— Não existe nenhum sapateiro em cima — Podrick protestou.
— Existe, rapaz... embora você possa chamá-lo por outro nome.
Diga-me, qual dos sete deuses você ama mais?
— O Guerreiro — disse Podrick sem nenhuma hesitação.
Brienne pigarreou.
— No Castelo do Entardecer o septão de meu pai sempre disse que não há mais de um deus.
— Um deus com sete aspectos. É assim, minha senhora, e você está certa em apontar isso, mas o mistério dos sete que são um só não é fácil para o povo simples compreender, e eu não sou nada se não for simples, então eu ensino sobre os sete deuses. — Meribald voltou-se para Podrick. — Eu conheci um garoto que não amava o Guerreiro. Mas eu estou velho, e como velho, eu amo o Ferreiro. Sem o seu labor, o que o Guerreiro defenderia?
Toda cidade tem um ferreiro, e todo castelo. Eles fazem o arado que precisamos para plantar o que vamos colher, os pregos que usamos para construir nossos barcos, sapatos de aço para os cascos dos nossos cavalos fiéis, as espadas brilhantes dos nossos senhores. Ninguém pode duvidar do valor de um ferreiro, então nós nomeamos um dos Sete em honra a eles, mas poderíamos também chama-lo de o Fazendeiro ou o Pescador, o Carpinteiro ou o Sapateiro. No que ele trabalha não importa. O que importa é que ele trabalha. O Pai governa, o Guerreiro luta, o Ferreiro trabalha, e juntos eles 446
realizam tudo o que é preciso para um homem. Assim como o Ferreiro é um dos aspectos da divindade, o Sapateiro é um aspecto do Ferreiro. Foi ele quem ouviu minha oração e curou meus pés.
— Os deuses são bons — Sor Hyle disse numa voz seca — mas por que incomodá-los quando você poderia simplesmente ter calçado os sapatos?
— Ir com os pés descalços foi a minha pena. Até mesmo os septãos santos podem ser pecadores, e minha carne é tão fraca quanto poderia ser. Eu era jovem e cheio de vida, e as garotas... um septão pode parecer tão elegante como um príncipe se ele é o único homem que conhece que tem tido mais do que um sorriso na sua vila. Eu recitava para elas A Estrela de Sete Pontas. O Livro da Donzela funcionava melhor. Oh, eu era um homem fraco antes de jogar fora meus sapatos. Envergonha-me pensar em todas as garotas que deflorei.
Brienne se consertou na sela desconfortavelmente, pensando no campo abaixo das muralhas de Jardim de Cima e a aposta que Sor Hyle e os outros tinha feito para ver quem seria o primeiro que iria para a cama com ela.
— Nós estamos procurando por uma donzela — confidenciou Podrick Payne. — Uma garota nobre de treze anos, ruiva.
— Eu pensei que procuravam por foras da lei.
— Eles também — Podrick admitiu.
— A maioria dos viajantes fazem tudo que podem para evitar homens como esses — disse o Septão Meribald, — ainda assim vocês procuram por eles.
— Nós procuramos por apenas um fora da lei — Brienne disse. — O Cão.
— Foi o que Sor Hyle me disse. Que os Sete te salvem, filha. É dito que deixa um trilha de bebês mortos e mulheres violadas atrás de si. O Cachorro Louco das Salinas, eu ouvi o chamarem. O que um povo tão bom iria querer com tal criatura?
— A donzela de que Podrick falou pode estar com ele.
— Verdade? Então devemos rezar pela pobre menina.
E por mim, pensou Brienne, uma oração por mim também. Peça à Velha para erguer sua lanterna e me guiar até a Senhora Sansa, e ao Guerreiro para dar força aos meus braços para que eu possa defendê-la.
Entretanto, ela não disse essas palavras em voz alta, não enquanto Hyle Hunt pudesse ouvi-la e zombar da sua fraqueza de mulher.
Com o Septão Meribald andando a pé e seu jumento carregando uma carga tão pesada, eles andaram devagar por todo o dia. Eles não pegaram o caminho principal para oeste, o caminho que Brienne tinha cavalgado com Sor Jaime quando foram para Lagoa da Donzela, encontrando-a saqueada e cheia de mortos. Ao invés disso, eles tomaram o sentido noroeste, seguindo a praia da Baía dos Caranguejos em uma trilha tortuosa que não aparecia em nenhum dos preciosos mapas de pele de carneiro de Sor Hyle. As colinas íngremes, os pântanos negros e as florestas de pinheiros da Ponta da Garra Rachada não podiam ser encontrados daquele lado da Lagoa da Donzela. As terras em que eles viajaram eram baixas e molhadas, uma natureza repleta de dunas de areia e charcos salgados debaixo de um firmamento cinza-azulado.
O caminho parecia desaparecer por entre os juncos e poços de maré para aparecer de novo uma milha adiante. Brienne pensou que sem Meribald eles já estariam perdidos. O chão geralmente era macio, mas mesmo assim o septão batia no chão com sua lança para saber os lugares apropriados para pisar. Não havia árvores a léguas a frente deles, apenas mar e céu e areia.
Nenhuma terra poderia ser mais diferente de Tarth, com suas montanhas e cachoeiras, seus altos prados e vales escuros, no entanto, o lugar tinha sua própria beleza, Brienne pensou. Eles passaram por dúzias de córregos com sapos e grilos, viram andorinhas-do-mar voando no céu da baía, ouviram os maçaricos chamando das dunas. Uma vez uma raposa cruzou o seu caminho e fez o cachorro de Meribald latir selvagemente.
E havia pessoas também. Algumas viviam entre os juncos em casas construídas de barro e palha, enquanto outras pescavam na baía em coracles e construíram suas casas em estacas de madeira raquíticas sobre as dunas. A maioria parecia viver sozinha, sem qualquer visão de ocupação humana a não ser a própria.
Eles pareciam ser um povo tímido, mas perto do meio-dia o cachorro começou a latir novamente, e três mulheres emergiram dos juncos e deram a Meribald uma cesta cheia de mariscos. Ele deu a cada uma delas uma laranja em retribuição, embora mariscos fossem a coisa mais comum naquele mundo, enquanto laranjas eram raras e caras. Uma das mulheres era muita velha, outra tinha uma criança pesada no colo. A outra era uma menina tão nova e bonita como uma flor de primavera. Quando Meribald começou a falar sobre seus pecados, Sor Hyle riu e disse:
— Parece que os deuses caminhavam conosco... pelo menos a Donzela, a Mãe, e a Velha. — Podrick parecia tão atônito que Brienne teve que dizer que não, elas só eram três mulheres do pântano.
Depois, quando eles recomeçaram a jornada, ela virou-se para o septão e disse,
— Estas pessoas vivem a menos de um dia de viagem de Lagoa da Donzela, no entanto a peleja ainda não os tocou.
— Eles têm pouco para ser tocado, minha senhora. Seus tesouros são conchas, pedras e barcos de couro, suas melhores armas são facas enferrujadas. Eles nascem, vivem, amam e morrem. Sabem que Lorde Mooton governa sobre suas terras, mas poucos o viram e o Rio Corrente e as Terras do Rei são apenas nomes para eles.
— E mesmo assim eles conhecem os deuses — disse Brienne. — Esse é seu trabalho, eu acho. Por quanto tempo você andou pelas terras dos rios?
— Logo fará quarenta anos — o septão disse, e seu cachorro deu um latido alto. — De Lagoa da Donzela a Lagoa da Donzela, meu circuito dura a metade de um ano, às vezes mais, mas não conheço o Tridente. Eu vislumbrei os castelos de grandes senhores apenas a uma distância, mas eu conheço os mercados das cidades e os refúgios, vilas muito pequenas para terem um nome, a mata e as colinas, os regatos de onde um homem sedento pode beber e as cavernas onde ele pode se proteger. E as estradas que o povo usa, as trilhas tortuosas e lamacentas que não aparecem em mapas de pergaminho, eu as conheço também. — Ele riu. — Eu devo. Meus pés andaram por cada milha das terras dos rios, e dez vezes mais.
As estradas de trás são as que os fora da lei usam, e as cavernas um bom lugar para eles se esconderem. Um comichão de suspeita fez com que Brienne se perguntasse o quão bem Sor Hyle conhecia esse homem.
— Deve ser uma vida muito solitária, septão.