Arya não sabia como responder a isso.
— Talvez.
— Então você veio ao lugar errado. Não cabe a você dizer quem deve viver e quem deve morrer. Este dom pertence ao deus de Muitas Faces.
Somos nada além de seus servos, jurados a sua vontade.
— Oh — Arya olhou para as estatuas ao longo das paredes, velas redondas brilhavam em seus pés — Qual deus é ele?
— Todos eles — disse o sacerdote em preto e branco.
Ele nunca disse a ela seu nome. Nem a esposa, a pequena garota com grandes olhos e um rosto oco que a lembrava de outra pequena garota, chamada Weasel. Como Arya, a esposa vivia debaixo do templo, juntamente com três acólitos, dois servos e um cozinheiro chamado Umma. Umma gostava de conversar enquanto trabalhava, mas Arya não conseguia entender uma palavra do que ela dizia. Os outros não tinham nome, ou escolheram não compartilhá-los. Um dos serventes era muito velho, suas costas eram dobradas como um arco. O segundo tinha um rosto vermelho, e cabelos cresciam de suas orelhas. Ela pensava que os dois eram mudos até que os ouviu orando. Os acólitos eram mais jovens. O mais velho era da idade do seu pai; Os outros dois não podiam ser muito mais velhos que Sansa, que tinha sido sua irmã. Os acólitos usavam preto e branco também, mas suas vestes não tinham capuz e eram negras do lado esquerdo e brancas do lado direito. Com o homem bondoso e a esposa, era o oposto. A Arya foi dada trajes de servo: uma túnica de lã não tingida, calças largas, pequenas roupas e chinelos de pano para seus pés.
Apenas o homem bondoso conhecia a Língua Comum.
— Quem é você? — ele a perguntava todo dia.
— Ninguém — ela respondia. Ela que tinha sido Arya da Casa Stark. Arya pés-leves, Arya cara de cavalo. Ela tinha sido Arry e Weasel também, e Gorducho e Salgada, Nan, o copeiro, um rato cinza, a ovelha, o fantasma de Harrenhal... Mas não de verdade. Não no fundo do seu coração.
Lá ela era Arya de Winterfell, a filha de Lorde Eddard Stark e a Senhora Catelyn, que uma vez teve irmãos chamados Robb, Bran e Rickon, e uma irmã chamada Sansa, um lobo gigante chamado Nymeria, um meio irmão chamado Jon Snow. Lá ela era alguém... Mas essa não era a resposta que ele queria.
Sem a língua comum, Arya não tinha como falar com os outros. Ela os ouvia, porém, e repetia as palavras para si mesma como se fosse seu trabalho. Embora o acólito mais jovem fosse cego, ele tinha o encargo das velas. Ele caminhava pelo templo de chinelos macios, rodeado pelas murmurações das velhas que vinham todos os dias para orar. Mesmo sem olhos, ele sempre sabia quais velas tinham se apagado.
— Ele tem o cheiro para guiá-lo — explicou o homem bondoso — e o ar é mais quente onde uma vela queima.
— Ele disse a Arya para fechar os olhos e experimentar por si mesma. Eles oraram até o amanhecer antes de quebrar o jejum, de joelhos ao redor da piscina ainda preta. Alguns dias o homem bondoso conduzia a oração, outros dias era a esposa. Arya conhecia apenas algumas palavras dos Braavosi. Aquelas que eram as mesmas no Alto Valiriano. Então ela orou sua própria oração para o deus de Muitas Faces, aquela que ia, Sor Gregor, Dunsen, Raff, o Querido, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei. Ela orava em silencio. Se o deus de Muitas Faces fosse mesmo um deus, ele a ouviria.
Adoradores vinham para a Casa do Preto e Branco todos os dias. A maioria vinha sozinha e sentava sozinha; ascendiam suas velas em um altar ou em outro, oravam ao lado da piscina, e algumas vezes choravam. Alguns bebiam do copo preto e adormeciam; a maioria não bebia. Não havia serviços, nenhum som, nem coros de louvores para agradar os deuses. O templo nunca estava cheio. De tempo em tempo, um adorador pedia para ver um sacerdote, e o homem bondoso ou a esposa o levava para baixo no sacrário, mas isso não acontecia frequentemente.
Treze diferentes deuses permaneciam ao longo das paredes, rodeados por suas pequenas luzes. A Mulher que Chora era a favorita de velhas mulheres, Arya percebeu; homens ricos preferiam o Leão da Noite, homens pobres o Viajante Encapuzado, Soldados acendiam velas para Bakkalon, a Criança Pálida, vendedores para a Donzela da Lua Pálida e o Rei Merling. O Estranho tinha seu santuário também, embora raramente alguém viesse ter com ele. . Na maioria das vezes apenas uma pequena vela permanecia flamejando em seus pés. O homem bondoso dizia que não importava.
— Ele tem muitas faces, e muitos ouvidos para ouvir.
A colina sobre qual o templo estava parecia uma colmeia, com passagens escavas nas rochas. Os sacerdotes e acólitos tinham seus quartos no primeiro nível, Arya e os servos no segundo. O nível mais baixo era proibido para todos, salvo o sacerdote. Lá era onde o santuário sagrado estava.
Quando não estava trabalhando, Arya estava livre para vagar como ela quisesse entre as abobadas e armazéns, no entanto, desde que não deixasse o templo, nem descesse ao porão do terceiro andar. Ela encontrou um quarto cheio de armas e armaduras: elmos ornamentados, e curiosas couraças velhas, espadas longas, punhais, bestas e lanças altas, com as folhas em formatos de cabeças. Outro cofre estava cheio de roupas, peles grossas e 379
sedas esplendidas em quase uma centena de cores, ao lado de pilhas de trapos de mal cheiro, e mantos ásperos e puídos. Deve haver câmaras de tesouros também, Arya pensou. Ela imaginou pilhas de placas de ouro, bolsas de moedas de pratas, safiras azuis como o mar, colares de pérolas verdes.
Um dia o homem bondoso foi até ela inesperadamente e perguntou o que ela estava fazendo. Ela disse a ele que tinha se perdido.
— Você mente. Pior, você mente miseravelmente. Quem é você?
— Ninguém.
— Outra mentira — ele suspirou.
Weese teria batido nela pra caramba se tivesse pegado ela em uma mentira, mas era diferente na Casa do Preto e do Branco. Quando ela estava ajudando na cozinha, Umma, algumas vezes batia nela com sua colher se ela ficasse no caminho, mas ninguém mais nunca ergueu uma mão para ela . Eles somente levantam suas mãos para matar, ela pensou.
Ela se dava bem o suficiente com a cozinheira. Se Umma colocava uma faca e uma cebola na mão dela, Arya iria cortá-la. Umma empurrava-a em direção a um monte de massa e Arya iria amassa-la até a cozinheira dizer pare (pare foi a primeira palavra Braavosi que ela aprendeu). Umma lhe entregava um peixe, e Arya o desossava e o foliava. As águas salobras que rodeavam Bravos fervilhavam com peixes e mariscos de toda espécie, o homem bondoso explicou. Um lento rio marrom entrava na lagoa pelo sul, vagando por uma vasta extensão de canas, piscinas de marés e poços de lama. Ameijoas e berbigões abundavam por ali; mexilhões, ranas, tartarugas, caranguejos de lama, caranguejos leopardos e caranguejos escaladores, enguias vermelhas, enguias pretas, enguias listradas, lampreias e ostras; todas tinham frequente aparições na mesa de madeira entalhada onde os servos do deus de Muitas Faces tomavam suas refeições. Algumas noites Umma temperava o peixe com sal marinho e pimenta rachada, ou cozia as enguias com alho picado. Muito de vez em quando, o cozinheiro até usava um açafrão. Torta quente cairia bem aqui, Arya pensava.
A ceia era sua hora favorita. Já tinha se passado um longo tempo desde que Arya tinha ido dormir toda noite com a barriga cheia. Algumas noites o homem bondoso permitia que ela lhe fizesse perguntas. Uma vez ela perguntou a ele porque as pessoas que vinham ao templo pareciam tão pacíficas; em sua casa, as pessoas tinham medo de morrer. Ela se lembrou de como aquele escudeiro chorou quando ela o esfaqueou na barriga, e a forma como Sor Amory Lorch tinha implorado quando Goat o tinha jogado em uma cova de urso. Lembrou-se da aldeia no Olho de Deus e a maneira como 380
os moradores gritaram e gemeram toda vez que Tickler começava a perguntar atrás do ouro.
— Morte não é a pior coisa — o homem bondoso replicou. — É o presente dele para nós, um fim para a ganância e para a dor. No dia que nós nascemos o deus de Muitas Faces envia para cada um de nós um anjo negro para caminhar através da vida do nosso lado. Quando nossos pecados e nossos sofrimentos crescem em demasia para serem suportados, o anjo nos toma pela mão para nos levar as terras da noite, onde as estrelas sempre queimam brilhantes. Aqueles que vem beber do copo negro estão procurando por seus anjos. Se eles estão com medo, as velas os acalmam. Quando você sente o cheiro das velas queimando, o que elas fazem você pensar, minha criança?