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Certa noite, Perrin enfim perguntou a respeito das mudanças, quando estavam sentados ao redor da fogueira.

— Depois de Jahra, eu pensei… eles estavam tão felizes com os casamentos. Até mesmo os Mantos-brancos tinham apenas passado por tolos. E Fyall não foi ruim, Rand não poderia ter tido nada a ver com as colheitas. Estavam fracassando antes mesmo de ele chegar, e aquele ouro sem dúvida era bom, pois estavam precisando. Mas todo o resto… aquela cidade em chamas, os poços secos, e… isso é maligno, Moiraine. Não posso acreditar que Rand seja maligno. O Padrão pode estar se moldando ao redor dele, mas como é que o Padrão pode ser tão maligno? Não faz sentido, e as coisas têm que fazer sentido. Uma ferramenta sem finalidade é só metal desperdiçado. O Padrão não faria isso.

Lan o encarou com ironia e desapareceu na escuridão para examinar o entorno do acampamento. Loial, já deitado em seus cobertores, ergueu a cabeça para escutar, as orelhas aguçadas.

Moiraine ficou em silêncio por algum tempo, aquecendo as mãos. Enfim, pronunciou-se, encarando as chamas.

— O Criador é bom, Perrin. O Pai das Mentiras é maligno. O Padrão da Era, a própria Renda da Era, não é nem um, nem outro. O Padrão é o que é. A Roda do Tempo tece todas as vidas dentro do Padrão, todas as ações. Um tecido de uma cor só não tem padrão. Para o Padrão de uma Era, o bem e o mal são o fuso e os fios.

Três dias depois, embora cavalgando sob o sol do fim da tarde, Perrin sentiu o mesmo arrepio que sentira ao ouvi-la dizer aquelas palavras. Ele queria acreditar que o Padrão era bom. Queria acreditar que os homens que praticavam atos malignos estavam indo contra o Padrão, distorcendo-o. Para ele, o Padrão era uma criação delicada e intrincada, feita por um mestre ferreiro. Era ruim pensar que ali se misturava metais baratos e ruins com aço bom, sem a menor preocupação.

— Eu me preocupo — murmurou, baixinho. — Luz, eu me preocupo.

Moiraine olhou para ele, que se calou. Não tinha certeza das preocupações da Aes Sedai, além de Rand.

Alguns minutos depois, Lan surgiu diante deles e girou o cavalo de batalha preto para o lado da égua de Moiraine.

— Remen fica logo depois da próxima colina — disse. — Tiveram um ou dois dias conturbados, ao que parece.

As orelhas de Loial estremeceram uma vez.

— Rand?

O Guardião sacudiu a cabeça.

— Não sei. Talvez Moiraine possa dizer, quando vir. — A Aes Sedai lançou um olhar indagativo ao homem e apressou o passo da égua com um cutucão.

Quando chegaram no topo da colina, lá estava Remen abaixo deles, colada ao rio. O Manetherendrelle se estendia por mais de meia milha de largura, sem pontes, embora duas balsas lotadas, similares a barcaças, cruzassem o rio, impulsionadas por longos remos, e uma, quase vazia, estivesse voltando. Três outras compartilhavam um extenso píer de pedra, com quase uma dúzia de embarcações mercantes, algumas com um mastro, outras com dois. Uns poucos armazéns de pedra separavam o píer da cidade. Os prédios pareciam, em sua maioria, também feitos de pedra, com telhados de azulejos de todas as cores, de amarelo e vermelho a roxo. Ruas saíam de uma praça central para todas as direções.

Moiraine puxou o capuz, escondendo o rosto antes de prosseguirem.

Como sempre, o povo nas ruas olhou para Loial, mas dessa vez Perrin ouviu murmúrios espantados de “Ogier”. Loial se endireitou na sela, como não fazia havia algum tempo, ergueu as orelhas e esboçou um sorriso com o canto da boca. Estava óbvio que tentava não deixar transparecer a satisfação, mas parecia um gato ao receber um afago.

Perrin achou Remen parecida com muitas outras cidades, cheia de aromas criados pelo homem e de cheiro de gente. Além disso, também tinha um forte cheiro de rio, é claro, e o rapaz se perguntou o que Lan quisera dizer mais cedo. Até que os pelos de sua nuca se eriçaram e ele sentiu cheiro de algo… errado. Assim que o nariz absorveu o cheiro, ele desapareceu como uma crina de cavalo jogada na brasa, mas o rapaz ainda se lembrava. Sentira o mesmo em Jahra, e ele desaparecera da mesma forma. Não era um Deformado ou Desnascido. Trolloc, que me queime, não Deformado! Não Desnascido! Myrddraal, Desvanecido, Meio-homem, qualquer coisa, menos Desnascido. Não era cheiro de um Trolloc ou Desvanecido, mas era igualmente pútrido, pungente e vil. Porém, parecia que o que quer que emitira aquele odor não deixara rastro.

Eles chegaram à praça da cidade. Um dos grandes blocos de pavimento fora removido, bem no meio da praça, para que uma forca fosse erguida. Uma única viga de madeira projetava-se do chão de terra, sustentando um esteio horizontal do qual pendia uma jaula de ferro, erguida a quatro passos de altura. Um homem alto, vestido em tons de cinza e marrom, estava sentado dentro da jaula, com o queixo apoiado nos joelhos. Não havia espaço para outra posição. Três rapazotes atiravam pedras nele, que olhava para a frente e não se retraía nem mesmo quando uma das pedras acertava as barras da jaula. Mais de um filete de sangue manchava seu rosto. Os transeuntes prestavam tão pouca atenção aos garotos quanto o homem, mas todos espiavam a jaula, a maioria em aprovação, alguns com medo.

Moiraine fez um som com a garganta, que poderia ter sido de nojo.

— Não é só isso — disse Lan. — Venham. Já arrumei alguns quartos em uma estalagem. Acho que vão se interessar.

Ao passar, Perrin olhou por cima do ombro para o homem enjaulado. Havia algo familiar nele, mas não sabia exatamente o quê.

— Não deveriam fazer isso. — O resmungo de Loial assemelhava-se a um rosnado. — Estou falando das crianças. Os adultos tinham que impedi-los.

— É verdade — concordou Perrin, mal prestando atenção. Por que ele é tão familiar?

A placa sobre a porta da estalagem até onde Lan os conduzira, próximo ao rio, dizia Ferraria de Wayland, o que Perrin tomou como um bom presságio. Mas não parecia haver nada de forja em relação ao lugar, exceto pelo homem pintado na placa, com avental de couro e segurando um martelo. Era uma construção ampla de três andares e teto roxo, formada por pedras cinzentas polidas, com janelas grandes e portas com entalhes em arabesco, e tinha uma aparência próspera. Cavalariços vieram correndo para levar os cavalos, fazendo mesuras ainda mais profundas depois que Lan lhes jogou moedas.

Lá dentro, Perrin olhou para as pessoas. Parecia que os homens e mulheres às mesas estavam todos vestidos em trajes de festa, com mais bordados nos casacos, renda nos vestidos, fitas coloridas e cachecóis franjados do que ele vira em muito tempo. Apenas quatro homens sentados a uma das mesas usavam casacos simples, e esses foram os únicos que não olharam com expectativa quando Perrin e os outros adentraram o recinto. Os quatro homens continuaram a conversar baixinho. Ele conseguiu distinguir um pouco do que diziam, sobre as vantagens de transportar pimenta gelada em vez de pele, e o que os problemas em Saldaea fizeram com os preços. Capitães de navios mercantes, concluiu. Os outros pareciam locais. Até as serviçais pareciam vestidas em suas melhores roupas, os longos aventais cobrindo vestidos bordados e com renda nos decotes.

A cozinha estava a pleno vapor: ele sentia aroma de carneiro, cordeiro, frango e boi, além de alguns tipos de vegetais. E um bolo de especiarias que o fez esquecer a carne por um instante.

O estalajadeiro em pessoa os recebeu, um homem roliço e careca, de olhos castanhos e brilhantes em um rosto tranquilo e róseo. Ele se curvou em mesuras e esfregou as mãos para limpá-las. Se não tivesse ido até eles, Perrin jamais pensaria que era o dono, pois, em vez do esperado avental branco, o homem usava um casaco, como todos os hóspedes. Os bordados brancos e verdes se espalhavam em uma pesada lã azul que o fazia suar em bicas.

Por que todos estão usando roupas de festa?, perguntou-se Perrin.