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Tanto pardais como os sapateiros observaram com olhos carregados.

— Gostam do cheiro das rosas, mas não sentem amizade pelos leões — observou Jaime. — A minha irmã faria bem em tomar nota disso. — Sor Ilyn não lhe deu resposta. O companheiro perfeito para uma longa cavalgada. Vou apreciar a sua companhia. A maior parte das suas tropas o esperava para lá das muralhas da cidade; Sor Addam Marbrand com os seus batedores, Sor Steffon Swyft e o comboio logístico, a Santa Centena do velho Sor Bonifer, o Bom, os arqueiros a cavalo de Sarsfield, o Meistre Gulian com quatro gaiolas cheias de corvos, duas centenas de cavaleiros pesados sob o comando de Sor Flement Brax. Somando tudo, não era uma grande hoste; menos de mil homens ao todo. Um grande número era a última coisa necessária em Correrrio. Um exército Lannister já investia sobre o castelo, bem como uma força ainda maior dos Frey; a última ave que tinham recebido sugeria que os sitiantes estavam tendo dificuldades em manterem-se alimentados. Brynden Tully deixara o terreno limpo antes de se retirar para o interior das suas muralhas. Não que precisasse de grande limpeza.

Pelo que Jaime vira das terras fluviais, quase não havia campo de cultivo que permanecesse por queimar, vila por saquear e donzela por espoliar. E agora a minha querida irmã mandou-me acabar o trabalho que Amory Lorch e Gregor Clegane começaram.

Aquilo deixou um sabor amargo na boca. Tão perto de Porto Real, a estrada do rei era tão segura como qualquer estrada podia ser em tempos como aqueles, mas mesmo assim Jaime enviou Marbrand e os seus batedores em frente.

— Robb Stark apanhou- me desprevenido no Bosque dos Murmúrios— disse. — Isso nunca mais voltará a acontecer.

— Tem a minha palavra quanto a isso. — Marbrand parecia visivelmente aliviado por estar de novo a cavalo, usando o manto de um cinzento fumarento da sua Casa em vez da lã dourada da Patrulha da Cidade.

— Se algum inimigo se aproximar mais do que uma dúzia de léguas, ficará sabendo sobre ele de antemão.

Jaime ordenara severamente que nenhum homem devia se afastar da coluna sem a sua licença. Se assim não fosse, sabia que teria jovens fidalgotes aborrecidos a fazer corridas pelos campos, espalhando gado e espezinhando as culturas. Ainda se viam vacas e ovelhas perto da cidade; maçãs nas árvores e bagas nos arbustos, searas de cevada, aveia e trigo de inverno, carroças e carros de bois na estrada. Mais adiante, as coisas não seriam tão rosadas. Avançando à frente da hoste com Sor Ilyn silencioso a seu lado, Jaime se sentiu quase satisfeito. O sol estava quente nas suas costas e o vento afagava o seu cabelo como os dedos de uma mulher. Quando Lew Pequeno Piper se aproximou a galope com um elmo cheio de amoras silvestres, Jaime comeu uma mão cheia e disse ao rapaz para partilhar o restante com os outros escudeiros e Sor Ilyn Payne.

Payne parecia tão confortável no seu silêncio como na sua cota de malha ferrugenta e couro fervido. O ruído dos cascos do seu castrado e o chocalhar da espada na bainha sempre que se movia na sela eram os únicos sons que emitia. Embora a sua cara marcada pelas bexigas fosse severa e os seus olhos frios como gelo num lago de inverno, Jaime sentia que o homem estava satisfeito por ter vindo. Dei-lhe uma escolha, recordou a si próprio.

Ele podia ter dito que não e continuar como magistrado do rei.

A nomeação de Sor Ilyn fora um presente de casamento de Robert Baratheon para o pai da sua noiva, uma benesse para compensar Payne pela língua que perdera ao serviço da Casa Lannister. Ele dava um magnífico carrasco. Nunca estragara uma execução, e raramente precisava de um segundo golpe. E havia algo no seu silêncio que inspirava terror. Raramente tinha um magistrado do rei parecido ser tão adequado ao seu cargo.

Quando Jaime decidiu levá-lo consigo, procurara os aposentos de Sor Ilyn, na ponta do Passeio do Traidor. O andar superior da torre atarracada e semicircular estava dividido em celas para prisioneiros que precisassem de algum grau de conforto, cavaleiros cativos ou fidalgos à espera de resgate ou troca. A entrada para as masmorras propriamente ditas ficava ao nível do chão, atrás de uma porta de ferro martelado e de uma segunda porta de madeira cinzenta e lascada. Nos andares intermédios ficavam quartos guardados para o uso do Carcereiro-Chefe, para o Senhor Confessor e para o Magistrado do Rei. O Magistrado era um carrasco, mas por tradição estava também encarregado das masmorras e dos homens que nelas trabalhavam.

E Sor Ilyn Payne era singularmente pouco adequado para essa tarefa.

Como não sabia ler nem escrever, e não podia falar, Sor Ilyn deixara o  governo das masmorras aos seus subordinados, fossem eles quem fossem.

Porém, o reino não tinha um Senhor Confessor desde o segundo Daeron, e o último Carcereiro-Chefe fora um mercador de tecidos que comprara o cargo ao Mindinho durante o reinado de Robert. Sem dúvida que teve um bom lucro com ele durante alguns anos, até cometer o erro de conspirar com mais alguns palermas ricos para entregar o trono a Stannis. Chamavam a si próprios “Homens Chifrudos”, e Joff pregou neles hastes à cabeça antes de atirá-los por cima das muralhas da cidade. Portanto recaíra em Rennifer Longwaters, o chefe dos carcereiros de costas torcidas que afirmava com entediante abundância de pormenores ter em si uma “gota de dragão”, a tarefa de destrancar as portas das masmorras para Jaime entrar e conduzi-lo pelos estreitos degraus que subiam por dentro das paredes até ao local onde Ilyn Payne vivera durante quinze anos.

Os aposentos fediam a comida apodrecida, e as esteiras estavam cobertas de bicharada. Quando Jaime entrou, quase pisou numa ratazana. A espada longa de Payne repousava sobre uma mesa de montar, ao lado de uma pedra de amolar e de um oleado sebento. O aço se mostrava imaculado, com o gume a cintilar, azul, à luz pálida, mas noutros pontos havia pilhas de roupa suja espalhadas pelo chão, e os bocados de cota de malha e armadura espalhados por aqui e por ali estavam rubros de ferrugem. Jaime não conseguiu contar os jarros de vinho quebrados. O homem não tem interesse por nada além de matar, pensou, no momento em que Sor Ilyn emergia de um quarto que fedia a penicos a transbordar. — Sua Graça me pediu que reconquistasse as terras fluviais — disse-lhe Jaime. — Gostaria de tê-lo comigo… caso consiga aguentar a ideia de desistir de tudo isto.

A sua resposta foi o silêncio, e um longo olhar sem pestanejar. Mas no momento em que se preparava para se virar e ir embora, Payne fez um aceno. E aqui vem ele. Jaime deitou um relance ao seu companheiro. Talvez ainda haja esperança para ambos. Nessa noite acamparam à sombra do castelo dos Hayford, que se erguia no cume de uma colina. Enquanto o sol descia, uma centena de tendas brotou na base da colina, ao longo das margens do ribeiro que corria junto a ela. Foi o próprio Jaime quem posicionou as sentinelas. Não esperava problemas tão perto da cidade, mas o tio Stafford também se julgara em segurança em Cruzaboi. Era melhor não correr riscos.

Quando o convite para jantar com o castelão da Senhora Hayford desceu do castelo, Jaime levou consigo Sor Ilyn, bem como Sor Addam Marbrand, Sor Bonifer Hasty, o Ronnet Connington, o Vermelho, o VarrãoForte e uma dúzia de outros cavaleiros e fidalgos.

— Suponho que devia usar a mão — disse a Peck antes de iniciar a subida.

O rapaz foi imediatamente buscá-la. A mão era esculpida em ouro, muito semelhante a uma mão verdadeira, com unhas de madrepérola embutidas nela e os dedos e polegar meio fechados, a fim de poder com eles rodear a haste de um cálice. Não posso lutar, mas posso beber, refletiu Jaime enquanto o rapaz apertava as correias que lhe prendiam a mão ao coto. — Deste dia em diante, os homens o chamarão de mão de ouro, senhor — assegurara-lhe o armeiro da primeira vez que a encaixara no pulso de Jaime.