— Vou propor negócio. Liberte-me deste dever, e a minha navalha estará às suas ordens.
A boca dela se apertou. Havia tomado vinho quente com especiarias e cheirava a noz-moscada.
— Você ousa discutir comigo? Tenho que relembrar que jurou obedecer?
— Jurei proteger o rei. O meu lugar é a seu lado.
— O seu lugar é onde quer que ele ordene que você esteja.
— Tommen coloca seu selo em todos os papéis que você põe na frente dele. Isto é obra sua e é uma loucura. Para quê nomear Daven o seu Protetor do Oeste se não tem confiança nele?
Cersei sentou-se junto à janela. Por trás dela, Jaime conseguia ver as ruínas enegrecidas da Torre da Mão.
— Por quê tanta relutância, sor? Perdeu a coragem com a mão?
— Prestei um juramento à Senhora Stark de nunca mais pegar em armas contra os Stark ou os Tully.
— Uma promessa de bêbado feita com uma espada na garganta.
— Como poderei defender Tommen se não estiver com ele?
— Derrotando os seus inimigos. O pai sempre disse que um golpe rápido de espada é uma defesa melhor do que qualquer escudo. Admito que a maior parte dos golpes de espada precisam de uma mão. Apesar disso, até um leão mutilado pode inspirar medo. Quero Correrrio. Quero Brynden Tully agrilhoado ou morto. E alguém tem de pôr Harrenhal nos eixos. Temos necessidade urgente de Wylis Manderly, assumindo que ainda está vivo e cativo, mas a guarnição não respondeu a nenhum dos nossos corvos.
— Quem está em Harrenhal são homens de Gregor — lembrou-lhe Jaime — A Montanha gostava deles cruéis e estúpidos. O mais provável é que tenham comido os seus corvos, com mensagens e tudo.
— É por isso que vou mandar você para lá. Podem comer você também, valente irmão, mas confio que você causará indigestão. — Cersei alisou a saia. — Quero que seja Sor Osmund que comande a Guarda Real na sua ausência.
… ela anda fodendo com Lancel e Osmund Kettleblack e o Rapaz Lua, pelo que sei…
— Essa escolha não pertence a você. Se eu for, Sor Loras ficará aqui no comando em meu nome.
— Isso é algum gracejo? Sabe o que eu sinto por Sor Loras.
— Se não tivesse mandado Balon Swann para Dorne…
— Preciso dele lá. Os dorneses não são dignos de confiança. Aquela serpente vermelha foi campeã de Tyrion, você se esqueceu disso? Não deixarei a minha filha à mercê deles. E não terei Sor Loras ao comando da Guarda Real.
— Sor Loras é três vezes melhor homem do que Sor Osmund.
— As suas noções de virilidade mudaram um pouco, irmão.
Jaime sentiu a ira a aumentar.
— É verdade, Loras não te olha para as tetas como Sor Osmund, mas não penso…
— Pensa nisto — Cersei esbofeteou-o.
Jaime não fez qualquer esforço para bloquear o golpe.
— Estou vendo que vou precisar de uma barba mais espessa, para me proteger das carícias da minha rainha. — Desejava arrancar-lhe o vestido e transformar os golpes em beijos. Já antes o fizera, na época em que tinha duas boas mãos.
Os olhos da rainha eram gelo verde.
— É melhor que vá embora, sor.
… Lancel, Osmund Kettleblack, e o Rapaz Lua…
— Além de mutilado, você é surdo? Encontrará a porta atrás de você, sor.
— Às suas ordens. — Jaime girou nos calcanhares e a deixou.
Em algum lugar os deuses riam. Cersei nunca aceitara de bom grado ser contrariada, ele sabia disso. Palavras mais suaves poderiam tê-la feito mudar de ideias, mas nos últimos tempos bastava vê-la para sentir-se irritado.
Parte de si ficaria contente por deixar Porto Real para trás. Em nada lhe agradava a companhia dos bajuladores e dos tolos que rodeavam Cersei.
O pequeno conselho era como chamavam no Fundo das Pulgas, de acordo com Addam Marbrand. E Qyburn… podia ter salvo a vida de Jaime, mas não deixava de ser um Saltimbanco Sangrento.
— Qyburn fede a segredos — dissera a Cersei, num aviso. Isso apenas a fez rir.
— Todos nós temos segredos, irmão — respondera.
… ela anda fodendo com Lancel e Osmund Kettleblack e provavelmente até com o Rapaz Lua, pelo que sei…
Quarenta cavaleiros e outros tantos escudeiros o esperavam à porta dos estábulos da Fortaleza Vermelha. Metade eram ocidentais juramentados à Casa Lannister, os outros inimigos recentes transformados em amigos duvidosos. Sor Dermot da Mata de Chuva levaria o estandarte de Tommen, o Ronnet Connington, o Vermellho, a bandeira branca da Guarda Real. Paege, Piper e Peckledon partilhariam a honra de servir o Senhor Comandante como escudeiros.
— Mantenha os amigos atrás de você e os inimigos onde você possa ver — aconselhara-o um dia Sumner Crakehall. Ou teria sido o pai?
O seu palafrém era um baio sanguíneo, e o corcel de batalha um magnífico garanhão cinzento. Tinham-se passado longos anos desde a última vez que Jaime dera nomes a qualquer um dos seus cavalos; vira muitos morrer em batalha, e isso se tornava mais duro quando lhes eram dados nomes. Mas quando o rapaz Piper começou a chamá-los de Honra e Glória, riu-se e deixou que os nomes pegassem. Glória usava arreios do carmim Lannister. Honra estava ajaezado com o branco da Guarda Real. Josmyn Peckledon segurou nas rédeas do palafrém quando Sor Jaime montou. O escudeiro era magro como uma lança, com longos braços e pernas, um cabelo oleoso de um castanho de rato, e bochechas cobertas por uma suave penugem de pêssego. O seu manto ostentava o carmim Lannister, mas sobretudo mostrava as dez moletas púrpuras da sua Casa, dispostas em fundo de amarelo.
— Senhor — perguntou o rapaz — quer a sua nova mão?
— Use-a, Jaime — instou Sor Kennos de Kayce. — Acene aos plebeus e dê a eles algo para contar aos filhos.
— Penso que não — Jaime não queria mostrar à multidão uma mentira dourada. Que vejam o coto. Que vejam o aleijado. — Mas fique à vontade para compensar a minha falta, Sor Kennos. Acene com ambas as mãos e sacuda os pés, se te agradar. — Pegou nas rédeas com a mão esquerda e deu meia volta ao cavalo. — Payne — chamou enquanto os outros formavam — seguirá a meu lado.
Sor Ilyn Payne abriu caminho até junto de Jaime, parecendo um pedinte num baile. A sua cota de malha estava velha e enferrujada, e era usada sobre uma jaqueta manchada de couro fervido. Nem o homem nem a sua montaria ostentavam símbolos heráldicos; o escudo estava tão amolgado e fendido que era difícil dizer de que cor teria sido a tinta que em tempos o cobrira. Com a sua cara severa e olhos vazios e encovados, Sor Ilyn podia ter passado pela própria morte… e fora o que fizera, durante anos.
Mas já não. Sor Ilyn constituíra metade do preço de Jaime por engolir a ordem do seu rei rapaz como um bom Menino Comandante. A outra metade fora Sor Addam Marbrand.
— Preciso deles — dissera à irmã, e Cersei não resistira. O mais certo é estar satisfeita por se livrar deles. Sor Addam era amigo de infância de Jaime, e o carrasco silencioso fora um homem de seu pai, se é que era homem de alguém. Payne fora capitão da guarda da Mão quando alguém o ouvira numa vanglória de que era Lorde Tywin quem governava os Sete Reinos e dizia ao Rei Aerys o que fazer. Aerys Targaryen cortou a língua por isso.
— Abram os portões — disse Jaime, e o Varrao-Forte, com a sua voz trovejante, gritou:
— ABRAM OS PORTÕES!
Quando Mace Tyrell se pôs em marcha através do Portão da Lama ao som de tambores e violas, milhares de pessoas encheram as ruas para aclamá-lo. Rapazinhos tinham-se juntado à marcha, caminhando ao lado dos soldados Tyrell com cabeças erguidas e elevando bem as pernas, enquanto as irmãs desses rapazes atiravam beijos das janelas.
Mas naquele dia era diferente. Algumas rameiras gritavam convites à passagem dos homens, e um vendedor de pastéis de carne oferecia a mercadoria. Na Praça do Sapateiro estavam dois pardais velhos perante várias centenas de plebeus, clamando pela danação de homens sem deus e adoradores de demônios. A multidão abriu alas para deixar passar a coluna.