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— Julgo que os seus dias de exibição tenham ficado para trás — disse — mas se ela levanta tantas objeções, eu a levo. — Supunha que podia fazer dela uma lavadeira. Os seus escudeiros não se importavam de lhe montar a tenda, de lhe tratar do cavalo ou de lhe limpar a armadura, mas a tarefa de lhe cuidar da roupa era vista por eles como pouco viril. — Você é capaz de defender Harrenhal apenas com a sua Santa Centena? — perguntou Jaime. Na verdade deviam chamá-los Santos Oitenta e Seis, visto terem perdido catorze homens na Água Negra, mas não havia dúvida de que Sor Bonifer recomporia as fileiras assim que encontrasse recrutas suficientemente pios.

— Não prevejo dificuldades. A Velha nos iluminará o caminho, e o Guerreiro dará força aos nossos braços.

Ou então, o Estranho aparecerá em busca de todo o vosso santo bando. Jaime não tinha a certeza de quem convencera a irmã de que Sor Bonifer devia ser nomeado castelão de Harrenhal, mas a nomeação cheirava a Orton Merryweather. Julgava lembrar-se vagamente de que Hasty servira em tempos passados o avô de Merryweather. E o administrador de justiça de cabelo cor de cenoura era mesmo o tipo de pateta simplório capaz de partir do princípio de que alguém chamado “o Bom” era a exata poção de que as terras fluviais necessitavam para sarar as feridas deixadas por Roose Bolton, Vargo Hoat e Gregor Clegane.

Mas talvez não se engane. Hasty provinha das terras da tempestade, de modo que não tinha nem amigos nem inimigos ao longo do Tridente; não havia contendas de sangue, não havia dívidas a pagar, não havia companheiros a recompensar. Ele era sóbrio, justo e cumpridor, não havia nos Sete Reinos soldados melhor disciplinados do que os seus Santos Oitenta e Seis e davam um belo espetáculo quando faziam os seus grandes castrados cinzentos rodopiar e empinar-se. Mindinho dissera um dia, em gracejo, que Sor Bonifer devia ter também castrado os cavaleiros, de tal modo imaculada era a sua reputação.

Mesmo assim, Jaime duvidava de quaisquer soldados que fossem mais conhecidos pelos seus lindos cavalos do que pelos inimigos que tivessem morto. Eles rezam bem, suponho, mas serão capazes de lutar? Não se tinham desonrado na Água Negra, tanto quanto sabia, mas também não se tinham distinguido. O próprio Sor Bonifer fora um cavaleiro prometedor na juventude, mas algo lhe acontecera, uma derrota, uma desonra ou uma visão próxima da morte, e depois disso decidira que justar era uma vaidade vazia e pusera definitivamente a lança de lado.

Mas Harrenhal tem de ser controlado, e aqui o Baelor Olho-do-Cu é o homem que Cersei escolheu para o controlar.

— Este castelo tem má reputação — preveniu-o — e uma reputação que foi bem merecida. Diz-se que Harren e os filhos ainda vagueiam de noite pelos salões, incendiados. Aqueles que os contemplam rebentam em chamas.

— Não temo sombras, sor. Está escrito na Estrela de Sete Pontas que espíritos, criaturas de além-túmulo e morto-vivos não podem fazer mal a um homem piedoso, desde que ele esteja coberto pela armadura da sua fé.

— Então se arme de fé, com certeza, mas use também um lorigão e placa de aço. Todos os homens que controlam este castelo parecem ter mau fim. A Montanha, o Bode, até o meu pai…

— Se perdoar a ousadia, eles não eram homens devotos, como nós somos. O Guerreiro protege-nos, e a ajuda está sempre próxima, caso algum terrível inimigo nos ameace. O Meistre Gulian ficará aqui com os seus corvos, Lorde Lancel está perto, em Darry, com a sua guarnição, e o Lorde Randyll controla Lagoa da Donzela. Juntos, nós três perseguiremos e destruiremos quaisquer foras da lei que percorram esta região. Depois disso feito, os Sete guiarão o bom povo de volta às suas aldeias, para arar a terra, plantá-la e reconstruir.

Aqueles que o Bode não matou, pelo menos. Jaime enganchou a haste do seu cálice de vinho nos dedos de ouro.

— Se algum dos Bravos Companheiros de Hoat sair das mãos me mande avisar imediatamente. — O Estranho podia ter-se escapulido com o Bode antes de Jaime arranjar a oportunidade para tratar dele, mas o gordo Zollo ainda andava por aí, com Shagwell, Rorge, o Fiel Urswyck e os outros.

— Para que você possa torturá-los e matá-los?

— Suponho que você os perdoaria, se estivesse no meu lugar?

— Se se arrependessem sinceramente dos seus pecados… sim, os abraçaria a todos como irmãos e rezaria com eles antes de os mandar para o cepo. Os pecados podem ser perdoados. Os crimes requerem punição. — Hasty fechou as mãos à sua frente fazendo com elas uma espécie de campanário, de um modo que fez com que Jaime se lembrasse desconfortavelmente do pai. — Se for Sandor Clegane que encontrarmos, o que quer que eu faça?

Reze muito, pensou Jaime, e fuja.

— O mande juntar-se ao seu querido irmão, e fique feliz por seus deuses terem criado sete infernos. Só um nunca seria suficiente para conter ambos os Clegane. — Pôs-se desajeitadamente em pé. — Beric Dondarrion é diferente. Se o capturar, mantenha-o preso até o meu regresso. Vou querer levá-lo para Porto Real com uma corda em volta do pescoço, e ordenar a Sor Ilyn que lhe corte a cabeça onde metade do reino possa ver.

— E o tal sacerdote de Myr que o acompanha? Diz que espalha a sua falsa fé por todo o lado.

— Mate-o, beije-o ou reze com ele, como quiser.

— Não tenho qualquer desejo de beijar um homem, senhor.

— Não tenho dúvidas de que ele diria o mesmo de você. — O sorriso de Jaime transformou-se num bocejo. — Perdão. Irei me retirar, se não tiverdes objeções.

— Nenhuma senhor — disse Hasty. Certamente queria rezar.

Jaime queria lutar. Atacou os degraus dois a dois, até onde o ar da noite fosse frio e vivificante. No pátio iluminado por archotes, o Varrão Forte e Sor Flement Brax defrontavam-se enquanto um anel de homens de armas os aclamavam. Sor Lyle levará a melhor nesta luta, compreendeu.

Tenho de encontrar Sor Ilyn. Tinha de novo a comichão nos dedos. Os seus passos afastaram-no do ruído e da luz. Passou por baixo da ponte coberta e atravessou o Pátio das Lâminas antes de se dar conta do local para onde se dirigia.

Ao aproximar-se da arena dos ursos, viu o brilho de uma lanterna e a pálida luz invernal que ela derramava sobre as fileiras de íngremes bancos de pedra. Alguém chegou antes de mim, segundo parece. A arena seria um belo local para dançar; talvez Sor Ilyn se tivesse antecipado.

Mas o cavaleiro em pé junto à arena era maior; um homem rude e barbudo com um sobretudo vermelho e branco adornado com grifos.

Connington. Que ele está fazendo aqui? Lá em baixo, a carcaça do urso ainda jazia na areia, embora só restassem os ossos e a pele esfarrapada, meio enterradas. Jaime sentiu uma pontada de piedade pelo animal. Pelo menos morreu em batalha.

— Sor Ronnet — chamou — Você se perdeu? É um grande castelo, bem sei.

O Ronnet, o Vermelho ergueu a lanterna.

— Quis ver o local onde o urso dançou com a donzela não muito bela. — A barba do homem brilhava à luz como se estivesse em fogo. Jaime sentiu o cheiro de vinho no seu hálito. — É verdade que a moça dançou nua?

— Nua? Não. — Perguntou a si próprio como teria essa prega sido adicionada à história. — Os Saltimbancos enfiaram-na num vestido de seda cor-de-rosa e meteram-lhe uma espada de torneio na mão. O Bode queria que a sua morte fosse divertida. Se assim não fosse…

—… a visão de Brienne nua poderia ter feito o urso fugir aterrorizado — Connington soltou uma gargalhada. Jaime não.

— Fala como se conhecesse a senhora.

— Estive prometido a ela.