Выбрать главу

Garin puxou as rédeas do cavalo por baixo do Salgueiro.

Acordem, seus dorminhocos de olhos de peixe — gritou ao saltar da sela. — A sua rainha está aqui, e quer as suas régias boas-vindas. Subam, saiam, queremos canções e vinho doce. A minha boca está pronta a...

A porta do barco de varejo abriu-se com estrondo. À luz do sol surgiu Areo Hotah, com um longo machado na mão.

Garin parou com um sobressalto. Arianne sentiu-se como se um machado tivesse sido enterrado em sua barriga. Não era para terminar assim. Isto não podia acontecer. Quando ouviu Drey dizer:

— Aí está a última cara que eu esperava ver — soube que tinha de agir.

— Para trás! - gritou, saltando de novo para a sela. — Arys, proteja a princesa...

Hotah bateu com o cabo do machado no convés. De trás das ornamentadas amuradas do barco de varejo, ergueu-se uma dúzia de guardas, armados com lanças de arremesso ou bestas. Mais surgiram no topo da cabina.

— Renda-se, minha princesa — gritou o capitão — caso contrário teremos de matar todos menos a criança e você, por ordens do seu pai.

A Princesa Myrcella estava sentada, imóvel, na montaria. Garin afastou-se lentamente do barco de varejo, com as mãos no ar. Drey desafivelou o cinto da espada.

— Render-se parece o mais sensato — gritou para Arianne, no momento em que a espada caía no chão com um ruído surdo.

— Não! — Sor Arys Oakheart colocou o cavalo entre Arianne e as bestas, com a espada a brilhar, prateada, na mão. Desprendera o escudo e enfiara o braço esquerdo nas correias. — Não a capturarão enquanto eu ainda respirar.

Seu estouvado idiota, foi tudo o que Arianne teve tempo de pensar, o que pensa que está fazendo?

A gargalhada do Estrela Negra ressoou.

— É cego ou estúpido, Oakheart? Eles são muitos. Largue a espada.

— Faça o que ele diz, Sor Arys — insistiu Drey.

Fomos capturados, sor, podia ter gritado Arianne. A sua morte não nos libertará. Se ama a sua princesa, renda-se. Mas quando tentou falar, as palavras ficaram-lhe presas na garganta.

Sor Arys Oakheart deu-lhe um último olhar cheio de perguntas, e depois espetou as esporas no cavalo, e atacou.

Avançou impetuosamente contra o barco de varejo, com o manto branco a esvoaçar atrás de si. Arianne Martell nunca vira nada com metade da galanteria ou com metade da estupidez daquele homem.

— Não! — Guinchou, mas encontrara a voz tarde demais. Numa corneta soou um trum, e logo noutra. Hotah berrou uma ordem. A tão curta distância, a armadura do cavaleiro branco bem podia ter sido feita de pergaminho. O primeiro dardo penetrou através do pesado escudo de carvalho, atingindo ao ombro. O segundo raspou-lhe na têmpora. Uma lança de arremesso atingiu a montaria de Sor Arys no flanco, mas mesmo assim o cavalo continuou a avançar, vacilando ao atingir a prancha de embarque. — Não — estava a gritar uma garota qualquer, uma qualquer garotinha tola — não, por favor, não era para isto acontecer. — Também conseguia ouvir Myrcella a guinchar, com a voz estridente de medo.

A espada de Sor Arys golpeou para a direita e para a esquerda, e dois lanceiros caíram. O cavalo empinou-se e deu um coice em um besteiro na cara no momento em que o homem tentava recarregar, mas as outras bestas estavam a disparar, enchendo o grande corcel com os seus dardos. Os projéteis atingiam-no com tanta força que empurravam o cavalo para o lado.

Perdeu o apoio das patas, e caiu sobre o convés. De algum modo, Arys Oakheart saltou, livre. Até conseguiu continuar com a espada na mão. Pôs-se de joelhos com dificuldade, ao lado do seu cavalo moribundo...

... e deu com Areo Hotah em pé em cima de si.

O cavaleiro branco ergueu a lâmina, com demasiada lentidão. O machado de Hotah cortou-lhe o braço direito no ombro, afastou-se a girar, jorrando sangue, e voltou a cair; num relâmpago, num terrível golpe a duas mãos que cortou a cabeça de Arys Oakheart e a atirou pelo ar, a rodopiar. A cabeça aterrou entre os juncos, e o Sangueverde engoliu o vermelho com um suave chapinhar.

Arianne não teve consciência de subir para o cavalo. Talvez tenha caído. Também não teve consciência disso. Mas deu por si com as mãos e pés na areia, a tremer, a soluçar e a vomitar o almoço. Não, era tudo o que conseguia pensar, não, ninguém devia sair machucado, estava tudo planejado, eu fui tão cautelosa. Ouviu Areo Hotah rugir:

— Atrás dele. Não pode escapar. Atrás dele! — Myrcella estava no chão, a chorar, a tremer, com o rosto pálido nas mãos, e sangue a escorrer por entre os dedos. Arianne não compreendia. Homens subiam precipitadamente para cavalos enquanto outros caíam sobre ela e os seus companheiros, mas nada daquilo fazia sentido. Caíra num sonho, um terrível pesadelo rubro. Isto não pode ser real. Acordarei em breve, e rirei dos terrores da noite.

Quando tentaram atar-lhe as mãos atrás das costas, não resistiu. Um dos guardas colocou-a em pé com um puxão. Usava as cores do pai dela.

Outro dobrou-se e tirou a faca de arremesso que ela trazia dentro da bota, um presente da prima, a Senhora Nym.

Areo Hotah recebeu-a das mãos do homem e olhou-a de cenho franzido.

— O príncipe disse que devo levar você de volta para Lançassolar

— anunciou. Tinha as bochechas e a testa salpicadas com o sangue de Arys Oakheart. — Lamento, pequena princesa.

Arianne ergueu uma face riscada por lágrimas.

— Como pôde ele saber? — Perguntou ao capitão. — Eu fui tão cautelosa. Como pôde ele saber?

— Alguém falou. — Hotah encolheu os ombros. — Há sempre alguém que fala.

ARYA

Cada noite antes de dormir, ela murmurava sua oração dentro de seu travesseiro.

 — Sor Gregor — e ia — Dunsen, Raff, o Querido, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei. — Ela teria sussurrado o nome dos Freys da encruzilhada também, se ela os soubesse. Um dia eu vou saber, ela disse a si mesma. E então eu matarei todos eles. Nenhum sussurro era muito fraco para ser ouvido na Casa do Preto e Branco.

— Criança — disse o homem bondoso um dia. — Que nomes são aqueles que você sussurra a noite?

— Eu não sussurro nome algum — ela disse.

— Você mente — ele disse. — Todos os homens mentem quando estão com medo. Alguns contam muitas mentiras, outros contam algumas.

Alguns têm apenas uma mentira, mas a contam tão frequentemente que quase chegam a acreditar... Embora uma pequena parte dele sempre irá saber que aquilo ainda é uma mentira e que ira mostrar sobre seus rostos. Fale-me sobre esses nomes.

Ela mordeu o lábio.

— Os nomes não tem importância.

— Eles têm — o homem bondoso insistiu. — Conte-me criança.

Conte-me ou irei mandá-la embora, foi o que ela ouviu.

— Eles são pessoas que eu odeio. Eu quero que eles morram.

— Nós ouvimos muito dessas orações nessa Casa.

— Eu sei — disse Arya. Jaqen H’ghar tinha garantido três dessas orações uma vez, tudo o que eu tive que fazer foi sussurrar...

— É por isso que você teve que vir até nós? — O homem bondoso continuou. — Pra aprender nossas artes, e então matar esses homens que você odeia?