Quando Cersei entrou em seu solar, encontrou Lorde Qyburn lendo em um assento na janela.
— Se agradar a Sua Graça, tenho relatórios.
— Mais conspirações e traições? — Cersei perguntou. — Eu tive um dia longo e cansativo. Diga-me rapidamente.
Ele sorriu simpaticamente.
— Como quiser. Há rumores de que o Arconte de Tyrosh ofereceu um acordo a Lys, para entrar em sua atual guerra comercial. Dizem que Myr esteve a ponto de entrar na guerra, do lado de Tyrosh, mas sem a Companhia Dourada os homens de Myr não acreditaram que...
— O que os homens de Myr acreditam não me interessa. As Cidades Livres estavam sempre lutando entre si. Suas traições e alianças sem fim significavam pouco ou nada para Westeros. Tem alguma noticia de maior importância?
— A revolta de escravos em Astapor se espalhou para Meereen, ao que parece. Marinheiros de uma dúzia de navios falam de dragões...
— Harpias. Tem harpias em Meereen. — Ela lembrava-se disso de algum lugar. Meereen era no fim do mundo, mais a leste que Valiria. —Deixe os escravos se revoltarem. Não mantemos escravos em Westeros. É tudo que tem para mim?
— Há algumas notícias de Dorne que Vossa Graça pode achar interessante. Príncipe Doran prendeu Sor Daemon Sand, um bastardo que uma vez foi escudeiro da Víbora Vermelha.
— Lembro-me dele. Sor Daemon estava entre os Cavaleiros de Dorne que haviam acompanhado Príncipe Oberyn a Porto Real. O que ele fez?
— Ele exigiu que a filha de Príncipe Oberyn fosse libertada.
— Muito tolo ele.
— Também — Lorde Qyburn disse. — A filha do Cavaleiro de Bosquepinto ficou noiva inesperadamente de Lorde Estermont, nosso amigo em Dorne nos disse. Ela foi enviada a Pedra Verde tarde da noite, e dizem que ela e Estermont já se casaram.
— Um bastardo no ventre explica bem isso. — Cersei brincou com uma mecha de seu cabelo. Quantos anos tem a noiva?
—Vinte e três, Vossa Graça. Enquanto Lorde Estermont...
— Deve estar com setenta. Estou ciente disso. Os Estermont eram seus parentes através de Robert, cujo pai tomou uma delas como esposa, o que deve ter sido um ataque de loucura ou de luxuria.
Na época que Cersei casou-se com o rei, a Senhora mãe de Robert estava a muito morta, embora seus dois irmãos tenham vindo para o casamento e ficado por meio ano. Robert depois havia insistido em retornar a cortesia com uma visita a Estermont, uma ilhazinha montanhosa, fora de Cabo Cólera. A úmida e sombria quinzena que Cersei havia passado em Pedra Verde, a sede de Casa Estermont foi o mais longo de sua jovem vida.
Jaime apelidou o castelo Merda Verde à primeira vista, e logo Cersei começou a chamá-lo assim também. Sabiamente ela passara seus dias assistindo seu marido real falcoar, caçar, e beber com seus tios, e ameaçar sem razão vários primos no pátio de Merda Verde.
Havia uma prima também, uma corpulenta viuvinha, com peitos tão grandes como melões, cujo pai e marido haviam morrido em Ponta Tempestade durante o cerco.
— O pai dela foi bom para mim — Robert contou a ela. — Eu e ela brincávamos juntos quando éramos crianças. — O que não o impediu de voltar a brincar com ela. Tão logo Cersei fechava os olhos o rei se furtava para consolar a pobre criatura solitária. Uma noite ela pediu a Jaime para segui-lo, para confirmar suas suspeitas. Quando seu irmão retornou, ele perguntou a ela se ela queria Robert morto.
— Não — ela respondeu. — Quero que ele seja corno. — Ela gostava de pensar que fora naquela noite que Joffrey fora concebido.
— Eldon Estermont tomou uma esposa cinquenta anos mais jovem.
— Disse a Qyburn. — Por que isso deveria me preocupar?
Ele encolheu os ombros.
— Eu não digo que deveria... Mas Daemon Sand e esta garota Santagar são ambos próximos da filha do Príncipe Doran, Arianne, ou ao menos o homem de Dorne nos faz acreditar. Talvez isso signifique pouco ou nada, mas achei que Vossa Graça deveria saber.
— Agora sei. — Cersei estava perdendo a paciência. — Tem algo mais?
— Algo mais. Um assunto trivial. — Ele deu a ela um sorriso de desculpas e contou a ela de um show de fantoches que recentemente havia se tornado popular entre os cidadãos. Um fantoche, vestido de Rei dos Animais era dominado por orgulhosos leões altivos. — Os leões fantoches ficam mais gananciosos e arrogantes de acordo com que o conto de traição continua, até que eles começam a devorar a si mesmos. Quando o nobre cervo faz uma objeção, os leões o devoram, e rugem que este é seu direito como a mais poderosa das bestas.
— E este é o fim? — Cersei perguntou, divertida. Olhado sobre certa luz, aquilo poderia ser visto como uma lição saudável.
—Não, Vossa Graça. No fim um dragão eclode do ovo e devora todos os leões.
O fim levava o show de fantoches de uma simples insolência, para traição.
— Bobos e estúpidos. Apenas cretinos arriscariam a cabeça por um dragão de madeira. — Ela considerou durante um momento. — Mande algum de seus murmuradores para estes shows e faça nota de quem os frequenta, eu posso querer saber seus nomes.
— O que será feito deles, se posso ser atrevido?
— Qualquer homem de importância deve ser multado. Metade de sua fortuna deve ser suficiente para ensiná-los uma boa lição e preencher nossos cofres sem esvaziar os deles. Aqueles que forem pobres demais devem perder um olho, por assistir traição. Para os marionetistas, o machado.
— Eles são quatro, porventura Vossa Graça poderia deixar-me dois deles para meus próprios propósitos. Uma mulher seria especialmente...
— Eu lhe dei Senelle. A rainha disse rispidamente.
— Pobre de mim. A pobre garota está bastante... exausta.
Cersei não queria nem pensar nisso. A garota havia vindo com ela sem imaginar, achando que estava vindo para servir. Mesmo quando Qyburn colocara as correntes em torno de seus pulsos ela não pareceu entender. A lembrança ainda fazia a rainha ficar enjoada. As celas estavam geladas. As tochas estremeciam, e aquela coisa suja gritando na escuridão...
— Sim, você pode pegar uma mulher. Duas se quiser. Mas primeiro eu terei nomes.
— Como quiser — Qyburn retirou-se.
Lá fora, o sol estava se pondo. Dorcas havia preparado seu banho.
Cersei estava agradavelmente imersa na água morna e pensando no que diria aos hóspedes na ceia, quando Jaime estourou a porta e ordenou que Dorcas e Jocelyn saíssem. Seu irmão parecia um pouco menos que limpo e tinha um pouco de cheiro de cavalo sobre ele. Ele trazia Tommen com ele.
— Doce irmã — ele disse. — O rei requer uma palavra.
As tranças douradas de Cersei flutuavam na água do banho. O quarto estava cheio de vapor. Uma gota de suor escorria pelo seu rosto.
— Tommen? — Ela disse em uma voz perigosamente doce. — O ue foi agora?
O garoto conhecia aquele tom. Ele encolheu.
— O garoto quer o corcel branco amanha — disse Jaime. — Para suas lições de Justa.
Ela sentou-se na banheira.
— Não haverá Justa.
— Sim, haverá. — Tommen inflou seu lábio inferior. — Eu tenho que montar todos os dias.
— E você poderá — declarou a rainha. — Uma vez que tiver um mestre de armas adequado para supervisionar seu treinamento.
— Eu não quero um mestre de armas adequado. Quero Sor Loras.
— Você faz muito daquele garoto. Sua esposinha encheu-lhe a cabeça de noções loucas das proezas dele, eu sei, mas Osmund Kettleblack é três vezes mais cavaleiro que ele.
Jaime riu.
— Não o Osmund Kettleblack que eu conheço.
Ela poderia tê-lo estrangulado. Eu preciso ordenar a Sor Loras que permita a Sor Osmund desmontá-lo. Isso deverá tirar as estrelas dos olhos de Tommen. Sal em uma lesma e vergonha em um herói e eles encolhem.
— Estou procurando um homem de Dorne para te treinar — disse ela. — Os homens de Dorne são os melhores do reino na Justa.