Ao meio-dia, teve que aguentar a visita de uma Aes Sedai que se chamava Anaiya, pelo que se lembrava. Ela tocou a testa dele, o que produziu arrepios por seu corpo. Era o Poder Único, concluiu, não o mero toque de uma Aes Sedai. Aquela era uma mulher de aparência comum, apesar do rosto sem rugas e da serenidade de Aes Sedai.
— Você parece bem melhor — disse ela, sorrindo. Aquele sorriso o fazia lembrar-se da mãe. — Um tanto mais faminto do que eu esperava, pelo que ouvi dizer, mas melhor. Fui informada de que está tentando esvaziar nossas despensas. Pode acreditar quando digo que vamos lhe dar toda a comida de que precisar. Tenha certeza de que não deixaremos você perder uma refeição sequer enquanto não estiver plenamente recuperado.
Ele lançou o sorriso largo que usava com a mãe quando queria convencê-la de algo em especial.
— Eu sei que não. E estou mesmo me sentindo melhor. Pensei em ver um pouco da cidade agora à tarde. Se não se opuserem, é claro. Talvez visitar uma estalagem à noite. Nada como um pouco de conversa de salão para animar o espírito.
Ele pensou ver os lábios dela quase se contorcerem em um sorriso maior.
— Ninguém vai tentar impedi-lo, Mat. Mas não tente sair da cidade. Isso só vai irritar os guardas e resultar em uma viagem de volta para cá, com escolta.
— Eu não faria isso, Aes Sedai. O Trono de Amyrlin disse que eu morreria de fome em poucos dias se fugisse.
Ela assentiu, como se não acreditasse em uma palavra.
— É claro. — Quando ela se virou para ir embora, pousou os olhos no bastão que ele trouxera do pátio de treinamento, apoiado em um canto do quarto. — Você não precisa se proteger de nós, Mat. Está tão seguro aqui quanto em qualquer outro lugar. Provavelmente muito mais seguro.
— Ah, eu sei disso, Aes Sedai. Eu sei disso.
Depois que ela saiu, ele franziu a testa para a porta, se perguntando se teria conseguido convencê-la de alguma coisa.
Já era mais noite do que tarde quando ele deixou o quarto pelo que esperava que fosse a última vez. O céu começava a ficar arroxeado, e o sol poente pincelava as nuvens a oeste em tons avermelhados. Depois que ajeitou o manto em volta do corpo e pendurou no ombro a grande bolsa de couro que encontrara da última vez que saíra, arredondada por conta do pão, do queijo e das frutas que surrupiara, uma olhadela no espelho mostrou que não havia como esconder suas intenções. Mat enrolou o restante das roupas no cobertor da cama e jogou o rolo nos ombros. O bastão faria as vezes de cajado. Nada fora deixado para trás. Os bolsos do casaco guardavam todos os pertences menores, e a bolsa do cinturão, os mais importantes. O papel do Trono de Amyrlin. A carta de Elayne. E o copo de dados.
Ele viu Aes Sedai no trajeto para a saída da Torre. Algumas repararam nele, embora a maioria tivesse apenas levantado as sobrancelhas, e nenhuma falou com ele. Anaiya foi a única. Deu um sorriso divertido e um pesaroso aceno de cabeça. Ele respondeu dando de ombros, com o sorriso mais culpado que pôde, e ela prosseguiu em silêncio, balançando a cabeça. Os guardas nos portões da Torre apenas olharam para ele.
Foi só quando chegou à grande praça e viu as ruas da cidade que enfim sentiu uma onda de alívio. E triunfo. Se não pode esconder suas intenções, faça com que todos pensem que é um paspalho. Então ficarão parados esperando você cair de cara no chão. Aquelas Aes Sedai vão ficar esperando os guardas me levarem de volta. De manhã, quando perceberem que não voltei, farão uma busca. Não vai ser muito frenética logo no começo, pois pensarão que fui só até a cidade. Quando perceberem que sumi, este coelho já terá descido o rio e estará muito longe dos sabujos.
Com o coração tão leve como não sentia em anos, ou pelo menos era o que parecia, ele começou a cantarolar “Cruzamos a Fronteira Outra Vez”, seguindo em direção ao porto de onde zarpavam as embarcações para Tear e todas as aldeias no caminho, ao longo do Erinin. Ele não iria tão longe, é claro. Aringill, de onde pegaria a estrada para seguir até Caemlyn, ficava na metade do caminho, rio abaixo.
Vou entregar a maldita carta. Que audácia a dela, pensando que eu não faria, mesmo depois de ter prometido. Vou entregar essa porcaria nem que seja a última coisa que eu faça.
O crepúsculo começava a cobrir Tar Valon, mas ainda havia bastante luz para agraciar as fantásticas construções e as torres em formatos exóticos, ligadas por pontes altíssimas que se estendiam, a céu aberto, a centenas de passos do chão. As ruas ainda estavam apinhadas de gente, todos vestidos de formas tão diferentes que ele achou que devia haver pessoas de todas as nações. Ao longo das avenidas principais, pares de acendedores de lampiões usavam escadas para iluminar o topo dos postes mais altos. Entretanto, na parte de Tar Valon que ele procurava, a única luz era a que vinha das janelas.
As maiores construções e torres de Tar Valon haviam sido erguidas por Ogier, mas outras, na parte mais nova, tinham sido construídas por mãos humanas. Novas, em alguns casos, significava cerca de dois mil anos. Próximo à Baía do Sul, as mãos do homem tentaram, senão reproduzir, ao menos ficar à altura do engenhoso trabalho dos Ogier. As cantarias das estalagens onde as tripulações se reuniam para bebedeiras eram similares às dos palácios. Estátuas em nichos e tetos em cúpula, cornijas ornamentadas e frisos com entalhes intrincados decoravam as lojas e tendas de mercadores. Pontes em arco também cruzavam os céus naquela área da cidade, mas as ruas eram de pedrinhas, não de paralelepípedos. Muitas das pontes eram de madeira em vez de pedra, e às vezes tão baixas que ligavam o segundo andar dos prédios onde foram construídas, sem nunca se elevarem acima do quarto andar.
As ruas escuras fervilhavam com tanta vida como qualquer outra em Tar Valon. Mercadores saindo das embarcações com os compradores de suas mercadorias, viajantes do Rio Erinin e seus condutores, todos enchiam as tavernas e os salões das estalagens na companhia dos que buscavam o dinheiro que eles carregavam, fosse por meios honestos ou escusos. As ruas eram tomadas pelo estardalhaço de música de sabiolas, flautas, harpas e saltérios. Três jogos de dado aconteciam na primeira estalagem em que Mat entrou, homens aos berros, agachados em círculos perto das paredes do salão, anunciavam perdas e ganhos.
Ele só pretendia jogar por uma ou duas horas até conseguir um navio, o suficiente para engordar a bolsa com algumas moedas, mas ganhou. Desde que se entendia por gente, sempre ganhara mais do que perdera, e algumas vezes, com Hurin e em Shienar, ganhara seis ou oito rodadas seguidas. Naquela noite, ele ganhou todas as rodadas. Todas.
Pelos olhares que alguns dos homens lançaram, ele ficou feliz por ter deixado os próprios dados guardados. Aqueles olhares o fizeram decidir sair de lá. Foi com surpresa que se deu conta de que tinha quase trinta marcos de prata na bolsa, mas, como havia ganhado um pouco de cada homem, os presentes ficaram felizes em vê-lo partir.
A não ser por um marinheiro escuro de cachos miúdos. Ele era do Povo do Mar, segundo o que alguém dissera, embora Mat tivesse se perguntado o que um Atha’an Miere fazia tão longe da água salgada. O homem o seguira até a rua mal iluminada, brigando por uma chance de recuperar seu dinheiro. Mat queria seguir para as docas — trinta marcos de prata eram mais que o suficiente —, mas o marinheiro continuava discutindo. Como só usara metade do tempo de que dispunha, acabou cedendo e entrou na próxima taverna por onde passaram.
Ele ganhou de novo, e foi como se uma febre o dominasse. Ganhou todos os lances. Foi da taverna para uma estalagem, e de volta a tavernas, sem nunca ficar tempo demais para irritar alguém com tantas vitórias. E continuava ganhando todos os lances. Trocou prata por ouro com um cambista. Jogou coroas, cincos e ruína da donzela. Participou de jogos de cinco dados, de quatro, de três e até de dois. Apostou em jogos que nunca vira até aquela noite, ao entrar na roda ou pegar um lugar na mesa. E ganhou. Em algum momento da noite, o marinheiro negro que se apresentara como Raab foi embora, impressionado e exausto, mas de bolsos cheios: decidira apostar em Mat. O rapaz logo encontrou outro cambista, ou talvez tivesse sido dois: a febre parecia enevoar sua mente, assim como embaçava as lembranças do passado. Então seguiu rumo a mais um jogo. Para ganhar.