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Faz-lhes lembrar que um dia nasceram como homens comuns, e não gostam disso.

— O senhor meu esposo disse-me que este novo nasceu com porcaria debaixo das unhas.

— Suspeito que sim. Como regra, os mais devotos elevam um dos seus, mas houve exceções. — O Grande Meistre Pycelle informara-a da história, com um detalhe entediante. — Durante o reinado do Rei Baelor, o Abençoado, um simples pedreiro foi escolhido como Alto Septão. O homem trabalhava a pedra de forma tão bela que Baelor decidiu que era o Ferreiro renascido em carne mortal. Não sabia ler nem escrever, nem era capaz de se recordar das palavras da mais simples das preces. Ainda há quem diga que o Mão de Baelor mandou envenenar o homem para poupar embaraços ao reino. Depois desse morrer, foi elevado um rapaz de oito anos, de novo por insistência do Rei Baelor. Vossa Graça declarou que o rapaz operava milagres, embora nem mesmo as suas pequenas mãos curandeiras tivessem salvo Baelor durante o seu último jejum.

A Senhora Merryweather soltou uma gargalhada.

— Oito anos? Talvez o meu filho possa ser Alto Septão. Tem quase sete.

— Ele reza muito? — perguntou a rainha.

— Prefere brincar com espadas.

— Então é um rapaz a sério. É capaz de dizer o nome de todos os sete deuses?

— Julgo que sim.

— Terei de levá-lo em consideração. — Cersei não duvidava de que havia uma grande quantidade de rapazes que honrariam mais a coroa de cristal do que o desgraçado a quem os mais devotos haviam decidido concedê-la. Isto é o que acontece quando se deixa que idiotas e covardes se governem a si próprios. Da próxima vez, eu escolherei o seu chefe. E a próxima vez podia não demorar muito a chegar, se o novo Alto Septão continuasse a aborrecê-la. A Mão de Baelor tinha pouco a ensinar a Cersei Lannister em assuntos como esse.

Desimpedi o caminho! — estava Sor Osmund Kettleblack a gritar. — Abram alas para a Graça da Rainha!

A liteira começou a abrandar, o que só podia querer dizer que estavam perto do topo da colina.

— Deveria trazer esse seu filho para a corte — disse Cersei à Senhora Merryweather. — Seis anos não é novo demais. Tommen precisa de outros rapazes à sua volta. Porque não o seu filho? — Joffrey nunca tivera um amigo íntimo da sua idade, que se lembrasse. O pobre rapaz sempre esteve só. Eu tinha Jaime quando era criança… e Melara, até ela cair ao poço. Joff gostara do Cão de Caça, certamente, mas isso não era amizade.

Procurava o pai que nunca encontrara em Robert. Um irmãozinho adotivo pode ser precisamente aquilo de que Tommen precisa para o afastar de Margaery e das suas galinhas. Há seu tempo podiam tornar-se tão chegados como Robert e o seu amigo de infância, Ned Stark. Um tolo, mas um tolo leal. Tommen precisará de amigos leais que lhe vigiem a retaguarda.

— Vossa Graça é bondosa, mas Russell nunca conheceu outro lar além de Mesalonga. Temo que se sentiria perdido nesta grande cidade.

— A princípio, sim — concedeu a rainha — mas em breve ultrapassaria isso, tal como eu ultrapassei. Quando o meu pai mandou trazer-me para a corte chorei e Jaime enfureceu-se, até que a minha tia se sentou comigo no Jardim de Pedra e me disse que não havia ninguém em Porto Real que eu devesse temer. “És uma leoa”, disse, “e cabe a todas as feras menores temer-te a ti”. O seu filho também encontrará a sua coragem. Decerto que preferia tê-lo por perto, onde pudesse vê-lo todos os dias. É o seu único filho, não é?

— Por agora. O senhor meu esposo pediu aos deuses para nos abençoarem com outro, para o caso de…

— Eu sei. — Pensou em Joffrey, arranhando o pescoço. Nos seus últimos momentos olhara-a num apelo desesperado, e uma súbita recordação parara-lhe o coração, uma gota de sangue rubro a silvar na chama de uma vela, uma voz coaxante que falava de coroas e mortalhas, de morte às mãos do valonqar.

Fora da liteira, Sor Osmund estava a gritar qualquer coisa, e alguém gritava-lhe em resposta. A liteira parou com um solavanco.

— Estão todos mortos? — rugiu o Kettleblack. — Saiam da porcaria do caminho!

A rainha puxou para trás um canto da cortina e chamou Sor Meryn Trant com um gesto.

— O que é que se passa?

— São os pardais, Vossa Graça.

Sor Meryn usava armadura de escamas brancas por baixo do manto.

O seu elmo e escudo estavam pendurados na sela.

— Acampados na rua. Farei eles se mexerem.

— Faça-o, mas com gentileza. Não quero ser apanhada noutro tumulto. — Cersei deixou a cortina cair. — Isto é absurdo.

— Pois é, Vossa Graça — concordou a Senhora Merryweather. — O Alto Septão devia ter vindo ter contigo. E estes deploráveis pardais…

— Ele alimenta-os, acarinha-os, abençoa-os. E no entanto não quer abençoar o rei. — Sabia que a bênção era um ritual vazio, mas os rituais e as cerimônias tinham poder aos olhos dos ignorantes. O próprio Aegon, o Conquistador, determinara que o início do seu reinado se dera no dia em que o Alto Septão o ungira em Vilavelha.

— Este miserável sacerdote irá obedecer, caso contrário ficará a saber quão fraco e humano ainda é.

— Orton diz que o que ele realmente quer é ouro. Que pretende reter a bênção até que a coroa reate os pagamentos.

— A Fé terá o seu ouro assim que tivermos paz.

O Septão Torbert e o Septão Raynard tinham-se mostrado muito compreensivos relativamente à sua promessa… ao contrário dos malditos bravosianos que haviam perseguido o pobre Lorde Gyles tão desapiedadamente que ele caíra de cama, tossindo sangue. Tínhamos de ter aqueles navios. Não podia depender da Árvore para a marinha, os Redwyne eram demasiado próximos dos Tyrell. Precisava das suas próprias forças no mar. Os dromones que se erguiam no rio iriam dá-las. O navio almirante teria duas vezes mais remos do que o Martelo do Rei Robert. Aurane pedira-lhe autorização para lhe chamar Lorde Tywin, a qual Cersei ficara feliz por conceder. Esperava com antecipação ouvir os homens falar do casco e remos do pai. Outro dos navios ia se chamar Doce Cersei, e teria uma figura de proa dourada, esculpida à sua semelhança, vestida de cota de malha, com um elmo de leão e uma lança na mão. Valente Joffrey, Senhora Joanna e Leoa iam segui-la para o mar, em conjunto com Rainha Margaery, Rosa Dourada, Lorde Renly, Senhora Olenna e Princesa Myrcella.

A rainha cometera o erro de dizer a Tommen que podia batizar os últimos cinco. Ele chegara a escolher Rapaz Lua para um deles. Só quando Lorde Aurane sugerira que os homens talvez não quisessem servir num navio batizado em honra de um bobo é que o rapaz concordara relutantemente em honrar a irmã.

— Se este septão esfarrapado planeja obrigar-me a comprar a bênção de Tommen, em breve aprenderá umas coisas — disse a Taena. A rainha não tencionava submeter-se a uma matilha de sacerdotes. A liteira voltou a parar, tão subitamente que Cersei se sobressaltou.

— Oh, isto é de enfurecer.

— Voltou a debruçar-se para fora, e viu que tinham chegado ao topo da Colina de Visenya. Em frente erguia-se o Grande Septo de Baelor, com a sua magnífica cúpula e sete torres brilhantes, mas entre si e os degraus de mármore, estendia-se um soturno mar de humanidade, castanho, esfarrapado e sujo. Pardais, pensou, fungando, embora nenhum pardal tivesse tido algum dia cheiro tão fétido. Cersei ficou espantada. Qyburn trouxera-lhe relatórios acerca da quantidade de pardais, mas ouvir falar dos números era uma coisa e vê-los outra. Centenas estavam acampadas na praça, mais centenas nos jardins. As suas fogueiras enchiam o ar de fumo e maus cheiros. Tendas de ráfia e cabanas miseráveis feitas de lama e bocados de madeira sujavam o imaculado mármore branco. Estavam até aninhados nos degraus, sob as altas portas do Grande Septo. Sor Osmund regressou a trote para junto dela. A seu lado seguia Sor Osfryd, montado num garanhão tão dourado como o seu manto. Osfryd era o Kettleblack do meio, mais calado do que os irmãos, mais inclinado a franzir a sobrancelha do que a sorrir. E também mais cruel, se as histórias forem verdadeiras. Talvez devesse tê-lo enviado para a Muralha.