Na manhã seguinte, ela foi ao Ganso Fedorento novamente, acordou sua proprietária negligente e comprou algumas salsichas gordurosas, pão frito, meio copo de vinho, uma jarra de água fervendo e dois copos limpos.
A mulher olhou de soslaio para Brienne enquanto colocava a água para ferver.
— Você é a grandalhona que marchou junto com Dick, o Ágil. Eu me lembro. Ele traiu você?
— Não.
— Te estuprou?
— Não.
— Roubou seu cavalo?
— Não. Ele foi morto por foras da lei.
—Foras da lei? A mulher parecia estar mais curiosa do que chateada.
— Eu sempre pensei que Dick iria ser pendurado ou enviado para aquela Muralha.
Eles comeram o pão frito e metade das salsichas. Podrick Payne lavou sua ração com água e um pouco de vinho enquanto Brienne bebia um copo de vinho aguado e se perguntava o que fazia ali. Hyle Hunt não era nenhum cavaleiro de verdade. Seu rosto honesto era apenas uma máscara. Eu não preciso de sua ajuda, não preciso nem de sua proteção, e eu não preciso dele, ela falou a si mesma. Ele provavelmente nem vem. Me falar para vir aqui foi apenas mais uma peça.
Ela se levantou para ir embora quando Sor Hyle chegou.
— Minha senhora. Podrick. — Ele olhou de relance para os copos e pratos e para as salsichas meio comidas, esfriadas numa poça de gordura, e disse: — Deuses, espero que você não tenha comida a comida daqui.
— O que nós comemos não te interessa — Brienne disse. — Você encontrou seu primo? O que ele te falou?
— Sandor Clegane foi visto pela última vez nas Salinas, no dia do ataque. Depois disso ele cavalgou para o oeste, ao longo do Tridente.
Ela fez uma careta.
— O Tridente é um rio longo.
— Sim, mas eu não acho que nosso cachorro vagará para muito longe da sua boca. Westeros perdeu seu charme para ele, ao que parece. Nas Salinas ele estava procurando por um barco. — Sor Hyle tirou um rolo de couro de ovelha da sua bota, empurrou as salsichas e o desenrolou. Era um mapa. — O Cão matou três dos homens de seu irmão em uma velha estalagem na encruzilhada, aqui. Ele levou o ataque para as Salinas, aqui. —Ele apontou as Salinas com seu dedo. — Ele pode entrar numa armadilha.
Os Frey se encontram aqui em cima, nas Gêmeas, e Darry e Harrenhal estão no sul, do outro lado do Tridente, a oeste ele tem os Blackwood e os Bracken brigando, e Lorde Randyll está aqui em Lagoa da Donzela. A estrada de altitude para o Vale está coberta pela neve, se ele conseguir passar pelos clãs da montanha. Para onde um cachorro iria?
— Se ele estiver com Dondarrion...?
— Não. Alyn tem certeza disso. Os homens de Dondarrion estão procurando por ele também. Eles deram sua palavra de que pretendem pendurá-lo pelo que ele fez nas Salinas. Eles não tem parte nisso. Lorde Randyll ouviu um boato de que eles esperam colocar os homens comuns contra Beric e sua irmandade. Ele nunca terá o senhor do relâmpago enquanto o povo o estiver protegendo. E tem essa outra banda, liderada por essa Coração de Pedra... Amante de Lorde Beric, de acordo com um conto.
Supostamente, ela foi enforcada pelos Frey, mas Dondarrion a beijou e a trouxe de volta à vida, e agora ela não pode morrer, não mais do que ele pode.
Brienne estudou o mapa.
— Se Clegane foi visto pela última vez nas Salinas, esse seria o lugar para achar sua trilha.
— Não há mais ninguém nas Salinas, a não ser um velho cavaleiro escondido no seu castelo, segundo Alyn.
— Mesmo assim seria um bom lugar para começar.
— Há um homem — Sor Hyle disse. — Um septão. Ele passou pelo meu portão no dia anterior ao que você apareceu. Meribald é seu nome.
Nascido e crescido junto ao rio, e ele serviu aqui por toda a vida. Partirá de manhã para fazer sua rota, e sempre passa pelas Salinas. Deveríamos ir com ele.
Brienne olhou para cima bruscamente.
— Nós?
— Eu irei com você.
— Não.
— Bem, eu irei com o septão Meribald para as Salinas. Você e Podrick podem ir para onde quiserem.
— Lorde Randyll ordenou que me seguisse de novo?
— Ele ordenou que eu ficasse longe de você. Lorde Randyll acha que você pode ser um bom estupro.
— Então por que viria comigo?
— Era isso ou retornar para o trabalho no portão.
— Se seu senhor ordenou.
— Ele não é mais meu senhor.
Aquilo foi inesperado para ela.
— Você deixou seu serviço?
— Sua senhoria me informou que ele não tinha de longe nenhuma necessidade de minha espada, ou de minha insolência. Isso significa a mesma coisa. Doravante, eu irei aproveitar a vida de aventureiro de um cavaleiro errante... Embora eu imagine que se nós achássemos Sansa Stark, seríamos recompensados.
Ouro e terra, são essas coisas que ele pensa que conseguirá com isso.
— Eu pretendo salvar a garota, não vendê-la. Eu fiz um voto.
— Eu não me lembro de ter feito.
— Este é o motivo pelo qual você não virá comigo.
Eles partiram na manhã seguinte, quando o sol subia.
Foi uma procissão estranha: Sor Hyle em um cavalo de cor castanha e Brienne na sua égua alta e cinza, Podrick Payne escarranchado na sua sela, e o septão Meribald andando ao lado deles com sua lança, guiando um pequeno jumento e um grande cachorro. O jumento carregava um peso tão grande que Brienne estava com medo de que suas costas se quebrassem.
— Comida para os pobres e famintos dos rios — Septão Meribald falou-lhes nos portões de Lagoa da Donzela. — Sementes e nozes e frutas secas, mingau de aveia, farinha de trigo, pão de cevada, três rodelas de queijo amarelo da estalagem pelo Portão dos Tolos, bacalhau salgado para mim, carneiro salgado para o Cachorro... oh, e sal. Cebolas, cenouras, nabos, dois sacos de feijão, quatro de cevada, e nove de laranjas. Eu tenho uma queda por laranjas, confesso. Eu comprei essas de um marinheiro, e receio que essas serão as últimas que vou chupar até a primavera.
Meribald era um septão sem septo, situado um pouco acima de um irmão pidão na hierarquia da fé. Havia centenas como ele, um bando maltrapilho cuja humilde tarefa era ir de aldeia em aldeia, conduzindo serviços religiosos, selando casamentos e perdoando pecados. Ele esperava que aqueles a quem visitava o desse abrigo e comida, mas a maioria era tão pobre quanto ele, então Meribald não podia demorar-se em um lugar por muito tempo sem causar algum aperto aos seus anfitriões. Estalajadeiros bondosos permitiam que ele dormisse às vezes em sua cozinha ou em seu estábulo, e havia refúgios e ainda alguns castelos onde ele sabia que podiam lhe dar alguma hospitalidade. Quando não havia esses lugares, ele dormia debaixo de árvores ou nas matas.
— Há muitas florestas nas zonas do rio — Meribald disse. — As antigas são as melhores. Não há nada melhor do que uma árvore de cem anos. Dentro de uma delas um homem pode dormir como em uma estalagem, com menos medo das pulgas.
O septão não podia ler ou escrever, como ele alegremente confessou ao longo do caminho, mas ele sabia uma gama de diferentes orações e podia recitar longas passagens de A Estrela de Sete Pontas, o que era tudo que as pessoas das vilas precisavam. Ele tinha o rosto cicatrizado, coberto de pelos cinza, rugas nos cantos dos olhos. Embora fosse um homem robusto, um metro e oitenta de altura, tinha um jeito de curvar-se quando andava que o fazia parecer muito mais baixo. Suas mãos eram grandes e coriáceas, com os nós dos dedos vermelhos e sujeira debaixo das unhas. E ele tinha o maior pé que Brienne já tinha visto, nu e negro, e duro como um chifre.
— Eu não uso sapato há vinte anos — ele falou a Brienne. — No primeiro ano, eu tinha mais calos do que dedos, e a planta dos meus pés sangravam como um porco quando caminhava por pedras duras, mas eu rezei e o Sapateiro de cima transformou minha pele em couro.