— Nunca havia ouvido Petyr tão furioso. — Já li sua declaração e já ouvi suas exigências. Ouçam agora as minhas: retirem seus exércitos dessa montanha, marchem para as suas terras e deixem em paz o meu filho. Aqui tem havido um mau governo, não duvido, mas foi obra de Lysa, não minha.
Deem-me um ano, e com a ajuda de Lorde Nestor, os prometo que nenhum de vocês terá motivo de queixa.
— Isto é você quem diz — replicou Belmore. — Porque teremos que confiar?
— Como ousa desconfiar de mim? Não fui eu quem desembainhou aço no meio de uma trégua. Falam de defender Lorde Robert e ao mesmo tempo lhe negam comida. Isto tem que acabar. Não sou guerreiro, mas se não levantarem o sítio, lutarei com vocês. Não são os únicos senhores do Vale, e Porto Real também me enviará homens. Se é guerra o que vocês querem, digam, e o Vale sangrará.
Alayne viu que a dúvida começava a florescer nos olhos dos Senhores Rebeldes.
— Um ano não é tanto tempo — comentou Lorde Redfort, inseguro.
— Talvez... se nos assegurar...
— Nenhum de nós quer a guerra — disse a Senhora Waynwood. — O outono chega ao seu fim; teremos que nos preparar para o inverno.
Belmore interrompeu.
— Ao final deste ano...
— Se não puser ordem no Vale, me demitirei voluntariamente do cargo de Lorde Protetor – lhes prometeu Petyr.
— Me parece mais que justo — disse Lorde Nestor Royce.
—Não deve haver represálias — insistiu Templeton. — Não se falará de traição nem de rebelião. Isso também deve jurar.
— Encantado — respondeu Petyr. — O que quero são amigos, não inimigos. Outorgo perdão a todos, por escrito se quiserem. Inclusive a Lyn Corbray. Seu irmão é um bom homem, não há necessidade de que uma Casa tão nobre caia na vergonha.
A Senhora Waynwood se voltou para os Senhores Rebeldes.
— Podemos negociar, meus senhores?
— Não é necessário. É evidente que ele já ganhou. — Yohn Bronze cravou os olhos cinzentos em Petyr Baelish. — Não gosto disso, mas parece que vai ter o ano que quis. Use-o bem, meu senhor. Que não tenha nos enganado.
Abriu a porta com tanta força que esteve a ponto de arrancá-la das dobradiças.
Mais tarde, houve uma espécie de banquete, ainda que Petyr tivesse que pedir desculpas pela humildade da comida. Levaram-lhes a Robert vestido com um gibão azul e creme, que representou com bastante elegância o seu papel de senhor. Yohn Bronze não o presenciou: já havia partido do Ninho da Águia para começar a longa descida, com o fez Sor Lyn Corbray antes dele. Os outros senhores ficaram até a manhã seguinte.
Ele os seduziu, pensou Alayne aquela noite, na cama, enquanto ouvia o rugido do vento pela janela. Não havia sabido dizer como surgiu a suspeita, mas quando passou pela sua cabeça, não houve maneira de conciliar o sono. Mexeu-se e rolou na cama durante um longo tempo. Por último, se levantou e se vestiu, deixando Gretchel dormindo.
Petyr seguia acordado, escrevendo uma carta.
— Alayne? Olá querida, que faz aqui tão tarde?
— Preciso saber? O que acontecerá dentro de um ano?
— Redfort e Waynwood são velhos. — Petyr deixou a pluma sobre a mesa. — Pode ser que morra um deles, ou os dois. Os irmãos de Gilwood Hunter o assassinarão. Provavelmente se encarregará o jovem Harlan, o mesmo que tratou da morte de Lorde Eon. E já que comecei, vamos até o final. Belmore é corrupto, posso comprá-lo. Templeton e eu nos tornaremos amigos. Temo que Yohn Bronze continue sendo hostil, mas enquanto seja somente ele não representará nenhuma ameaça.
— E Sor Lyn Corbray?
A luz da vela dançava nos olhos de Petyr.
— Sor Lyn continuará sendo meu inimigo implacável. Falará de mim com desprezo e ódio a todo aquele que queira escutá-lo prestará sua espada a cada plano secreto para acabar comigo.
Foi então quando as suspeitas se converteram em certezas.
— E como lhe pagará os seus serviços?
Mindinho começou a rir.
— Com ouro, meninos e promessas, claro. Sor Lyn é um homem de gostos simples, querida. As únicas coisas que quer são ouro, meninos e alguém a quem matar.
CERSEI
O rei estava amuado.
— Quero sentar no Trono de Ferro — disse ele. — Você sempre deixava Joff sentar lá.
— Joffrey tinha doze anos.
— Mas eu sou rei. O trono pertence a mim.
— Quem lhe disse isso? — Cersei respirou profundamente para que Dorcas pudesse amarrar mais firmemente. Ela era uma garota grande, muito mais forte que Senelle, apesar de mais atrapalhada também.
O rosto de Tommen ficou vermelho.
— Ninguém.
— Ninguém? É assim que chama a Senhora sua esposa? — A rainha podia sentir o cheiro de Margaery Tyrell naquela rebelião. — Se mentir para mim não terei escolha a não ser chamar Pate e espancá-lo até que sangre. —
Pate era o bode expiatório de Tommen, assim como havia sido o de Joffrey.
— É o que quer?
— Não — o rei murmurou emburrado.
— Quem lhe disse isso?
Ele embaralhou os próprios pés.
— A Senhora Margaery. — Ele não era bobo de chamá-la de rainha na frente da mãe.
— Assim esta melhor. Tommen, eu tenho assuntos sérios para decidir, assuntos que você é jovem demais para entender. Eu não preciso de um garotinho bobo se remexendo no trono atrás de mim e me distraindo com questões infantis. Eu suponho que Margaery ache que você deveria estar nas minhas reuniões do conselho também?
— Sim— ele admitiu. — Ela sempre diz que tenho que aprender a ser um rei.
— Quando for mais velho, poderá ir a quantos Conselhos quiser — Cersei disse a ele. — Eu lhe garanto logo você ficará enjoado deles. Robert costumava cochilar durante as sessões. — Quando ele ao menos se incomodava de comparecer. — Ele preferia caçadas e águias e deixava o tédio para o velho Lorde Arryn, lembra se dele?
— Ele morreu de dores de barriga.
— Sim morreu o pobre homem. Como está tão ávido, talvez devesse aprender os nomes de todos os reis de Westeros e das Mãos que os serviram.
Pode recitá-los para mim no dia seguinte.
— Sim, mãe. — Ele disse docilmente.
— Este é o meu bom garoto. — O poder era dela, ela não pretendia desistir dele até Tommen atingir a idade certa. Eu esperei então ele também pode esperar. Eu esperei metade de minha vida. Ela havia sido a filha obediente, a noiva ruborizada, a esposa flexível. Ela havia sofrido com as apalpadelas de bêbado de Robert, o ciúme de Jaime, a zombaria de Renly, Varys e suas risadinhas, Stannis rangendo seus dentes interminavelmente.
Ela havia disputado com Jon Arryn, Ned Stark, e o odioso, traiçoeiro e homicida irmão anão dela, todo esse tempo se prometendo que um dia seria a vez dela. Se Margaery Tyrell pensa em roubar minha hora ao sol, é melhor ela pensar muito bem antes.
De qualquer modo, este era um jeito ruim de quebrar o seu jejum, e o dia de Cersei não melhorou tão cedo. Ficou o resto de sua manhã com Lorde Gyles e seus livros de contabilidade, ouvindo-o tossir sobre estrelas, cervos e dragões. Posteriormente, chegou Lorde Waters, para contar que os três primeiros dromons estavam quase sendo finalizados e implorou por mais ouro para terminá-los com o esplendor que mereciam. A rainha estava satisfeita em lhe conceder seu pedido. Rapaz Lua pulava quando ela teve sua refeição do meio dia com os mercadores das guildas e ouviu suas reclamações sobre pássaros vagando pelas ruas e dormindo nas praças.
Talvez eu precise usar as capas de ouro para tirar esses pássaros da cidade, ela estava pensando, quando Pycelle intrometeu-se.
O Grande Meistre estava especialmente impertinente ultimamente nos conselhos. Na ultima sessão ele havia se queixado amargamente do homem que Aurane Waters tinha escolhido para comandar os seus novos dromons. Waters planejava dar os navios para homens jovens, enquanto Pycelle argumentou pela experiência, insistindo que o comando deveria ir para aqueles capitães que haviam sobrevivido ao incêndio de Água Negra.