido podia tocar Callandor.
A Amyrlin lançou um olhar de soslaio tão penetrante que seria capaz de perfurar os assados no espeto.
— Elas podem estar atrás de outra coisa — disse, depois de um instante. — Roubaram alguns ter’angreal aqui. A Pedra de Tear tem quase tantos ter’angreal quanto a Torre.
— Pensei que os Grão-lordes odiassem tudo o que tem a ver com o Poder Único — sussurrou Nynaeve, incrédula.
— Ah, eles odeiam, criança. Odeiam e temem. Quando encontram uma garota tairena capaz de canalizar, a despacham num navio para Tar Valon antes do fim do dia, sem que ela mal tenha tempo de se despedir da família. — O murmúrio da Amyrlin estava carregado de lembranças amargas. — Mesmo assim, sua preciosa Pedra guarda um dos focos do Poder mais poderosos de que o mundo já teve notícia. Acho que foi por isso que juntaram tantos ter’angreal ao longo dos anos, além de tudo o que tivesse relação com o Poder. É como se, assim, pudessem diminuir a existência de algo de que não são capazes de se livrar, algo que os faz recordar o destino a que estão condenados cada vez que adentram o Coração da Pedra. A fortaleza que destruiu cem exércitos cairá como um dos sinais de que o Dragão Renasceu. E não será o único sinal, apenas um deles. Como isso deve amargurar seus corações orgulhosos. Sua ruína não será sequer um dos grandes sinais da mudança do mundo. Não podem sequer ignorá-lo ficando longe do Coração. É lá que os Senhores da Terra são elevados a Grão-lordes, onde passam pelo chamado Rito de Defesa quatro vezes por ano, alegando que protegem o mundo inteiro do Dragão por possuir Callandor. Deve ser como uma ferroada em suas almas, quase como um ataque de lúcios, e não é mais do que merecem. — Ela se recompôs, como se acabasse de perceber que falara muito mais do que pretendia. — Isso é tudo, criança?
— Sim, Mãe — respondeu Nynaeve. Luz, tudo sempre acaba voltando a Rand, não é? Sempre volta para o Dragão Renascido. Ainda era um esforço pensar nele daquela forma. — Isso é tudo.
A Amyrlin ajeitou a estola mais uma vez, franzindo a testa diante da correria frenética da cozinha.
— Vou precisar dar um jeito nisso. Não podia mais esperar para falar com vocês, mas Laras é uma boa mulher e cuida muito bem da cozinha e das despensas.
Nynaeve fungou, falando para suas mãos, que seguravam o cabo do espeto.
— Laras é uma balofa amarga, habilidosa demais com aquela colher para o meu gosto. — Pensou que havia apenas resmungado entre dentes, mas ouviu a Amyrlin soltar um risinho irônico.
— Você é boa em julgar as pessoas, criança. Deve ter sido uma boa Sabedoria em sua aldeia. Laras foi até Sheriam e exigiu saber por quanto tempo manteremos vocês três fazendo o trabalho mais difícil e sujo, sem qualquer perspectiva de algo mais leve. Disse que não compactuaria com a destruição da saúde ou do espírito de mulher alguma, independentemente do que eu dissesse. Muito boa em julgar as pessoas, criança.
Laras retornou à porta da cozinha naquele momento, hesitante em adentrar o próprio domínio. A Amyrlin foi falar com ela, com sorrisos no lugar das caretas e dos olhares fulminantes.
— Tudo me parece muito bem, Laras. — As palavras da Amyrlin foram ouvidas por toda a cozinha. — Não vejo nada fora do lugar, tudo está como deveria. É preciso elogiá-la. Acho que vou transformar Mestra das Cozinhas em um título formal.
O rosto da mulher robusta passou de desconforto a choque, então a entusiasmo. Quando a Amyrlin saiu do aposento, Laras era toda sorrisos. No entanto, sua testa voltou a franzir quando tirou os olhos da Amyrlin e os voltou para as trabalhadoras. A cozinha parecia a pleno vapor. A mulher pousou o olhar soturno em Nynaeve.
Voltando a girar o espeto, a Aceita tentou sorrir para a mulher parruda.
Laras intensificou a careta e começou a bater com a colher no quadril, aparentemente esquecida de que, pela primeira vez, o objeto fora usado para seu propósito original. Manchas de sopa surgiram no avental branco.
Vou sorrir para ela mesmo que isso acabe me matando, pensou Nynaeve, embora tivesse que apertar os dentes.
Egwene e Elayne voltaram, contorcendo os rostos e esfregando as bocas nas mangas. A um olhar de Laras, correram para o espeto e retomaram as tarefas.
— Sabão — resmungou Elayne, falando com dificuldade — tem um gosto horrível!
Egwene estremecia enquanto usava uma colher para despejar o líquido da caçarola por cima dos assados.
— Nynaeve, se você me disser que a Amyrlin nos mandou ficar, vou gritar. E vou acabar fugindo de verdade.
— Partimos depois que a limpeza terminar — explicou —, só vamos parar para pegar nossas coisas. — Ela desejou poder compartilhar a avidez que faiscava nos olhos das outras duas. A Luz permita que a gente não esteja se metendo em uma armadilha de onde não vamos conseguir sair. Que a Luz permita.
30
O Primeiro Lance
Depois que Nynaeve e as outras saíram, Mat passou a maior parte do dia no quarto, exceto por um breve passeio. Estava fazendo planos. E comendo. Comeu quase tudo o que as serviçais trouxeram e ainda pediu mais. Elas ficaram muito felizes em atendê-lo. Ele pediu pão, queijo e frutas, depois empilhou maçãs, peras enrugadas pelo frio, nacos de queijo e fatias de pão dentro do guarda-roupa, deixando as bandejas vazias para serem levadas.