— Meus desejos não importam — disse o homem bondoso. — Pode ser que o Deus de Muitas Faces a conduziu aqui para ser seu instrumento, mas quando eu olho para você eu vejo uma criança... E pior, uma criança garota. Muitos têm servido ao Deus de Muitas Faces por séculos, mas apenas alguns de seus servos tem sido mulheres. Mulheres trazem vida para o mundo. Nós trazemos o presente da morte. Ninguém pode fazer os dois.
Ele esta tentando me assustar pra fora, Arya pensou, do mesmo modo que ele faz com algum verme.
— Eu não me importo com isso.
— Você deveria. Fique, e o Deus de Muitas Faces irá pegar suas orelhas, seu nariz, sua língua. Ele ira pegar seus tristes olhos cinzentos que já viram muito. Ele ira pegar suas mãos, seus pés, seus braços e pernas, suas partes privadas. Ele ira tomar suas esperanças e sonhos, seus amores e seus ódios. Aqueles que entram para seu serviço devem desistir de tudo que os fazem quem eles são. Você pode fazer isso?
Ele a segurou pelo queixo e olhou profundamente em seus olhos, tão profundo que a fez estremecer.
— Não — ele disse. — Eu acho que você não pode
Arya empurrou suas mãos.
— Eu poderia se eu quisesse.
— Assim diz Arya da Casa Stark, comedora de grandes vermes.
— Eu posso desistir de qualquer coisa que eu quiser.
Ele gesticulou para seus tesouros.
— Então comece com esses.
Aquela noite depois da sopa, Arya voltou para sua cela, retirou seu robe e sussurrou seus nomes, mas o sono recusou pegá-la. La se jogou no colchão recheado com trapos e mordeu seu lábio. Ela podia sentir o buraco dentro dela onde um coração havia estado.
Na escuridão da noite ela se levantou outra vez, vestiu as roupas que ela usara em Westeros, e seu cinturão. Agulha estava pendurada em um quadril, sua adaga em outro. Com seu chapéu em sua cabeça, e suas luvas sem dedos dobrado em seu cinto, e seu garfo de prata em uma mão, ela furtivamente subiu os degraus. Aqui não há lugar para Arya da Casa Stark, ela estava pensando. O lugar de Arya era Winterfel, só que Wenterfell tinha se acabado. Quando a neve cai e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a alcateia sobrevive. Ela não tinha alcateia, no entanto. Eles haviam matado sua matilha, Sor Ilyn, Sor Meryn e a rainha, e quando ela tentou fazer uma nova, todos eles fugiram, Torta Quente, Gendry, Yoren e Lommy Mãos-verdes, até mesmo Harwin, que tinha sido homem de seu pai.
Ela passou através das portas, para fora, dentro da noite.
Era a primeira vez que ela estava do lado de fora desde que entrara no templo. O céu estava nublado e a neblina cobria o chão como um manto cinza desgastado. A sua direita, ela ouvia o remar do canal. Bravos, a Cidade Secreta, ela pensou. O nome parecia muito apto. Ela rastejou descendo os degraus íngremes para o cais coberto, as brumas rodopiantes rodando em seus pés. Estava tão nebuloso que ela não podia nem ver a água, mas ela ouvia o gotejar suave nas estacas de pedras. Ao longe, uma luz brilhava na penumbra: O fogo noturno no templo dos sacerdotes vermelhos, ela pensou.
A beira da água, ela parou, o garfo de prata na mão. Era prata real.
Totalmente sólido em sua mão. Não é meu garfo. É das Salinas. Ela deixou que ele caísse de sua mão, ouviu o plop suave enquanto ele se afundava na água.
Seu chapéu foi o próximo, e então as luvas. Eles pertenciam a Salinas também. Ela esvaziou a bolsa em sua palma. Cinco moedas de prata e nove de cobre, além de alguns cereais. Ela os espalhou através da água.
Depois suas botas. Elas fizeram o barulho mais alto. Sua adaga a seguiu, aquela que ela conseguira do arqueiro que implorara a Cão de Caça por 385
misericórdia. Seu cinturão mergulhou no canal. Seu manto, túnica, calças, roupas pequenas, tudo isso. Todos, exceto Agulha.
Ela permaneceu no final da doca, pálida e tremendo no nevoeiro. Em sua mão, Agulha parecia sussurrar para ela. Fure-os com a extremidade pontiaguda, e não conte a Sansa! A marca de Mikken estava na lamina. É somente uma espada. Se ela precisasse de uma espada havia centenas debaixo do templo. Agulha era pequena demais para ser uma espada apropriada, ela era pouco mais que um brinquedo. Ela tinha sido uma estúpida garotinha quando Jon tinha feito para ela.
— É apenas uma espada. — ela disse, em voz alta desta vez.
...mas não era.
Agulha era Robb, Bran e Rickon, sua mãe e seu pai, até mesmo Sansa. Agulha era os muros cinzentos de Winterfell, e o riso de suas pessoas.
Agulha era a neve de verão, as histórias da Velha Ama, a árvore coração com suas folhas vermelhas e rosto assustador, o cheiro quente da terra dos jardins de vidro, o som do vento do norte chacoalhando as janelas do seu quarto. Agulha era o sorriso de Jon Snow. Ele costumava bagunçar meu cabelo e me chamar de irmãzinha, ela se lembrou, e repentinamente havia lágrimas em seus olhos.
Polliver havia roubado a espada dela quando a Montanha havia a prendido, mas quando ela e o cão entraram em uma estalagem em uma encruzilhada, lá estava ela. Os deuses querem que eu a tenha. Não os sete, nem o Deus de Muitas Faces, mas os deuses de seus pais, os velhos deuses do norte. O Deus de Muitas Faces pode ter o resto, ela pensou, mas ele não pode ter isto.
Ela caminhou para os degraus tão nua quanto no dia do seu nome, segurando Agulha. No meio do caminho, uma das pedras se moveu sob seus pés. Arya ajoelhou-se e cavou ao redor de suas bordas com os dedos. Não quis se mover de inicio, mas Arya persistiu, pegando na argamassa em ruína com as unhas. Finalmente a pedra deslocou. Ela usou as duas mãos e a puxou, uma fenda se abriu a sua frente.
— Você ficara salva aqui — ela disse a Agulha. — Ninguém saberá onde você está exceto eu.
Ela empurrou espada e bainha para debaixo do degrau, então empurrou a pedra de volta ao lugar, de modo que parecesse com todas as outras pedras. Enquanto ela subia de volta para o templo, ela contou os degraus, então ela saberia onde encontrar a espada outra vez. Um dia talvez precisasse dela.
— Um dia. — Ela sussurrou para si mesma.
Ela nunca contou ao homem bondoso que ela tinha feito, mas mesmo assim ele sabia. Na próxima noite ele veio até a cela dela, depois da ceia.
— Criança — ele disse — venha e se sente comigo. Eu tenho um conto para contar a você.
— Que tipo de conto? — Ela perguntou cautelosa.
— O conto de seus princípios. Se você for um de nós, você faria bem em saber quem nós somos e como chegamos a ser. Os homens podem talvez sussurrar sobre os Homens Sem Rosto de Bravos, mas nós somos mais velhos que a Cidade Secreta. Antes que se fizesse o Titã , antes do desmascaramento de Uthero, antes da Fundação, nós já existíamos. Nós florescemos em Bravos entre essas névoas nortenhas, mas começamos a aparecer em Valiria, entre os escravos miseráveis que trabalhavam nas minas profundas sob as Quatorze Chamas que iluminava as antigas noites da Cidade Franca. A maioria das minas são locais úmidos e frios, pedaços de pedras frias e mortas, mas as Quatorze Chamas vivia nas montanhas com veias de rocha fundida e corações de fogo. Então, as minhas da velha Valiria permaneciam sempre quentes, e elas cresceram cada vez mais quentes enquanto os eixos se cavavam, mais profundos, cada vez mais. Os escravos trabalhavam em um forno. As rochas em volta deles eram muito quentes para tocar. O ar fedia a enxofre e enchia seus pulmões enquanto respiravam.
As solas de seus pés queimavam mesmo através das mais grossas sandálias.