Lorde Redfort e a Senhora Waynwood, os mais idosos dos Senhores Rebeldes, optaram pela cesta, que logo teve que descer mais uma vez para recolher o obeso Lorde Belmore. Os demais preferiram escalar. Alayne os recebeu na Câmara da Lua Crescente, junto a um fogo acolhedor, de onde lhes deu as boas-vindas em nome de Lorde Robert, e lhes serviu pão, queijo e vinho apimentado em copos de prata.
Petyr lhe havia dado um pergaminho em que apareciam seus escudos para que os estudasse, assim reconheceria os brasões, ainda que não os rostos. Olhou o castelo vermelho, que seria obviamente de Redfort, um homem baixo de barba acinzentada bem aparada e com olhos amáveis. A Senhora Anya, a única mulher entre os Senhores Rebeldes, vestia um manto verde com a roda de vime dos Waynwood em contas de jade. Os seis sinos de prata sobre um campo roxo correspondiam a Belmore, de barriga proeminente e ombros redondos. Sua barba era uma aberração cor de gengibre que lhe ocultava a papada. Pelo contrário, Symond Templeton era moreno e anguloso. O nariz em forma de gancho e os gélidos olhos azuis faziam com que o Cavaleiro das Nove Estrelas parecesse uma elegante espécie de ave de rapina. Seu gibão mostrava nove estrelas negras sobre uma lâmina dourada. A capa de arminho de Lord Hunter, o Jovem, a confundiu a princípio, até que mirou o broche que a prendia: cinco flechas de prata abertas ao vento. Alayne calculou que ele estava mais perto dos cinquenta que dos quarenta anos de idade. Seu pai havia governado em Arco Longo durante quase sessenta anos, para morrer de maneira tão repentina que houve rumores que o novo senhor havia acelerado o processo. Hunter tinha as bochechas e o nariz vermelhos como maçãs, o que denunciava sua possível fixação pelas uvas. Teve cuidado em encher seu copo cada vez que ele o esvaziava.
O mais jovem do grupo levava três corvos no peito, cada um com um coração vermelho entre as garras. O cabelo castanho lhe chegava até os ombros, e uma mecha solta lhe caía pelo rosto.
Sor Lyn Corbray, pensou Alayne, observando com apreensão a boca dura e os olhos inquietos.
Os últimos a chegar foram os Royce, Lorde Nestor e Yohn Bronze.
O senhor de Pedra das Runas era tão alto como o Cão de Caça. Tinha o cabelo grisalho e o rosto cheio de rugas, mas Lorde Yohn aparentava ser capaz de quebrar, com aquelas enormes mãos nodosas, homens mais jovens como se fossem galhos secos. Seu rosto marcado e solene lhe fez recordar sua visita a Winterfell. Veio à lembrança aquele homem sentado à mesa, falando com sua mãe. Voltou a ouvir sua voz retumbante quando voltara da caça com um corvo encarrapitado na sela do cavalo. O viu no pátio com a espada de treinamento na mão, derrubando seu pai e voltando-se para derrotar também Sor Rodrik.
Ele me reconhecerá. É impossível que ele não me reconheça. Por um momento, pensou em se jogar aos seus pés e lhe suplicar proteção. Se não lutou por Robb, porque iria lutar por mim? A guerra já terminou, e Winterfell caiu.
— Lord Royce. — Lhe perguntou com timidez. — Deseja um copo de vinho para aplacar o frio?
Yohn Bronze tinha olhos cinza-ardósia meio ocultos pelas sobrancelhas mais espessas que já tinha visto. Os entrecerrou quando a analisou desde acima.
— Te conheço, menina?
Alayne sentiu como se tivesse engolido a língua, mas Lorde Nestor veio em seu auxílio.
— Alayne é filha natural do Lorde Protetor — disse a seu primo com rispidez.
— Mindinho tem estado muito ocupado — disse Lyn Corbray com um sorriso perverso.
Belmore começou a rir, e Alayne notou que estava ficando vermelha.
— Quantos anos tem, menina? — perguntou a Senhora Waynwood.
— C-Catorze, minha senhora. — Durante um momento havia esquecido a idade de Alayne. — E não sou uma menina, sou uma donzela florescida.
— Mas não desflorada, espero. — O espesso bigode de Lord Hunter, lhe escondia a boca quase por completo.
— Por enquanto — disse Lyn Corbray como se ela não estivesse ali.
— Em pouco tempo já será uma fruta madura.
— Isso é o que vocês entendem de cortesia em Hogar? — Anya Waynwood tinha o cabelo branco, pés de galinha em torno dos olhos e a pele solta debaixo do queixo, mas o seu ar de nobreza era inconfundível. — A menina é jovem, tem recebido uma boa educação e já padeceu horrores suficientes. Cuidado com o que diz, sor.
— O que eu digo é assunto meu — replicou Corbray. — Sua senhora deveria ocupar-se dos seus. Nunca gostei de reprimendas, como lhe poderia dizer um bom número de homens mortos.
A Senhora Waynwood lhe deu as costas.
— Será melhor que nos leve até o seu pai, Alayne. Quanto antes acabarmos com isto, melhor.
— O Lorde Protetor os espera nos seus aposentos. Se meus senhores tiverem a amabilidade de me seguir...
Saíram da Câmara da Lua Crescente, subiram por um corredor de degraus de mármore que ficava ao redor de criptas e masmorras e passaram por baixo de três balestreiros que os Senhores Rebeldes fingiram não ver.
Belmore não demorou para suspirar como uma gaita de foles, e Redfort estava com o rosto tão branco como o cabelo. Os guardas postados nas portas acompanhavam seus passos.
— Por aqui, meus senhores.
Alayne os guiou quando passaram por baixo da galeria, junto a uma dúzia de esplêndidos tapetes. Sor Lothor Brune estava em frente à porta.
Abriu-a para que eles passassem e entrou em seguida.
Petyr estava sentado junto à mesa de cavaletes, com um copo de vinho em uma mão, examinando um pergaminho branco. Ergueu os olhos quando os Senhores Rebeldes entraram.
— Sejam bem-vindos, meus senhores. E a vós também, minha senhora. Já sei que a subida é muito cansativa. Por favor, sentem-se. Alayne, minha querida, traga mais vinho para os nossos nobres convidados.
— Agora mesmo, meu pai.
Ficou satisfeita ao ver que haviam acendido as velas, o aposento despendia um aroma de noz-moscada e outras especiarias caras. Foi buscar a garrafa enquanto os convidados se sentavam lado a lado... Todos, exceto Nestor Royce, que titubeou um instante antes de rodear a mesa e ocupar a cadeira vazia, junto a Lorde Petyr, e Lyn Corbray, que preferiu ficar em pé junto à lareira. O rubi em forma de coração do punho de sua espada despendia um brilho vermelho enquanto esquentava as mãos. Alayne o viu sorrir a Sor Lothor Brune.
Sor Lyn é muito atraente para a sua idade, pensou. Mas não gosto do seu sorriso.
— Eu estava lendo esta declaração notável — começou Petyr. — Esplêndida. Não sei qual meistre a redigiu, mas esse homem tem um verdadeiro dom para as palavras. Eu teria gostado que me convidassem a assiná-la também.
Aquilo os pegou desprevenidos.
— Você? — Disse Belmore. — Assinaria?
— Sei manejar a pluma igual a qualquer um, e ninguém gosta de Lorde Robert mais do que eu. E quanto a esses falsos amigos e conselheiros astutos, deve-se acabar com eles imediatamente. Estou com vocês de corpo e alma, meus senhores. Por favor, me diga onde devo assinar.
Alayne, que estava servindo o vinho, ouviu o risinho de Lord Corbray. Os outros pareciam inseguros, até que Yohn Bronze fechou as mãos.
— Não viemos pela sua assinatura. Tampouco pensamos em estabelecer um concurso de retórica com você, Mindinho.
— Que pena. Adoro esses concursos. — Petyr deixou o pergaminho de lado. — Como quiserem. Sejamos diretos. Meus senhores, minha senhora, que querem de mim?
— De você não queremos nada. — Symond Templeton fixou seu olhar azul gélido no Lord Protetor. — Somente que vá embora.
— Que eu vá embora? — Petyr pareceu surpreso. — Para onde?