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E depois ela tentou me matar! A música se elevou a um guincho desafinado, mas ele retomou a suavidade. Não foi ela. Foi uma Criatura da Sombra com o rosto dela. Min era a menos capaz de me fazer mal. Ele não entendia por que pensava assim, mas tinha certeza de que era verdade.

Tantos rostos em seus sonhos. Selene também viera, fria, misteriosa e tão encantadora que sua boca secou só de pensar, oferecendo a ele a glória que ela tinha havia muito tempo, ao que parecia. Entretanto, ela passara a dizer que ele precisava pegar uma espada. E com a espada, viria Selene. Callandor. Estava sempre em seus sonhos. Sempre. E rostos zombeteiros. Mãos empurrando Egwene, Nynaeve e Elayne para dentro de jaulas, capturando-as em redes, machucando-as. Por que ele deveria chorar mais por Elayne do que pelas outras duas?

Sua mente girava. E sua cabeça doía tanto quanto a lateral de seu corpo, o suor escorria por seu rosto, e ele tocava “Rosa da Manhã” baixinho em plena noite, com medo de dormir. Com medo de sonhar.

33

Dentro da Trama

De sua sela, Perrin franziu a testa para a pedra lisa à beira da estrada, meio escondida pelo mato. Dois dias antes, Moiraine dissera que aquele caminho duro de terra batida, que era chamado de Estrada de Lugard ali, perto do Manetherendrelle e da fronteira de Murandy, já fora pavimentado. E volta e meia dava para ver alguns trechinhos de pavimento na superfície. A pedra que ele examinava continha uma marcação estranha.

Se cães fossem capazes de deixar pegadas na pedra, ele diria que aquela era a pegada de um grande cão de caça. Não conseguiu ver rastros de cão no chão de terra, onde o solo mais fofo das margens seria mais fácil de marcar, e também não sentiu nenhum cheiro de cachorro. Apenas um traço fraco de algo queimado, quase como o cheiro sulfuroso deixado por fogos de artifício. Havia uma cidade adiante, onde a estrada seguia paralela ao rio. Talvez algumas crianças tivessem surrupiado o trabalho de um dos Iluminadores para acendê-lo ali.

Mesmo assim, é muito afastado para crianças virem aprontar por aqui. Mas ele vira fazendas. Podiam ter sido crianças de fazenda. Seja o que for, não tem nada a ver com essas marcas. Cavalos não voam, e cães não deixam pegadas na pedra. Estou ficando muito cansado para pensar direito.

Bocejando, ele cravou os calcanhares nas costelas de Galope, e o cavalo castanho avançou depressa atrás dos outros. Moiraine imprimia um ritmo bem pesado desde a partida de Jahra, e ninguém mais esperava quem parasse, mesmo que por um instante. Quando a Aes Sedai enfiava algo na cabeça, sua vontade era dura como aço temperado. Seis dias antes, Loial desistira de ler enquanto cavalgava, depois de perceber que estava uma milha atrás dos outros, quase os perdendo de vista na colina seguinte.

Perrin reduziu o passo de Galope ao lado do grande cavalo do Ogier, atrás da égua branca de Moiraine, e deu outro bocejo. Lan estava em algum ponto à frente, fazendo o reconhecimento da área. O sol atrás deles não continuaria sobre as copas das árvores por mais de uma hora, mas o Guardião dissera que chegariam a uma cidade chamada Remen, perto do Manetherendrelle, antes de escurecer. Perrin não sabia ao certo se queria ver o que os aguardava lá. Não sabia o que poderia ser, mas os dias que se passaram desde Jahra o deixavam preocupado.

— Não entendo por que é que você não consegue dormir — comentou Loial. — Já estou tão cansado quando ela deixa a gente parar, de noite, que acabo caindo no sono antes de conseguir me deitar.

Perrin apenas sacudiu a cabeça. Não tinha como explicar a Loial que ele não se atrevia a pegar no sono profundo, e que mesmo o sono mais leve era repleto de sonhos atormentados. Como aquele estranho, com Egwene e Saltador. Ora, não me admira que eu sonhe com ela. Luz, como será que ela está? A essa altura deve estar na Torre, em segurança, aprendendo a ser uma Aes Sedai. Verin cuidará dela, e de Mat também. Ele não achava que alguém precisasse cuidar de Nynaeve. Na opinião dele, as pessoas que estivessem perto dela é que precisavam de alguém para cuidar delas.

Ele não queria pensar em Saltador. Estava conseguindo manter os lobos vivos afastados de seus pensamentos, embora ao preço de se sentir golpeado e arrastado por uma mão ligeira. Não queria pensar que um lobo morto poderia estar se esgueirando em sua mente. Ele se sacudiu e se forçou a abrir os olhos. Nem mesmo Saltador.

Havia outras razões, além dos pesadelos, para que ele não dormisse bem. Tinham encontrado outros sinais da passagem de Rand. Perrin não conseguiu perceber nenhum entre Jahra e o Rio Boern, mas, ao cruzarem o Boern por uma ponte de pedra que se arqueava entre dois desfiladeiros de cinquenta pés, deixaram para trás uma cidade reduzida a cinzas, chamada Sidon. Todas as construções. Apenas umas poucas muralhas de pedra e chaminés ainda se erguiam em meio às ruínas.

As pessoas da cidade, cobertas de lama, afirmaram que o incêndio fora provocado pela queda de um lampião em um celeiro, que o fogo se alastrara depressa e que tudo dera errado. Metade dos baldes que conseguiram encontrar estava furada. Todas as paredes dos prédios em chamas tinham tombado para fora, não para dentro, incendiando as casas vizinhas. As vigas de madeira da estalagem, em chamas, de alguma forma saíram rolando até o poço principal, que ficava na praça, por isso ninguém conseguiu retirar mais água para apagar o fogo, e outras casas desabaram bem em cima dos outros três poços. Até o vento parecia mudar de direção, espalhando as chamas para todos os lados.

Não houvera necessidade de perguntar a Moiraine se a presença de Rand causara tudo aquilo: o rosto dela, duro como ferro, já revelava a resposta. O Padrão se moldava em torno de Rand, e o acaso fugira ao controle.

Depois de Sidon, haviam passado por quatro vilarejos onde apenas a busca de Lan por rastros informou que Rand ainda estava à frente. O rapaz seguia a pé já havia algum tempo. Tinham encontrado seu cavalo um pouco depois de Jahra, morto, parecendo ter sido atacado por lobos ou cachorros selvagens. Naquele momento, fora difícil para Perrin não fazer contato com os lobos, ainda mais quando Moiraine olhou do cavalo para ele e franziu a testa. Por sorte, Lan encontrara pegadas das botas de Rand correndo para longe de onde jazia o cavalo. Uma das botas tinha um entalhe de três pontas feito por uma pedra, o que deixava as pegadas planas. Porém, a pé ou a cavalo, ele parecia ainda se manter à frente deles.

Nas quatro aldeias depois de Sidon, o acontecimento mais relevante de que todos se lembravam era ver Loial chegar a cavalo e descobrir que ele era um Ogier de verdade, em carne e osso. Ficaram tão arrebatados que mal notaram os olhos de Perrin e, quando notaram… bem, se Ogier eram reais, então os homens poderiam ter qualquer cor de olho.

Entretanto, logo depois chegaram a um lugarejo chamado Willar, que estava em festa. A nascente comunitária voltara a fluir, depois de todos passarem um ano retirando água de um riacho a uma milha de distância, após esgotarem os esforços na escavação de novos poços e de metade dos aldeões terem se mudado. Willar não morreria, afinal. Três outras aldeias intocadas vieram em rápida sucessão, todas no mesmo dia. Depois delas, chegaram a Samaha, onde todos os poços haviam secado na noite anterior, e o povo resmungava sobre o Tenebroso. Depois Tallan, onde todas as antigas disputas que a cidade já presenciara haviam eclodido outra vez, como poços transbordantes, na manhã anterior. Fora preciso que acontecessem três crimes até que todos se chocassem e recobrassem o bom senso. E, finalmente, Fyall, onde as colheitas da primavera pareciam as mais pobres de que se tinha lembrança, mas o Prefeito, cavando um banheiro novo atrás de casa, encontrara sacos de couro apodrecidos cheios de ouro, então ninguém passaria fome. Ninguém em Fyall reconheceu as gordas moedas com o rosto de uma mulher em uma das faces e uma águia na outra. Moiraine explicou que haviam sido cunhadas em Manetheren.