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Num lugar chamado Corno de Porca encontraram um velho e rijo cavaleiro chamado Sor Roger Hogg, que defendia teimosamente a sua torre com seis homens de armas, quatro besteiros e uma vintena de camponeses.

Sor Roger era tão grande e hirsuto como um porco de engorda e Sor Kennos sugeriu que podia ser algum Crakehall perdido, visto que o símbolo deles era um varrão malhado. O Varrão Forte pareceu acreditar e passou uma intensa hora interrogando Sor Roger acerca dos seus ancestrais.

Jaime estava mais interessado no que Hogg tinha a dizer sobre os lobos.

— Tivemos alguns problemas com um bando daqueles lobos da estrela branca — disse-lhe o velho cavaleiro. — Vieram por aí a farejar o seu rasto, senhor, mas nós corremos com eles, e enterramos três lá em baixo ao pé dos nabos. Antes deles houve um grupo de malditos leões, com a vossa licença. Aquele que os liderava tinha uma mantícora no escudo.

— Sor Amory Lorch — esclareceu Jaime. — O senhor meu pai ordenou-lhe que assolasse as terras fluviais.

— Às quais nós não pertencemos — disse resolutamente Sor Roger Hogg. — A minha lealdade é devida à Casa Hayford, e a Senhora Ermesande dobra o seu pequeno joelho a Porto Real, ou o fará assim que tenha idade para andar. Eu disse isso, mas esse Lorch não era grande ouvinte. Matou metade das minhas ovelhas e três boas cabras leiteiras, e tentou assar-me na minha torre. Mas as minhas muralhas são de pedra sólida com dois metros e meio de espessura, de modo que depois do fogo se apagar ele se foi embora aborrecido. Os lobos vieram depois, aqueles de quatro patas. Comeram as ovelhas que a mantícora me deixou. Fiquei com algumas boas peles como recompensa, mas peles não enchem a barriga de ninguém.

O que devemos fazer senhor?

— Plantem — disse Jaime — e rezem por uma última colheita. — ão era resposta prestável, mas era a única que podia dar. No dia seguinte, a coluna atravessou o ribeiro que formava a fronteira entre as terras que deviam lealdade a Porto Real e aquelas obrigadas a Correrrio. O Meistre Gulian consultou um mapa e anunciou que aqueles montes pertenciam aos irmãos Wode, um par de cavaleiros com terras, juramentados a Harrenhal…

mas os fortes deles tinham sido construídos de terra e madeira, e só restavam vigas enegrecidas.

Não apareceu nenhum Wode, nem nenhum dos seus plebeus, embora alguns foras da lei se tivessem abrigado na cave por baixo da fortaleza do segundo irmão. Um deles usava as ruínas de um manto carmesim, mas Jaime enforcou-o com os outros. Senti-me bem. Isso foi justiça. Habitua-te a isso, Lannister, e um dia os homens talvez te chamem Mão de Ouro, afinal. Mão de Ouro, o Justo.

O mundo foi ficando mais cinzento à medida que se aproximavam de Harrenhal. Avançavam sob céus de ardósia, ao lado de águas que brilhavam, velhas e frias como uma folha de aço batido. Jaime deu por si perguntando a si próprio se Brienne teria passado por ali antes dele. Se ela pensou que Sansa Stark se dirigiu a Correrrio… Caso tivessem encontrado outros viajantes, podia ter parado para perguntar se algum teria por acaso visto uma donzela bonita com cabelo ruivo, ou uma grande e feia com uma cara capaz de coalhar leite. Mas não havia nada nas estradas a não ser lobos, e os seus uivos não continham respostas.

As torres da loucura do Harren Negro surgiram por fim do outro lado das águas de peltre do lago, cinco dedos negros retorcidos, pedra deformada que se estendia para o céu. Embora o Mindinho tivesse sido nomeado Senhor de Harrenhal, parecia não ter grande pressa de ocupar os seus novos domínios, e assim coube a Jaime Lannister “pôr em ordem” Harrenhal a caminho de Correrrio.

Não duvidava de que o castelo necessitava de ser posto em ordem.

Gregor Clegane arrancara o imenso e sombrio castelo aos Saltimbancos Sangrentos antes de Cersei o chamar a Porto Real. Sem dúvida que os homens da Montanha continuavam a chocalhar lá por dentro como outras tantas ervilhas secas no interior de uma armadura, mas não eram os homens ideais para devolver o Tridente à paz do rei. A única paz que o bando de Sor Gregor alguma vez dera a alguém era a paz da sepultura. Os batedores de Sor Addam tinham relatado que os portões de Harrenhal se encontravam fechados e trancados. Jaime enfileirou os seus homens à frente deles e ordenou a Sor Kennos de Kayce para fazer soar o Corno de Herrock, negro, retorcido e ligado com ouro velho.

Depois de três sopros terem ecoado nas muralhas, ouviram o gemido de dobradiças de ferro e os portões abriram-se lentamente. As muralhas da loucura do Harren Negro eram tão espessas que Jaime passou por baixo de uma dúzia de alçapões antes de emergir à súbita luz do sol no pátio onde dissera adeus aos Saltimbancos Sangrentos não havia assim tanto tempo.

Ervas daninhas brotavam da terra bem batida, e moscas zumbiam em volta da carcaça de um cavalo.

Um punhado dos homens de Sor Gregor emergiu das torres para o ver desmontar; homens de olhos e bocas duras, todos eles. Tinham de ser, para acompanhar a Montanha. O melhor que podia ser dito dos homens de Gregor era que não eram propriamente um bando tão vil e violento como os Bravos Companheiros.

— Que me fodam, é Jaime Lannister — exclamou um homem de armas cinzento e grisalho. — É o raio do Regicida, rapazes. Que eu seja fodido por uma lança!

— E você quem é? — perguntou Jaime.

— O sor costumava me chamar Boca de Merda, se agradar ao senhor. — Cuspiu nas mãos e limpou a cara com elas, como se aquilo de algum modo o deixasse mais apresentável.

— Encantador. É você quem comanda aqui?

— Eu? Não, merda. Senhor. Que me enrabem com a porra duma lança. — O Boca de Merda tinha na barba migalhas suficientes para alimentar a guarnição. Jaime teve de se rir. O homem tomou aquilo como encorajamento. — Que me enrabem com a porra duma lança — voltou a dizer, e também se pôs a rir.

— Ouviram o homem — disse Jaime a Ilyn Payne. — Arranjem uma boa e longa lança e enfiem-na pelo cu acima.

Sor Ilyn não tinha uma lança, mas o Jon Imberbe Bettley lhe tirou uma de bom grado. O riso ébrio do Boca de Merda parou abruptamente.

— Mantém a merda dessa coisa longe de mim.

— Vê se decida — disse Jaime. — Quem tem aqui o comando? Sor Gregor nomeou um castelão?

— Polliver — disse outro homem — só que o Cão de Caça o matou, senhor. A ele e ao Cócegas, e àquele moço Sarsfield.

Outra vez o Cão de Caça.

— Sabe que foi Sandor? Você o viu?

— Nós não, senhor. O estalajadeiro nos disse.

— Aconteceu na estalagem do entroncamento, senhor. — Quem falou foi um homem mais novo, com um matagal de cabelo cor de areia.

Usava a corrente de moedas que em tempos pertencera a Vargo Hoat; moedas de meia centena de cidades distantes, de prata e ouro, de cobre e bronze, moedas quadradas e moedas redondas, triângulos e anéis e bocados de osso. — O estalajadeiro jurou que o homem tinha um lado da cara todo queimado. As rameiras dele contaram a mesma história. Sandor tinha um rapaz qualquer com ele, um moço esfarrapado do campo. Fizeram Polly e Cócegas em bocados sangrentos e foram embora pelo Tridente abaixo.

— Mandaram homens atrás deles?

O Boca de Merda franziu o sobrolho, como se a ideia fosse dolorosa.

— Não, senhor. Que nos fodam a todos, não mandamos.

— Quando um cão enlouquece, se corta a garganta dele.

— Bem — disse o homem, esfregando a boca — eu nunca gostei muito do Polly, esse merda, e o cão, o gajo era irmão do Sor, de modo que…

— Nós somos maus, senhor — interrompeu o homem que usava as moedas — mas é preciso ser doido para enfrentar o Cão de Caça.