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Nymeria — ela disse de uma vez.

Aquela noite ela deixou a Casa do Preto e do Branco. Uma longa faca de ferro estava em seu quadril direito, escondido por sua capa, uma coisa remendada e desbotada que um órfão poderia vestir. Seus sapatos apertavam os seus dedos dos pés, e sua túnica estava tão surrada que o vento podia entrar através dela. Mas Bravos estava adiante dela. O ar da noite cheirava a fumo, sal e peixe. Os canais eram tortos, e as vielas ainda mais tortas. Homens lhe lançavam curiosos olhares quando ela passava, e crianças mendigas falavam palavras que ela não conseguia entender. Por muito tempo ela esteve completamente perdida.

— Sor Gregor — ela cantou, enquanto cruzava a ponte de pedra suportada por quarto colunas. Do seu centro ela podia ver as velas dos navios no Porto de Ragman — Dunsen, Raff, o Querido, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei. — A Chuva começou a cair. Arya ergueu seu rosto para cima para deixar as gotas de chuva lavar suas bochechas, tão feliz que poderia dançar.

— Valar morghulis — ela disse. — Valar morghulis, valar morghulis.

ALAYNYE

Quando a luz do sol nascente começou a entrar pelas janelas, Alayne saiu da cama e se espreguiçou. Gretchel a ouviu se mover, e imediatamente levantou-se para lhe levar o robe. O ambiente havia esfriado muito durante a noite.

E será muito pior quando o inverno chegar, pensou. Este lugar ficará frio como uma tumba. Alayne vestiu o robe e o atou contra a sua cintura.

— O fogo se apagou quase todo. — Observou. — Ponha mais lenha, por favor.

— Como queira, minha senhora. — Respondeu a anciã.

Os aposentos de Alayne na Torre da Donzela eram maiores e mais luxuosas que o pequeno dormitório que lhe haviam designado quando ainda vivia com a Senhora Lysa. Tinha um armário e um banheiro somente para ela, e um balcão forjado em pedra branca, de onde podia se divisar toda a extensão do Vale. Enquanto Gretchel atiçava o fogo, Alayne percorreu o ambiente descalça e saiu ao exterior. Sentiu a pedra fria debaixo dos seus pés, e o vento soprava feroz, como sempre ali em cima, mas a vista fez com que tudo fosse esquecido por um instante. A Donzela era a torre mais oriental de todas as sete do Ninho da Águia, de modo que o Vale se estendia à sua frente, com os bosques, os rios e seus braços envoltos na névoa da luz da manhã. Ao iluminar as montanhas, o sol fazia com que parecessem de ouro maciço.

É tão bonito... O cume nevado da Lança do Gigante se alçava ante ela, uma imensidão de pedra e gelo que diminuía o castelo pousado em seu ombro. Estalactites de seis metros de altura pendiam coladas da borda do precipício de onde, no verão, caíam as Lágrimas de Alyssa. Um falcão sobrevoou a cascata gelada, com as asas azuis estendidas contra o céu da manhã. Quem dera se eu tivesse asas também.

Apoiou as mãos na balaustrada de pedra e se obrigou a olhar para baixo. Cerca de duzentos metros abaixo se alçava o Céu, com as bases de pedra escavadas na montanha, a trilha serpenteante que passava por Neve e Pedra até chegar ao fundo do Vale. Divisou as torres e edifícios da Porta da Lua, pequenos como brinquedos de crianças. Ao redor das muralhas, os exércitos dos Senhores Rebeldes começavam a ganhar vida, e os homens saiam de suas tendas como formigas de um formigueiro.

Quem dera fossem formigas de verdade, pensou. Poderia pisá-las e esmagá-las.

Lord Hunter, o Jovem, e seus homens haviam se unido aos demais fazia dois dias. Nestor Royce havia cerrado os portões para detê-los, mas sua guarnição contava com menos de trezentos homens. Cada um dos Senhores Rebeldes havia chegado com pelo menos mil, e eram seis. Alayne conhecia seus nomes tão bem como o seu próprio. Benedar Belmore, senhor de Forte Canção. Symond Templeton, o Cavaleiro das Nove Estrelas. Horton Redfort, senhor de Forte Vermelho. Anya Waynwood, senhora de Carvalho de Ferro.

Gilwood Hunter, ao que muitos chamavam Lorde Hunter, o Jovem, senhor de Arco Longo. E Yohn Royce, o mais poderoso de todos, o temível Yohn Bronze, senhor de Pedra das Runas, primo de Nestor e cabeça do ramo mais importante da Casa Royce. Os seis haviam se reunido em Pedra das Runas após a queda de Lysa Arryn, e haviam feito o juramento de defender Lorde Robert, o Vale e uns aos outros. Em sua declaração não se mencionava o Lorde Protetor, mas falava-se de um mal governo ao qual se havia de pôr fim, assim como de falsos amigos e conselheiros astutos.

Uma lufada de vento frio lhe percorreu as pernas. Entrou no dormitório para escolher um vestido para o desjejum. Petyr lhe havia dado o guarda-roupa de sua esposa defunta, um tesouro de sedas, cetins, peles e veludos mais ricos do que jamais havia sonhado, ainda que quase todas as roupas acabassem ficando muito grandes para ela. A Senhora Lysa havia engordado muito em sua longa sucessão de gestações, abortos e partos de bebês mortos. Por sorte, alguns dos vestidos mais antigos haviam sido confeccionados para a jovem Lysa Tully de Correrrio, e Gretchel havia conseguido ajustar outros para que servissem a Alayne, que aos seus treze anos tinhas as pernas quase tão largas quanto às teve sua tia aos vinte.

Naquela manhã, o que captou sua atenção foi um vestido costurado em vermelho e azul dos Tully, com acabamento de arminho. Gretchel a ajudou a meter os braços nas mangas em forma de sino e atou os cordões das costas, e logo penteou o cabelo e o amarrou. Alayne havia voltado a escurecê-lo na noite anterior, antes de dormir. O banho de cor que sua tia havia lhe dado trocara o cabelo ruivo de Alayne pelo castanho claro, mas em pouco tempo, o vermelho voltava a aparecer nas suas raízes.

O que vou fazer quando a tinta acabar? A tinta que usava vinha de Tyrosh, do outro lado do mar Estreito.

Quando desceu para o desjejum, Alayne voltou a surpreender-se com a calmaria do Ninho da Águia. Não havia castelo mais silencioso nos Sete Reinos. Os criados eram poucos e velhos, e falavam em voz baixa, para não perturbar o seu pequeno senhor. Na montanha não havia cavalos, nem cachorros que latiam e grunhiam, nem cavaleiros treinando no pátio. Até as pisadas dos guardas soavam estranhas, amortecidas, quando percorriam os salões de pedra branca. Ouvia-se o som do vento que gemia em torno das torres, mas nada mais. Quando chegou ao Ninho da Águia se ouvia também o barulho das Lágrimas de Alyssa, mas a cascata se havia congelado.

Gretchel lhe disse que permaneceria em silencio até a primavera.

Lorde Robert estava sozinho no Salão Matinal, por cima das cozinhas, passando com indiferença uma colher de madeira por uma tigela de sopa de aveia com mel.

— Queria ovos. — Se queixou quando a viu. — Queria três ovos fritos e um pedaço de bacon.

Não tinham ovos, assim como não tinham bacon. Os celeiros do Ninho da Águia continham aveia, milho e cevada suficientes para alimentá-

los durante um ano, mas era uma garota bastarda, uma tal Mya Stone, quem subia os alimentos frescos do Vale. Depois que os Senhores Rebeldes acamparam ao pé da montanha, Mya já não podia passar. Lord Belmore, que havia sido o primeiro dos seis a se apresentar nas Portas, enviou um corvo a Mindinho para lhe comunicar que o Ninho da Águia não receberia mais comida até que lhes enviassem Lorde Robert. Não era uma chantagem, mas se parecia muito com isso.

— Quando Mya vier, poderá comer tantos ovos quanto quiser. — Prometeu Alayne ao pequeno senhor. — Trará ovos, manteiga, melões e outras coisas muito gostosas.

Não conseguiu acalma-lo.

— Eu queria ovos hoje.

— Não há ovos, pequeno Robert, você já sabe disso. Por favor, coma a aveia, está muito gostosa. — Tomou uma colherada de sua tigela para dar exemplo.

Robert voltou a passear a colher pela tigela, mas não a levou aos lábios.