— Os Sete estão sempre comigo — disse Meribald, — e eu tenho meu servo fiel e meu cachorro.
— Ele tem nome? — Perguntou Podrick Payne.
— Deve ter — disse Meribald — mas ele não é meu cachorro. Não ele.
O cachorro latiu e abanou o rabo. Ele era enorme, criatura peluda, sessenta quilos no mínimo, mas amigável.
— A quem ele pertence? Perguntou Podrick Payne.
— Por quê deveria? A si mesmo, e aos Sete. Quanto ao seu nome, ele não me falou qual é. Chamo-o Cachorro.
— Oh. — Podrick não sabia o que fazia uma pessoa chamar um cachorro de Cachorro. O garoto mastigou o pensamento por um tempo e depois disse. Eu tinha um cachorro quando criança. Eu o chamava de Herói.
— Ele era?
— Ele era o quê?
— Um herói.
— Não. Mas era um bom cachorro. Ele morreu.
— Cachorro me mantém protegido nas estradas, até mesmo em tempos tão difíceis como esses. Nem lobo nem bandido ousa aproximar-se de mim quando Cachorro está comigo. — O septão fez uma careta. — Ultimamente os lobos se multiplicam terrivelmente. Há lugares em que um homem só pode encontrar uma árvore para dormir dentro. Em todos esses anos a maior matilha que já vi tinha menos de uma dúzia de lobos, mas a matilha que ronda ao longo do Tridente tem quase cem.
Você os viu? — Sor Hyle perguntou.
— Fui poupado disso, os Sete me salvaram, mas eu os ouvi à noite mais de uma vez. Tantas sons... sons que fazem o sangue de um homem coagular. Faz até mesmo Cachorro ter calafrios, e ele matou uma dúzia de lobos. — Ele acariciou a cabeça do cachorro. — Algumas pessoas dirão que são demônios. Eles dizem que a matilha é liderada por uma loba monstruosa, uma sombra perseguidora horrível, cinza, enorme. Eles te dirão que ela é conhecida por derrubar bisões sozinha, que nenhuma armadilha ou laço pode segurá-la, que não teme nem aço nem fogo, que mata qualquer outro lobo que tente tomar seu posto, que não come carne alguma a não ser humana.
Sor Hyle Hunt riu.
— Agora você conseguiu, septão. Os olhos do pobre Podrick estão tão grandes como ovos cozidos.
— Não estão — disse Podrick, indignado. Cachorro latiu.
Naquela noite eles montaram um acampamento frio nas dunas.
Brienne mandou Podrick ir até à praia encontrar madeira para o fogo, mas ele voltou com as mãos vazias, com lama até os joelhos.
— A maré está baixa, sor. Minha senhora. Não tem água nenhuma, apenas alagadiços.
— Fique longe da lama, filho — aconselhou Septão Meribald. — A lama não é gentil com estranhos. Se andar pelos caminhos errados, ela vai se abrir e te engolir.
— É apenas lama — insistiu Podrick.
— Até que encha sua boca e comece a entrar em seu nariz. Então, é morte. — Ele sorriu para tirar a frieza de suas palavras. — Limpe essa lama e coma um pedaço de laranja, rapaz.
O dia seguinte foi mais do mesmo. Eles quebraram o jejum com bacalhau e mais fatias de laranja e tomaram seu rumo antes que o sol tivesse nascido completamente, com um céu cor de rosa atrás deles e um céu roxo a sua frente. Cachorro guiou-os, farejando cada tufo de junco e parando de vez em quando para mijar; ele parecia conhecer a estrada tão bem quanto Meribald. O canto das andorinhas-do-mar tremia no ar da manhã enquanto a maré subia.
Perto do meio-dia eles pararam numa pequena vila, a primeira que tinham encontrado, onde oito das casas de estaca se erguiam sobre um pequeno córrego. Os homens pescavam em seus coracles, mas as mulheres e as crianças desceram as escadas de corda e se juntaram ao redor do Septão Meribald para rezar. Depois do serviço ele perdoou seus pecados e os deixou com alguns nabos, um saco de feijão, e duas de suas preciosas laranjas.
De volta à estrada, o septão disse.
— Faríamos bem se fizéssemos turnos de vigia essa noite, meus amigos. Os aldeões disseram que viram três homens quebrados se escondendo nas dunas, a oeste da velha vigia.
— Só três? — Sor Hyle sorriu. — Três homens são como mel para nossa espadachim. Eles não irão perturbar homens armados.
— A não ser que estejam morrendo de fome — o septão disse. — Há comida nesses brejos, mas apenas para aqueles que têm os olhos para encontrá-la, e esses homens são estranhos aqui, sobreviventes de alguma batalha. Se eles nos abordarem, sor, deixe-os comigo.
— O que fará com eles?
— Os alimentarei. Pedirei para que confessem seus pecados, então eu poderei perdoá-los. E os convidarei para irem conosco para a Ilha Quieta.
— Seria melhor convidá-los para cortar nossas gargantas enquanto dormimos — Hyle Hunt replicou. — Lorde Randyll tem outras maneiras de lidar com homens quebrados, aço e corda de cânhamo.
— Sor? Minha senhora? — Disse Podrick. — Um homem quebrado é um fora da lei?
— Mais ou menos — Brienne respondeu.
O Septão Meribald discordou.
— Mas menos do que mais. Há muitas espécies de fora da lei, assim como há muitos espécies de pássaros. Um maçarico e uma águia-do-mar têm asas, mas não são os mesmos. Os cantores amam cantar sobre homens bons forçados a quebrar a lei para lutar contra algum senhor perverso, mas a maioria dos foras da lei são mais parecidos com esse Cão voraz do que com o Senhor do Relâmpago. Eles são homens maus, guiados pela ganância, azedados pela malícia, desprezando os deuses e cuidando apenas de si mesmos. Homens quebrados são mais merecedores de nossa pena, embora também possam ser perigosos. Quase todos são homens comuns, povo simples que nunca esteve a mais de um quilômetro da casa em que nasceram até o dia em que algum senhor veio para leva-los para a guerra. Mal calçados e mal vestidos, eles marcham para longe dos estandartes, na maioria das vezes armadas com nada além de uma foice ou uma enxada afiada, ou uma marreta que eles mesmos fizeram, amarrando uma pedra a um pedaço de madeira com tiras de couro. Irmãos marcham com irmãos, pais com filhos, amigos com amigos. Eles ouviram as canções e as histórias, então eles vão com o coração ansioso, sonhando com as maravilhas que verão, da riqueza e glória que ganharão. A guerra parece ser uma aventura legal, a maioria deles nunca saberá. Então eles sentem o primeiro sabor da batalha. Para alguns, o sabor é suficiente para quebrá-los. Outros continuam por anos, até que percam a conta de todas as batalhas em que lutaram, mas até mesmo um homem que sobreviveu a cem batalhas pode ser quebrado como se a centésima fosse a primeira. Irmãos veem irmãos morrerem, pais perdem filhos, amigos veem amigos tentando segurar suas entranhas depois de serem atingidos por um machado. Eles veem o senhor que os levou para lá cair, e algum outro senhor gritar que eles pertencem a ele agora. Eles adquirem uma ferida, e quando essa está quase se curando, adquirem outra. Nunca há o suficiente para comer, seus sapatos caem aos pedaços na marcha, suas roupas estão rasgando e apodrecendo, e metade deles se cagam nas calças por beberem água contaminada. Se querem botas novas ou uma capa mais quente ou talvez um elmo enferrujado, eles precisam tirá-los de um cadáver, e quando caem em si, estão roubando dos vivos também, dos aldeões em cujas terras estão lutando, homens bem parecidos com aqueles que costumavam ser. Eles matam suas ovelhas e roubam suas galinhas, e depois disso é apenas um pequeno passo para que comecem a roubar suas filhas também. E um dia eles olham ao redor e percebem que todos os seus amigos e parentes se foram, que estão lutando ao lado de estranhos debaixo de um estandarte que eles sequer reconhecem mais. Eles não sabem quem são ou como voltar para casa, e o senhor para quem estão lutando não sabe seus nomes, mesmo assim ele vem, gritando para que eles fiquem em sentido, para que formem uma linha com suas lanças e foices e enxadas afiadas, para defender a posição. E os cavaleiros vêm até eles, homens sem face vestidos em aço, e o trovão de ferro que carregam parece encher o mundo... e o homem se quebra. Ele volta e corre, ou engatinha sobre os cadáveres da matança, ou roubam na escuridão da noite, e ele encontra algum lugar para se esconder. Todo pensamento sobre seu lar já se foi, e reis e senhores e deuses significam menos do que uma coxa de carne estragada que o deixará vivo por mais um dia, ou um odre de vinho ruim que poderá afogar seu medo por algumas horas. O homem quebrado vive dia a dia, de refeição a refeição, mais fera do que homem. A Senhora Brienne não está errada. Em tempos como esse, o viajante deve estar atento a homens quebrados, e temê-los... mas deve sentir pena deles também.