— Se houver bordéis no inferno, o desgraçado irá te agradecer — gritou o cavaleiro para baixo. — Caso contrário, isso é um desperdício de bom ouro.
— Eu cumpro as minhas promessas. Que está fazendo aqui?
—Lorde Randyll me pediu para te seguir. Se por algum estranho acaso tropeçasse em Sansa Stark, ele disse-me para a levar de volta para Lagoa da Donzela. Nada tema, me foi ordenado que não te fizesse mal.
Brienne fungou.
— Como se pudesse fazer.
— O que fará agora, senhora?
— Tapá-lo.
— Referia-me à menina. À Senhora Sansa.
Brienne pensou por um momento.
— Ela dirigia-se a Correrrio, se o que Timeon contou for verdade.
Algures ao longo do caminho, foi capturada pelo Cão de Caça. Se o encontrar...
—... ele matar-vos-á.
— Ou então mato-o eu — disse ela, teimosamente. — Irá ajudar-me a tapar o pobre Crabb, sor?
— Nenhum verdadeiro cavaleiro poderia dizer que não a uma tal beleza. — Sor Hyle desceu a muralha. Juntos, empurraram a terra para cima do Dick, enquanto a lua se ia erguendo no céu, e debaixo da terra as cabeças de reis esquecidos murmuravam segredos.
A FAZEDORA DE RAINHAS
Sob o sol ardente de Dorne, a riqueza era tanto medida em água como em ouro, de modo que cada poço era zelosamente guardado.
Contudo, o poço em Pedramarela secara havia cem anos, e os seus guardiões tinham partido para algum lugar mais úmido, abandonando a sua modesta fortaleza, com as suas colunas caneladas e arcadas triplas. Mais tarde, as areias tinham chegado, para reclamar o que lhes pertencia.
Arianne Martell chegou com Drey e Sylva no momento em que o sol se punha, com o ocidente transformado numa tapeçaria de ouro e púrpura e as nuvens a brilhar em tons de carmim. As ruínas pareciam também ter brilho; as colunas caídas projetavam uma luz rosada, sombras rubras rastejavam pelos assoalhos rachados de pedra, e as próprias areais iam passando de dourado a laranja e a púrpura à medida que a luz se desvanecia.
Garin chegara algumas horas antes, e o cavaleiro chamado Estrela Negra no dia anterior.
— Isso aqui é lindo — observou Drey enquanto ajudava Garin a dar água aos cavalos. Tinham trazido consigo sua própria água. Os corcéis de areia de Dorne eram rápidos e incansáveis, e continuavam a avançar longas léguas depois dos outros cavalos cederem, mas nem mesmo eles podiam passar sem água. — Como soube deste lugar?
— O meu tio me trouxe aqui, com Tyene e Sarella. — A recordação fez Arianne sorrir. — Apanhou algumas víboras e mostrou a Tyene a maneira mais segura de obter o seu veneno. Sarella pôs-se a revirar pedras, a sacudir areia dos mosaicos, e quis saber tudo o que havia a saber acerca das pessoas que tinham vivido aqui.
— E o que você fez, princesa? — perguntou a Sylva Malhada.
Sentei-me junto ao poço e fingi que um ladrão tinha me trazido aqui para levar-me com ele, pensou , um homem alto e duro com olhos negro e cabelo recuado nas têmporas. A recordação deixou-a embaraçada.
— Sonhei — disse — e quando o sol se pôs sentei-me de pernas cruzadas aos pés do meu tio e implorei por uma história.
— O Príncipe Oberyn era um homem cheio de histórias. — Garin também estivera com eles naquele dia; era irmão de leite de Arianne, e os dois eram inseparáveis desde antes de aprenderem a andar. — Lembro-me dele ter contado a história do Príncipe Garin, aquele em honra do qual me deram o nome.
— Garin, o Grande — disse Drey, — a maravilha de Roine.
— Esse mesmo. Fez Valíria tremer.
— Tremeram – disse Sor Gerol — e depois o mataram. Se eu levasse um quarto de um milhão de homens para a morte, me chamariam de Gerold, o Grande? — Fungou. — Acho que prefiro Estrela Negra. Pelo menos o nome é meu. — Desembainhou a sua espada, sentou-se na borda do poço seco e pôs-se a amolar a lâmina com uma pedra.
Arianne observou-o com cuidado. É suficientemente bem-nascido para dar um consorte honrado, pensou. O pai questionaria o meu bom senso, mas os nossos filhos seriam tão belos como os senhores dos dragões.
Se existia homem mais bem-apessoado em Dorne, ela não o conhecia. Sor Gerold Dayne tinha um nariz aquilino, malares elevados um maxilar forte.
Mantinha o rosto fechado, mas o cabelo denso caía-lhe até o colarinho como um glacial de prata, dividido por uma faixa do negro da meia-noite. Mas tem uma boca cruel, e uma língua mais cruel ainda. Ali sentado contra a luz do sol moribundo, amolando o aço, os seus olhos pareciam negros, mas ela os vira de perto e sabia que eram púrpuros. De um púrpura escuro. Escuro e irado.
Ele deve ter sentido o olhar dela em si, pois levantou os olhos da espada, encarou o olhar dela e sorriu. Arianne sentiu o calor subir-lhe ao rosto. Nunca deveria tê-lo trazido. Se me olhar deste jeito enquanto Arys estiver aqui, teremos sangue na areia. De quem, não saberia dizer. Por tradição, os homens da Guarda Real eram os melhores cavaleiros de todos os Sete Reinos... mas o Estrela Negra era o Estrela Negra.
As noites de Dorne tornavam-se frias na areia. Garin arranjou-lhes madeira, ramos descorados até se tornarem brancos, provenientes de árvores que tinham murchado e morrido há cem anos. Drey acendeu uma fogueira, assobiando enquanto fazia saltar faíscas da pederneira.
Depois da madeira ter pegado fogo, sentaram-se em volta das chamas e passaram um odre de vinho do verão de mão em mão... todos menos Estrela Negra, que preferiu beber limonada amarga. Garin estava bem disposto e entreteve-os com as últimas histórias de Vila Tabueira, na foz do Sangueverde onde os órfãos do rio vinham comercializar com as carracas, cocas e galés provenientes do outro lado do mar estreito. Se fosse possível crer nos marinheiros, o leste fervilhava de maravilhas e terrores: uma revolta de escravo em Astapor, dragões em Qarth, praga cinzenta em Yi Ti. Um novo rei corsário ascendera nas Ilhas Basilisco e atacara a Vila das Árvores Altas, e em Qohor seguidores dos sacerdotes vermelhos tinham-se feito um motim e tentado incendiar a Cabra Negra.
— E a Companhia Dourada quebrou o contato com Myr, precisamente no momento em que os myranos se preparavam para declarar guerra a Lys.
— Os lisenos compraram-nos — sugeriu Sylva.
— Lisenos espertos — disse Drey. — Lisenos esperto e covardes.
Arianne sabia que não era assim. Se Quentyn tiver a Companhia Dourada atrás de si... O seu grito era “Sob o ouro, o aço amargo”. Vai precisar de aço amargo e de mais do que isso, irmão, se pensa em me por de lado. Arianne era amada em Dorne, Quentyn pouco conhecido. Nenhuma companhia de mercenários podia mudar isso.
Sor Gerold se ergueu.
— Acho que vou mijar.
— Olhe por onde pisa — avisou Drey. — Já faz algum tempo que o Príncipe Oberyn colheu o veneno das víboras desta zona.
— Eu fui criado com veneno, Dalt. Qualquer víbora que me picar vai ser arrepender. Sor Gerold desapareceu através de uma arcada quebrada.
Depois de ele ir embora, os outros trocaram olhares.
— Perdoai-me, princesa — disse Garin em voz baixa — mas não gosto daquele homem.
— É uma pena — disse Drey. — Acho que ele está meio apaixonado por você.
— Precisamos dele — recordou-lhes Arianne. — Pode ser que venhamos a ter necessidade de sua espada, e certamente que precisaremos do seu castelo.
— O Alto Ermitério não é o único castelo de Dorne — observou Sylva Malhada — e vocês tem outros cavaleiros que lhes querem bem. Drey é um cavaleiro.