— De onde eles vieram? Perguntou a Sor Meryn, do lado de fora da câmara real.
— A pequena rainha os deu a ele. Ela só queria lhe dar um, mas ele não conseguia decidir de qual deles gostava mais.
Melhor que cortá-los fora de sua mãe com uma adaga, eu suponho.
As tentativas grotescas de sedução de Margaery eram tão obvias que era para se rir. Tommen é jovem demais para beijos, então ela lhe dá gatinhos. Cersei desejava que eles não fossem pretos, entretanto. Gatos pretos davam má sorte, como a garotinha de Rhaegar tinha descoberto naquele mesmo castelo.
Ela poderia ser minha filha, se o Rei Louco não tivesse feito sua brincadeira cruel com meu pai. Tinha que ter sido loucura o que levara Aerys a recusar a filha de Lorde Tywin e pegar seu filho em vez disso, enquanto casava seu próprio filho com uma fraca princesa de Dorne, com olhos negros e peito liso.
A memória da rejeição ainda estava inflamada, mesmo depois de todos esses anos. Mais de uma noite ela havia assistido o príncipe Rhaegar no salão, tocando sua harpa de cordas de prata com seus longos e elegantes dedos. Algum homem já havia sido tão bonito? Ele era mais que um homem, todavia. Seu sangue era o sangue da antiga Valiria, o sangue dos dragões e dos deuses. Quando ela era apenas uma garotinha seu pai havia lhe prometido que ela poderia se casar com Rhaegar. Ela não poderia ter mais que seis ou sete anos.
— Não fale disso, criança — ele havia dito a ela, com seu sorriso secreto que apenas Cersei já havia visto. — Não até que Vossa Graça concorde com o noivado. Isto deve permanecer nosso segredo por agora. —E havia sido, entretanto uma vez ela havia desenhado um retrato de si mesma voando atrás de Rhaegar em um dragão, seus braços apertados ao redor do peito dele. Quando Jaime a descobriu, disse que era a Rainha Alysanne e o Rei Jaehaerys.
Ela estava com dez anos quando viu seu príncipe em carne e osso, no torneio que seu pai havia feito para recepcionar o Rei Aerys ao oeste.
Estandes haviam sido levantados junto às muralhas de Lannisporto, e a torcida do povo tinha ecoado por Rochedo Casterly como um trovão. Eles torceram por seu pai duas vezes mais alto que pelo Rei, mas isso foi apenas a metade de tão alto quanto torceram por Rhaegar.
Com dezessete anos e novo na cavalaria, Rhaegar Targaryen usava uma placa preta em cima de sua armadura dourada quando galopou para a Justa. Longas correntes de vermelho, dourado e de seda laranja haviam flutuado por trás de seu elmo, como chamas. Dois de seus tios caíram diante de sua lança, juntamente com dúzias dos melhores na Justa de seu pai, a flor do oeste. À noite o príncipe tocou sua harpa de prata e a fez chorar. Quando ela foi apresentada a ele, Cersei quase se afogou nas profundezas de seus tristes olhos roxos. Ele foi ferido, ela se lembrou de ter pensado, mas vou curar suas feridas quando nos casarmos. Perto de Rhaegar até seu lindo Jaime não parecia nada mais que um rapazote. O príncipe será meu marido, ela pensara, com vertiginosa excitação, e então quando o velho rei morrer, eu serei a rainha. A rainha havia lhe confidenciado aquela verdade antes do torneio.
— Você deve estar especialmente linda — a SenhoraGenna lhe disse, agitando seu vestido. — No final da festa deve ser anunciado que você e o Príncipe Rhaegar estão noivos.
Cersei havia sido tão feliz naquele dia. De outro modo ela jamais teria ousado visitar a tenda de Maggy, a Sapa. Ela somente havia feito isso para mostrar a Jeyne e Melara que leoas não temiam nada. Eu serei rainha.
Por que uma rainha deveria ter medo de uma velha hedionda. A lembrança daquela profecia ainda a fazia tremer uma vida depois. Jeyne saira correndo da tenda, mas Melara havia ficado, e ela também. Nós a deixamos experimentar nosso sangue, e rimos de suas estúpidas profecias. Nenhuma delas fazia nenhum sentido. Ela seria a esposa de Rhaegar, não importava o que a mulher havia dito. Seu pai havia prometido e a palavra de Tywin Lannister era ouro.
Sua risada morreu no fim do torneio. Não havia tido festa final, sem brindes para comemorar seu noivado com príncipe Rhaegar. Apenas o silencio gelado e olhares frios entre o rei e seu pai. Mais tarde, quando Aerys e seu filho e todos seus galantes cavaleiros se foram para Porto Real ela havia ido até sua tia em prantos, sem entender.
— Seu pai propôs o compromisso — Senhora Genna lhe disse, — mas Aerys recusou-se a ouvir sobre isso. ‘Você é meu mais fiel servo, Tywin’ — o rei disse — ‘mas um homem não casa seu herdeiro com a filha de seu servo.’ Seque suas lágrimas pequena. Já viu um leão chorar? Seu pai achará um homem para você, um melhor que Rhaegar.
Sua tia tinha mentido, entretanto, e seu pai havia falhado com ela, assim como Jaime estava falhando agora. Papai não me encontrou um homem melhor, ao invés disso ele me deu Robert, e a maldição de Maggy floresceu como uma flor envenenada. Se ela tivesse se casado com Rhaegar, como os deuses pretendiam, ele nunca teria olhado duas vezes para a garota lobo. Rhaegar poderia ser nosso rei hoje e eu seria sua rainha, a mãe de seus filhos.
Ela nunca havia perdoado Robert por matá-lo.
Mas claro, leões nunca haviam sido bons em perdoar. Como Sor Bronn de Água Negra logo aprenderia.
BRIENNE
Foi Hyle Hunt quem insistiu que eles pegassem as cabeças.
— Tarly vai querê-las para colocá-las nas muralhas — ele disse. — Nós não temos nenhum alcatrão — Brienne apontou. — A carne vai apodrecer. Deixem-nas aqui. — Ela não queria viajar pela escuridão verdejante da floresta de pinheiros com as cabeças dos homens que tinha matado.
Hunt não a escutou. Ele mesmo cortou o pescoço dos cadáveres, amarrou as três cabeças pelos cabelos e as jogou em sua sela. Brienne não tinha escolha a não ser fingir que elas não estavam lá, mas, às vezes, principalmente à noite, ela podia sentir seus olhos mortos nas suas costas.
Uma vez sonhou que elas sussurravam uma para outra.
Estava frio e úmido na Ponta da Garra Rachada quando eles voltaram a andar. Alguns dias chovia, em outros, só parecia que iria chover.
Eles nunca estavam aquecidos. Mesmo quando acampavam era difícil encontrar lenha seca para a fogueira.
Quando eles chegaram aos portões de Lagoa da Donzela, uma multidão de moscas os recebeu, um corvo comera os olhos de Shagwell e tinham larvas engatinhando em Pyg e Timeon. Brienne e Podrick estavam, há muito, cavalgando muitos metros à frente, para manter o cheiro de podridão bem atrás deles. Sor Hyle afirmou ter perdido todo o olfato até então.
— Enterre-as — ela o falava toda vez que acampavam à noite, mas Hunt não era nada mais senão intratável. Ele vai preferir dizer a Lorde Randyll que matou todos os três.
Mas, pela sua honra, o cavaleiro não fez nada do tipo.
— O escudeiro gago jogou uma pedra — informou quando o levaram, junto com Brienne, à presença de Tarly, no pátio do castelo de Mooton. As cabeças foram apresentadas a um sargento da guarda, a quem foi dito para limpá-las, cobri-las de breu e ergue-las sobre o portão. — A moça da espada se encarregou do resto.
— Todos os três? — Lorde Randyl estava incrédulo.
— O jeito que ela lutou... ela poderia ter matado mais três.
— E você encontrou a menina Stark? — Tarly exigiu dela.
— Não, meu senhor.
— Ao invés disso você matou alguns ratos. Gostou?