— Não tenho fome — disse finalmente. — Quero voltar para a cama. Não dormi nada esta noite. Dava para ouvir as músicas. O Meistre Colemon me deu vinho do sono, mas continuei ouvindo.
Alayne deixou a colher.
— Se houvesse alguém cantando, eu também haveria ouvido. Foi um pesadelo, nada mais.
— Não, não foi um pesadelo. — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Marillion estava cantando outra vez. Seu pai disse que está morto, mas é mentira.
— É verdade. — Lhe dava medo ouvi-lo falar assim. Já tem problemas o bastante por ser pequeno e doente, e se estiver ficando louco?
— É verdade, pequeno Robert. Marillion amava demais a sua mãe e não podia viver com o que lhe havia feito, assim caminhou até o céu. — Alayne não havia visto o cadáver, como tampouco o havia visto Robert, mas não duvidava que o cantor estivesse morto. — Ele se foi, com certeza.
— Mas se eu o ouço todas as noites... Ainda que eu feche os olhos e enfie a cabeça embaixo da almofada. Seu pai deveria lhe ter cortado a língua.
Eu lhe disse, mas ele não quis.
Ele precisava da língua de Marillion para que ele pudesse confessar.
— Seja bom e coma a aveia. — Lhe suplicou Alayne. — Anda, por favor. Faça por mim.
— Não quero aveia. — Robert atirou a colher ao outro lado do aposento. Foi parar em uma cortina de uma parede, e deixou uma mancha em uma renda de seda branca. — O senhor quer ovos!
— O senhor comerá a aveia e agradecerá. — A voz de Petyr soou atrás deles.
Alayne se virou e o viu na porta de entrada, ao lado de meistre Colemon.
— Deveria obedecer ao Lord Protetor, meu senhor — disse o meistre. — Os senhores seus vassalos estão subindo para prestar-lhe homenagem, e tem que estar forte.
Robert esfregou o olho esquerdo com a mão.
— Expulse-os. Não quero vê-los. Se vierem, os farei voar.
— É tentador para mim também, meu senhor, mas temo que lhes prometi um salvo-conduto — disse Petyr. — Em todo caso, é muito tarde para que deem a volta. Já devem estar na altura da Pedra.
— Por que não nos deixam em paz? — Soluçou Alayne. — Não fizemos nada a eles. Que eles querem de nós?
— Lorde Robert, nada mais. E com ele, o Vale, claro. — Petyr sorriu. — Serão oito. Lorde Nestor os guia, e Lyn Corbray os acompanha.
Sor Lyn não é dos que ficam para trás quando há a perspectiva de sangue.
Não eram precisamente as palavras que podiam acalmar os seus temores. Lyn Corbray havia matado quase tantos homens em duelos como em batalha. Sabia que havia ganhado as esporas durante a Rebelião de Robert, lutando contra Lorde Jon Arryn nas portas de Vila Gaivota, e mais tarde, sob o seu estandarte no Tridente, onde matou o príncipe Lewyn de Dorne, um cavaleiro branco da Guarda Real. Petyr dizia que o príncipe Lewyn já estava gravemente ferido quando o desfecho da batalha o levou à dança final com a Dama Desesperada.
— Mas não é um tema que interesse discutir na frente de Corbray — izia. — Aqueles que se atrevem, logo têm a chance perguntar ao próprio Martell nas salas do inferno.
Se devia acreditar na metade do que tinha ouvido comentarem os guardas de Lorde Robert, Lyn Corbray era mais perigoso que os outros seis Senhores Rebeldes juntos.
— Porque vem? — Perguntou. — Pensei que os Corbray estavam do seu lado.
— Lorde Lyonel Corbray tem boa disposição comigo — disse Petyr.
— Mas o seu irmão segue outro caminho. No Tridente, quando seu pai caiu ferido, foi Lyn quem pegou a Dama Desesperada e matou o homem que o havia derrubado. Enquanto Lyonel levava o velho à retaguarda, com os meistres, Lyn encabeçou o ataque contra os dorneses que ameaçavam o flanco esquerdo de Robert, fez em pedaços suas linhas de defesa e matou Lewyn Martell. Assim que Lorde Corbray morreu, entregou a Dama ao seu filho menor. Lyonel ficou com as terras, o título, o castelo e todo o seu dinheiro, mas ainda assim tem a impressão de que lhe roubaram o que lhe corresponde por direito, enquanto que Sor Lyn... Bom, digamos que dedica a Lyonel tanto carinho como a mim. Ele também aspirava à mão de Lysa.
— Não gosto de Sor Lyn — insistiu Robert. — Não o quero aqui.
Que permaneça embaixo. Não lhe mandei que subisse. Que não entre. Minha mãe dizia que o Ninho da Águia é inexpugnável.
— Sua mãe está morta, meu senhor. Até o décimo sexto dia do seu nome, o Ninho da Águia será governado por mim. — Petyr se voltou para a criada encurvada que aguardava perto das escadas que conduziam à cozinha.
— Mela, traga outra colher para o seu senhor. Ele quer comer a aveia.
— Não quero! Que voe a sopa de aveia!
Naquele momento, Robert lançou a tigela de aveia com mel. Petyr Baelish se virou para o lado com facilidade, mas Meistre Colemon não foi tão rápido. A tigela de madeira o acertou em cheio no peito, e o conteúdo se esparramou na sua cara e nos ombros. Gritou de maneira muito pouco apropriada para um meistre enquanto Alayne tentava acalmar o pequeno senhor, mas era tarde demais. Estava tendo um ataque. Uma jarra de leite saiu voando quando a derrubou com um espasmo. Tratou de se levantar, mas a cadeira caiu para trás, e com ela, o menino. Um de seus pés acertou Alayne no ventre com tanta força que lhe cortou a respiração.
— Oh, pelos deuses — ouviu dizer Petyr, com nojo.
Os restos de aveia salpicavam o rosto e o cabelo do Meistre Colemon quando se ajoelhou junto ao seu protegido para lhe sussurrar palavras tranquilizadoras. Um caroço deslizou pela bochecha direita, como uma lágrima marrom-acinzentada. Não é tão grave quanto o ataque anterior, pensou Alayne, tratando de recuperar a esperança. Quando deixou de tremer, dois guardas com capas azul-celeste e cotas de malha prateada acudiram à chamada de Petyr.
— Levem-no para a cama e o sangrem — disse o Lorde Protetor, e o guarda mais alto pegou o menino nos braços.
Até eu poderia levá-lo, pensou Alayne. Pesa menos que uma boneca.
Colemon se deteve um instante antes de segui-lo.
— Talvez fosse melhor deixar esta reunião para um outro dia, meu senhor. Os ataques dele tem piorado desde a morte da Senhora Lysa. São cada vez mais frequentes e violentos. O sangro tanto quanto me atrevo, e misturo vinho do sono com o leite da papoula para ajudá-lo a dormir, mas...
— Dorme doze horas por dia — replicou Petyr. — Necessito dele desperto de tempos em tempos.
O meistre passou a mão pelos cabelos, jogando no chão vários caroços de aveia.
— Quando ele se sobressaltava em excesso, a Senhora Lysa lhe dava o peito. O Arquimeistre Ebrose assegura que o leite materno tem muitas propriedades saudáveis.
— É isso o que me aconselha, meistre? Que lhe busquemos uma ama de leite para o senhor do Ninho da Águia e Defensor do Vale? Quando vamos desmamá-lo? No dia do seu casamento? Assim poderá passar diretamente do mamilo de sua ama para o de sua esposa. — A gargalhada de Lorde Petyr deixou bem clara a sua opinião. — Não, muito obrigado. Sugiro que busquemos outro sistema. O garoto gosta de doces, não?
— Doces?
— Doces. Tortas, pastéis, marmeladas, gelatina, pedaços de pão com mel... Já tentou pôr um pouquinho de sonho doce no leite? Só um pouquinho, o suficiente para acalmá-lo e acabar com esses tremores infernais.
— Um pouquinho? — O meistre tragou saliva, e o seu pomo se moveu para cima e para baixo na garganta. — Uma pequena pitada... É possível, é possível. Não muito, e nem sempre, mas eu poderia tentar...
— Uma pitada — repetiu Lorde Petyr. — Antes que o leve para receber os senhores.
— Como ordenar, meu senhor.
O meistre saiu apressadamente, com o colar tilintando a cada passo.
— Pai — disse Alayne quando ficaram a sós. — Quer uma tigela de aveia para o desjejum?