Winterfell, ela talvez tivesse dito. Eu sinto cheiro da neve, fumaça e pinheiros. Eu sinto o cheiro dos estábulos. Eu sinto o riso de Hodor, e Jon e Robb batalhando no quintal, e Sansa cantando sobre algum estúpido conto de senhora. Eu sinto o cheiro das criptas onde os reis de pedras estão, eu sinto o cheiro de pão assado, eu sinto o cheiro das arvores-coração. Eu sinto o cheiro de minha loba, de seu pelo, quase como se ela ainda estivesse do meu lado.
— Eu sinto o cheiro de nada — ela disse, para ver o que ele iria dizer.
— Você mente — ele disse — mas você pode manter seus segredos se você deseja, Arya da Casa Stark. — Ele apenas a chamava assim quando ela o desapontava. — Você sabe que talvez deixe esse lugar. Você não é um de nós, não ainda. Você poderá ir para casa a hora que quiser.
— Você me disse que se eu partir, eu não poderia voltar.
— Exatamente.
Aquelas palavra a entristeceram. Syrio costumava dizer isso também, Arya lembrava. Ele dizia isso todo o tempo. Syrio Forel lhe tinha ensinado esgrima e morrera por ela. — Eu não quero partir.
— Então fique… Mas lembre-se, a Casa do Preto e Branco não é um lar para órfãos. Todo homem deve servir debaixo desses telhados. Valar dohaeris é como nós dizemos aqui. Permaneça se quiser, mas saiba que nós iremos requerer sua obediência. Em todo o tempo e em todas as coisas. Se você não pode obedecer, você deve partir.
— Eu posso obedecer.
— Nós veremos.
Ela tinha outras tarefas além de ajudar Umma. Ela varria o chão do templo, servia durante as refeições, separava as pilhas de roupas dos homens mortos, esvaziava seus bolsos e contava pilhas de moedas. Todas as manhãs ela caminhava ao lado do homem bondoso enquanto ele fazia sua patrulha no templo para encontrar os homens mortos. Silenciosa como uma sombra, ela disse a si mesma, se lembrando de Syrio. Ela carregava lanternas com persianas de ferro espesso. Em cada nicho, ela abria o disparador com um crack, para procurar cadáveres. Os mortos nunca eram difíceis de encontrar.
Eles vinham para a Casa do Branco e Preto, oravam por uma hora, um dia ou um ano, bebiam da doce e negra água da piscina, e se esticavam em uma cama de pedra atrás de um deus ou outro. Eles fechavam seus olhos, e dormiam, e nunca mais acordavam.
— O presente do Deus Muitas Faces assume formas variadas — o homem bondoso disse a ela — mas aqui é sempre gentil. — Quando eles encontravam um corpo, ele fazia uma oração e checava se realmente estava morto, então Arya buscava os homens servos, cuja tarefa era levar os mortos até o cofre. Lá acólitos iriam despir e lavar os corpos. Roupas, moedas e objetos de valores dos homens mortos iam para uma caixa para a seleção.
Suas frias carnes eram levadas para o sacrário, onde apenas o sacerdote podia ir. O que acontecia ali não era permitido a Arya saber. Uma vez, enquanto ela comia sua ceia, uma terrível suspeita a tomou, então ela largou sua faca e encarou desconfiada a fatia pálida de carne branca em seu prato. O Homem bondoso viu o horror em seu rosto.
— É um porco, criança — ele disse a ela. — Somente um porco.
Sua cama era de pedra, e a fazia se lembrar de Harrenhal e a cama que ela dormia quando esfregava os degraus para Weese. O colchão era recheado com trapos ao invés de palha, o que a tornava menos volumosa do que em Harrenhal, mas menos arranhada também. A ela foi permitido tantos cobertores quando ela desejasse: Cobertores de lã grossos, verdes, vermelhos e xadrez. E sua cela era somente dela. Ela mantinha seus tesouros lá: O garfo de prata, o chapéu e luvas sem dedos dado a ela pelos marinheiros da Filha do Titã, sua adaga, botas e cintos, sua pequena economia de moedas e as roupas que vinha usando...
E Agulha.
Apesar de seus deveres deixarem pouco tempo para sua costura, ela praticava quando podia, duelando com sua sombra sob a luz de uma vela azul. Uma noite aconteceu de uma órfã passar e ver Arya em sua brincadeira com a espada. A garota não disse uma palavra, mas no outro dia, o homem bondoso acompanhou Arya de volta para sua cela.
— Você precisa de livrar de tudo isso. — Ele disse sobre os seus tesouros.
Arya sentiu como se fosse atingida.
— Eles são meus.
— Quem é você?
— Ninguém.
— Ele pegou o garfo de prata.
— Isso pertence à Arya da Casa Stark. Todas essas coisas pertencem a ela. Aqui não há lugar para isso. Aqui não há lugar para ela. O nome dela carrega muito orgulho, e aqui nós não temos lugar para o orgulho. Nós somos servos aqui.
— Eu sirvo — ela disse, ferida. Ela gostava do garfo de prata.
— Você brinca de ser uma serva, mas em seu coração você é a filha de um lorde. Você tem usado outros nomes, mas você os usa como usa um vestido. Debaixo deles você é sempre Arya.
— Eu não uso vestidos. Você não pode lutar em um estúpido vestido.
— Porque você desejaria lutar? Você é algum bravo, caminhando por becos, procurando por sangue? — Ele suspirou. — Antes de você beber do copo frio, você deve oferecer você toda para o Deus de Muitas Faces. Seu corpo. Sua alma. Você mesma. Se você não pode trazer você para fazer isso, você deve deixar este lugar.
— A moeda de ferro...
—… tem pagado sua passagem aqui. A partir deste momento você deve pagar do seu jeito, e o custo é alto.
— Eu não tenho nenhum ouro.
— O que nós oferecemos não pode ser pago com ouro. O custo é você toda. Homens pegam muitos caminhos através deste vale de lágrimas e dor. O nosso é o mais difícil. Poucos são feitos para caminhar nele. É preciso ter força incomum de espírito, e um coração duro e forte.
Eu tenho um buraco onde meu coração deveria estar, ela pensou, e nenhum lugar mais para ir.
— Eu sou forte. Tão forte quanto você. E eu sou dura.
— Você acredita que este é o único lugar para você. — Era como se ele tivesse lido seus pensamentos — você está errada nisso. Você encontraria mais delicado serviço na casa de algum mercador. Ou você logo seria uma cortesã, e teria músicas sobre sua beleza? Diga a palavra, e nós a enviaremos para o Pérola Negra ou a Filha do Crepúsculo. Você ira dormir em pétalas de rosas e usar saias de seda que irão farfalhar enquanto você anda, e grandes lordes vão mendigar por seu sangue de donzela. Ou se é casamento e crianças que você deseja, diga-me, e então encontraremos um marido para você. Algum aprendiz honesto, um velho rico, um marinheiro, o que quer que deseje.
Ela não queria nada disso. Sem palavras, ela sacudiu sua cabeça.
— É com Westeros que você sonha, criança? A Senhora Luminosa de Luco Prestayn parte amanha, para Vila Gaivota, Valdocaso, Porto Real, e Tyrosh. Devemos encontrar uma passagem nela pra você?
— Eu acabei de chegar de Westeros. — Às vezes parecia que se tinha passado mil anos desde que ela fugira de Porto Real, e às vezes parecia como se fosse ontem, mas ela sabia que não podia voltar. — Eu irei se você não me quiser, mas eu não quero ir pra lá.