Às vezes, quando eles quebravam uma parede a procura de ouro, eles encontravam vapor ao invés de disso, ou água em ebulição, ou rocha fundida. Certos eixos foram cortados tão baixos que os escravos não podiam ficar de pé, mas tinham que dobrar e se rastejar. E havia vermes naquela escuridão vermelha também.
— Minhocas? — ela perguntou, franzido a testa.
— Foginhocas. Alguns dizem que são semelhantes a dragões, por cuspirem fogo também. Mas ao invés de voar pelo céu, eles perfuram pedras e o solo. Se os velhos contos podem ser acreditados, elas estavam entre as Quatorze Chamas antes mesmo de os dragões chegarem. Os mais novos não eram mais largos do que estes seus magros braços, mas eles podiam crescer até monstruosos tamanhos e não tem nenhum amor por homens.
— Eles mataram os escravos?
— Cadáveres queimados e enegrecidos eram encontrados frequentemente em poços onde as rochas foram rachadas ou cheias de buraco. Ainda assim as minas foram mais para o fundo. Escravos pereceram pelas rochas, mas seus mestres não se importavam. Ouro vermelho, ouro amarelo e prata eram reconhecidos por serem mais preciosos do que as vidas dos escravos, pois os escravos eram baratos na velha Cidade Franca. Durante a guerra, os valirianos os pegaram aos milhares. Em tempos de paz eles os criavam, acho que só os piores eram enviados para morrer na escuridão vermelha.
— Os escravos não se levantaram e lutaram?
— Alguns fizeram — ele disse. — Revoltas eram comuns nas minas, mas poucos conseguiram muito. Os senhores dragões da velha Cidade Franca eram fortes em feitiçaria, e os homens menores os desafiavam correndo enorme risco. O primeiro Homem sem Rosto foi um dos que o fez.
— Quem era ele? — Arya desabafou, antes de parar para pensar.
— Ninguém — ele respondeu — Alguns dizem que ele era um escravo. Outros insistem que ele era filho de um homem da Cidade Franca, nascido de ações nobres. Alguns vão mesmo dizer que ele era um bispo que teve pena de suas acusações. A verdade é: ninguém sabe. Quem quer que ele fosse moveu-se entre os escravos e deu ouvido a suas orações. Homens de centenas de diferentes nações trabalhavam na mina, e cada oração era para seus próprios deuses em suas próprias línguas, porém todos eles oravam pela mesma coisa. Era liberdade que eles pediam, e para que a dor acabasse.
Uma pequena coisa, e simples. Mesmo assim seus deuses não responderam, e seus sofrimentos continuaram. Seus deuses estariam todos mortos? Ele se perguntou… Até que algo aconteceu com ele, uma noite, na escuridão vermelha. Todos os deuses têm seus instrumentos, homens e mulheres que os servem e os ajudam para trabalhar em sua vontade na terra. Os escravos não estavam chorando para milhares de deuses diferentes, parecia, mas para um Deus com milhares de diferentes faces... E ele era o instrumento do deus. Naquela mesma noite ele escolheu o mais miserável dos escravos, aquele que havia orado fervorosamente para a liberação, e libertou-o de seu cativeiro. O primeiro presente havia sido dado.
Arya recuou.
— Ele matou o escravo? — Aquilo não soava certo — Ele devia ter matado os mestres!
— Ele trouxe o presente para eles da mesma forma… mas este é um conto para outro dia, um que é melhor não compartilhar com ninguém. —
Ele abaixou a cabeça. — E quem é você, criança?
— Ninguém.
— Mentira.
— Como você sabe? É uma mágica?
— Um homem não precisa ser mago pra reconhecer a verdade da falsidade, não se ele tem olhos. Você só precisa aprender a ler um rosto.
Olhos nos olhos. A boca. Os músculos aqui, no canto da mandíbula, e aqui, onde o pescoço se junta aos ombros. — Ele a tocou levemente com os dois dedos. — Alguns mentirosos piscam. Alguns encaram, outros desviam o olhar, outros lambem os lábios. Muitos cobrem suas bocas assim que contam uma mentira, como se quisesse esconder suas decepções. Outros sinais podem ser mais sutis, mas eles estão sempre lá. Um sorriso falso e um verdadeiro podem parecer iguais, mas eles são tão diferentes quando o crepúsculo e o amanhecer. Você pode diferenciar o crepúsculo e o amanhecer?
Arya assentiu, embora não estivesse certa se poderia.
— Então você pode aprender a ver uma mentira… E uma vez que você aprender, nenhum segredo será salvo de você.
— Me ensine. — Ela seria ninguém se fosse isso o que precisasse.
Ninguém não tinha buracos dentro dela.
— Ela vai ensinar você. — Disse o homem bondoso quando a órfã apareceu do lado de fora de sua porta. — Começando com a língua de Bravos. Que uso você tem se não pode falar ou entender? E você deve ensiná-la sua própria língua. Vocês duas devem aprender juntas, uma com a outra. Você fará isso?
— Sim. — Disse, e a partir daquele momento ela era uma noviça na Casa do Preto e Branco. Seus trapos de servos foram levados embora, e a ela foi dado roupas para usar, um robe preto e branco, tão suave quanto o velho cobertor vermelho que ela uma vez teve em Winterfell. Por baixo ela usava roupas de linho branco fino, além de uma pequena túnica preta que batia pouco abaixo de seus joelhos.
Posteriormente, ela e a órfã passavam o tempo todo tocando e apontando coisas, enquanto uma tentava ensinar à outra algumas palavras em sua própria língua. Simples palavras a princípio, copo, velas e sapatos; então palavras difíceis, e então frases. Tempos atrás Syrio Forel costumava fazer Arya permanecer em uma perna. Outra vez a enviava para perseguir gatos.
Ela teve que dançar a dança da água entre as árvores, com uma espada de pau na mão. Todas essas coisas tinham sido difíceis, mas isto era ainda mais difícil.
Até mesmo costura é mais divertido do que aprender línguas, ela pensou, depois de uma noite em que tinha esquecido metade das palavras que ela pensou que sabia, e pronunciou a outra metade tão mal que a órfã tinha rido dela. Minhas frases são tão tortas como meus pontos costumavam ser. Se a menina não fosse tão pequena e carente, Arya teria estapeado seu rosto estúpido. Ao invés disso ela mordia o lábio. Muito estúpida para aprender e muito estúpida para desistir.
A órfã aprendeu a língua comum mais rápido. Um dia ela se virou para Arya durante a ceia e perguntou:
— Quem é você?
— Ninguém — Arya respondeu em bravosiano.
— Você mente — disse a órfã. — Você deve mentir mais bom.
Arya riu.
— Mais bom? Você quer dizer melhor, estúpida.
— Melhor estúpida. Eu vou mostrar a você.
No próximo dia eles começaram o jogo de mentiras, fazendo perguntas uma para a outra, usando turnos. Algumas vezes elas responderiam a verdade, às vezes deveriam mentir. O questionador deveria tentar dizer o que era real e o que era falso. A órfã parecia saber sempre.
Arya tinha que adivinhar. Na maioria das vezes ela adivinhava errado.
— Quantos anos você tem? — A órfã a perguntou uma vez, na língua comum.
— Dez — disse Arya, e cruzou os dedos. Ela pensava que ainda tinha dez, embora fosse difícil saber com certeza. Os bravosiano contavam os dias diferente de como eles faziam em Westeros. Tudo o que ela sabia era que o dia de seu nome havia chegado e passado.
A órfã assentiu. Arya assentiu de volta, e em seu melhor bravosiano disse:
— Quantos anos você tem?
A órfã lhe mostrou dez dedos. Então dez outra vez, e ainda outra vez. Então seis. Sua expressão permaneceu como água parada. Ela não pode ter trinta e seis anos, Arya pensou. Ela é uma garotinha.
— Você está mentindo. — Ela disse. A órfã balançou a cabeça e mostrou mais uma vez: dez, dez, dez e seis. Ela disse as palavras para trinta e seis, e fez Arya dizer também.
No próximo dia, ela disse ao Homem Bondoso o que a órfã tinha dito.
— Ela não mentiu — o sacerdote disse, rindo. — Aquela que você chama de órfã é uma mulher crescida que passou sua vida servindo ao Deus de Muitas Faces. Ela deu a ele tudo o que ela era, tudo o que ela talvez viesse a ser, toda a vida que continha nela.