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— Quero ir também. Sou um escudeiro. Posso lutar.

— É por isso que quero que fiques aqui. Pode haver foras da lei nestes bosques. Não nos atrevemos a deixar os cavalos desprotegidos.

Podrick remexeu numa pedra com a bota.

— Como quiser.

Brienne abriu caminho através das amoras silvestres e puxou por um anel ferrugento de ferro. A poterna resistiu durante um momento, e depois abriu-se de repente, com as dobradiças a gritar em protesto. O som fez com que os pêlos na parte de trás do pescoço se lhe eriçassem. Desembainhou a espada. Apesar de vestida de cota de malha e couro fervido, sentiu-se nua.

— Vá lá, senhora — incentivou-a Dick, o Ágil, atrás dela. — De que esta à espera? O Velho Crabb está morto há mil anos.

E de que estava à espera? Brienne disse a si própria que estava a ser tola. O som era só o mar, ecoando constantemente pelas cavernas por baixo do castelo, subindo e descendo a cada onda. Realmente soava como murmúrios, porém, e por um momento quase conseguiu ver as cabeças, arrumadas nas suas prateleiras e resmungando umas com as outras.

— Devia ter usado a espada — estava uma delas dizendo. — Devia ter usado a espada mágica.

— Podrick — disse Brienne. — Tem uma espada e uma bainha enrolada no meu rolo de dormir. Traga os aqui.

— Sim, sor. Senhora. Eu trago. — O rapaz partiu a correr.

— Uma espada? —Dick coçou-se por trás da orelha. — Tem uma espada na mão. Pra que precisa de outra?

— Esta é para você. — Brienne ofereceu-lhe o cabo.

— Sério? — Crabb estendeu hesitantemente a mão, como se a lâmina lhe pudesse morder. — A donzela desconfiada está a dar uma espada ao velho Dick?

— Espero que saiba como se usa.

— Sou um Crabb. — Arrancou-lhe a espada da mão. — Tenho o mesmo sangue do velho Sor Clarence. — Golpeou o ar e sorriu-lhe. — Há quem diga que é a espada que faz o senhor.

Quando Podrick Payne regressou, trazia a Cumpridora de Promessas com tanto cuidado como se fosse uma criança. Dick soltou um assobio ao ver a ornamentada bainha com a sua fileira de cabeças de leão, mas silenciou-se quando ela desembainhou a arma e experimentou um golpe. Até o som que faz é mais aguçado do que o de uma espada vulgar.

— Comigo — disse a Crabb. Esgueirou-se, de lado, pela poterna, baixando a cabeça para passar por baixo do arco da porta.

O pátio exterior abriu-se na sua frente, coberto de vegetação. À esquerda ficava o portão principal, e a casca arruinada daquilo que poderia ter sido um estábulo. Árvores novas espreitavam de metade das baias e cresciam através do colmo seco e castanho do telhado. À direita, viu degraus apodrecidos de madeira que desciam para a escuridão de uma masmorra ou um armazém subterrâneo. Onde estivera a torre de menagem, encontrava-se uma pilha de pedras derrubadas, cobertas de musgo verde e púrpura. O pátio era só ervas daninhas e agulhas de pinheiro. Havia pinheiros marciais por todo o lado, alinhados em solenes fileiras. Entre eles, erguia-se um estranho branco; um represeiro jovem e esguio com um tronco tão pálido como uma donzela enclausurada. Folhas vermelhas escuras nasciam nos seus longos ramos. Mais adiante encontrava-se o vazio do céu e do mar, no local onde a muralha ruíra...

... e os restos de uma fogueira.

Os murmúrios mordiscavam-lhe os ouvidos, insistentes. Brienne ajoelhou junto à fogueira. Pegou num pau enegrecido, cheirou-o, remexeu as cinzas. Alguém tentou manter-se quente ontem à noite. Ou então estavam a tentar enviar um sinal a um navio de passagem.

— Oláááááááá — gritou Dick. — está aqui alguém?

— Cale-se — disse-lhe Brienne.

— Pode haver alguém escondido. Querendo dar uma olhadela à gente antes de se mostrar. — Dirigiu-se a onde os degraus desciam para o subsolo e espreitou a escuridão. — Olááááááááá — voltou a gritar. — está alguém aí em baixo?

Brienne viu uma árvore jovem a balouçar. Um homem esgueirou-se do interior dos arbustos, de tal modo coberto de terra que parecia ter nascido do chão. Trazia uma espada quebrada na mão, mas foi o seu rosto que a levou a hesitar, os olhos pequenos e as narinas largas e achatadas.

Conhecia aquele nariz. Conhecia aqueles olhos. Os amigos lhe chamavam de Pyg.

Tudo pareceu acontecer num segundo. Um segundo homem apareceu em cima da borda do poço, sem fazer mais ruído do que uma serpente faria ao deslizar sobre uma pilha de folhas úmidas. Usava um meio-elmo de ferro enrolado em seda vermelha enodoada, e tinha uma lança de arremesso curta e grossa na mão. Brienne também o conhecia. Atrás de si ouviu-se um restolhar no momento em que uma cabeça espreitou através das folhas vermelhas. Crabb estava por baixo do represeiro. Olhou para cima e viu a cara.

— Está aqui — gritou para Brienne. — É o seu bobo.

— Dick — chamou ela com urgência — a mim.

Shagwell deixou-se cair do represeiro a zurrar uma gargalhada.

Estava vestido de retalhos, mas de tal modo desbotados e manchados que exibiam mais castanho do que cinzento ou cor-de-rosa. No lugar do malho de um bobo, trazia um mangual triplo, com três bolas eriçadas de espigões acorrentadas a um cabo de madeira. Brandiu-o com força e por baixo, e um dos joelhos de Crabb explodiu numa nuvem de sangue e osso.

— Isto é engraçado — vangloriou-se Shagwell quando Dick caiu. A espada que Brienne lhe dera voou de sua mão e desapareceu nas ervas daninhas. Ficou a contorcer-se no chão, gritando, e agarrado aos restos do joelho. — Oh, olha — disse Shagwell — é o Dick Contrabandista, o tipo que nos fez o mapa. Veio até tão longe para nos devolver o ouro?

— Por favor — choramingou Dick — por favor, não, a minha perna...

— Dói? Posso fazer parar.

— Deixa-o em paz — disse Brienne.

— NÃO! — guinchou Dick, erguendo mãos ensanguentadas para proteger a cabeça. Shagwell voltou a fazer rodopiar a bola de espigões em volta da cabeça e atirou-a contra o meio da cara de Crabb. Ouviu-se um repugnante ruído de esmagamento. No silêncio que se seguiu, Brienne conseguiu ouvir o som do seu coração.

— Shags mau — disse o homem que saíra do poço. Quando viu a cara de Brienne, soltou uma gargalhada. — Você outra vez, mulher? O que foi, veio nos dar caça? Ou teve saudades das nossas caras amigáveis?

Shagwell dançou de um pé para o outro e fez girar o seu malho.

— Foi atrás de mim que ela veio. Sonha comigo todas as noites, quando enfia os dedos na racha. Ela me quer, rapazes, a grande cavalgadora tem saudades do alegre Shags! Vou fodê-la pelo cu acima e enchê-la de semente aos retalhos, até parir um euzinho.

— Vai ter que usar um buraco diferente para isso, Shags — disse Timeon, com o seu sotaque arrastado de Dorne.

— Então o melhor é usar os buracos todos. Só para ter a certeza. — Moveu-se para a sua direita enquanto Pyg a rodeava pela esquerda, forçando-a a recuar na direção da borda irregular da falésia. Passagem para três, recordou Brienne.

— Vocês são três.

Timeon encolheu os ombros.

— Fomos todos cada um para seu lado, depois de deixarmos Harrenhal. Urswyck e a sua malta foi para sul, na direção de Vilavelha.

Rorge achou que podia escapulir-se de Salinas. Eu e os meus rapazes dirigimo-nos a Lagoa da Donzela, mas não conseguimos aproximar-nos de um navio. — O dornês sopesou a lança. — Acabou com o Vargo com aquela dentada, sabia? A orelha ficou preta e começou a deitar pus. Rorge e Urswyck queriam ir embora, mas o Bode diz que tínhamos de defender o seu castelo. Senhor de Harrenhal, diz ele que é, que ninguém o ia roubar. Disse aquilo todo baboso, como falava sempre. Ouvimos dizer que a Montanha o matou um bocadinho de cada vez. Um dia uma mão, um pé no seguinte, cortados com toda a limpeza. Ligavam os cotos para que o Hoat não morresse. Estava a guardar a pica para o fim, mas uma ave qualquer chamou-o a Porto Real, de modo que acabou com ele e foi-se embora.