Выбрать главу

O Grande Meistre Pycelle quisera um homem mais velho, “mais experiente nos usos da guerra”, para comandar os homens de mantos dourados, e vários dos outros conselheiros tinham concordado com ele.

— Sor Osfryd tem suficiente experiência — dissera-lhes, mas nem mesmo isso os calara. Ladram-me como uma matilha de cãezinhos irritantes. Já praticamente esgotara a paciência com Pycelle. O homem até tivera a temeridade de levantar objeções quando falara em mandar buscar um mestre de armas em Dorne, com o argumento de que isso poderia ofender os Tyrell.

— Porque julgais que eu o estou a fazer? — perguntara-lhe desdenhosamente.

— Perdão, Vossa Graça — disse Sor Osmund.

— O meu irmão chamou mais homens de mantos dourados.

Abriremos uma passagem, não tenha medo.

— Não tenho tempo. Prosseguirei a pé.

— Por favor, Vossa Graça. Taena pegou-lhe no braço. — Eles assustam me. São centenas, e tão sujos.

Cersei beijou lhe o rosto.

— O leão não teme o pardal… mas é bom que os preocupem. Eu sei que gosta bastante de mim, senhora. Sor Osmund, tenha a bondade de me ajudar a descer. — Se soubesse que ia ter de caminhar, teria me vestido a rigor. Trazia um vestido branco fendido com pano de ouro, rendado mas recatado. Tinham-se passado vários anos desde a última vez que o envergara, e a rainha achava-o desconfortavelmente apertado na cintura.

— Sor Osmund, Sor Meryn, acompanhem-me. Sor Osfryd, assegure-se de que nada de mal aconteça à minha liteira. — Alguns dos pardais pareciam suficientemente descarnados e de olhos vazios para lhe comer os cavalos.

Enquanto abria caminho através da multidão esfarrapada, passando pelas suas fogueiras, carroças e rudes abrigos, a rainha deu por si a recordar outra multidão que um dia se reunira naquela praça. No dia em que casara com Robert Baratheon, milhares tinham aparecido para os aclamar. Todas as mulheres usavam as suas melhores roupas, e metade dos homens tinham crianças aos ombros. Quando emergira de dentro do septo, de mão dada com o jovem rei, a multidão soltara um rugido tão ruidoso que poderia ter sido ouvido em Lannisporto.

— Eles gostam bastante de você, senhora — murmurara-lhe Robert ao ouvido. — Veja, todos os rostos estão a sorrir.

Durante aquele curto momento, fora feliz no casamento… até calhar deitar um relance a Jaime. Não, lembrava-se de ter pensado, não são todos os rostos, senhor. Ninguém estava agora a sorrir. Os olhares que os pardais lhe deitavam eram mortiços, carrancudos, hostis. Abriam caminho, mas com relutância . Se fossem mesmo pardais, um grito os teria posto a voar. Uma centena de homens de mantos dourados com bordões, espadas e maças limparia esta gentalha bem depressa. Seria isso que Lorde Tywin teria feito.

Ele teria cavalgado por cima deles, em vez de caminhar através da populaça. Quando viu o que tinham feito a Baelor, o Adorado, a rainha teve motivos para se arrepender do seu coração suave. A grande estátua de mármore, que levara cem anos a sorrir serenamente sobre a praça, estava enterrada até à cintura numa pilha de ossos e crânios. Alguns dos crânios mostravam bocados de carne ainda agarrada. Um corvo encontrava-se pousado em num desses crânios, desfrutando de um banquete seco e com uma consistência de couro. Havia moscas por todo o lado.

— Que significa isto? — perguntou Cersei à multidão. — Pretendem enterrar o Abençoado Baelor numa montanha de carniça?

Um homem perneta deu um passo em frente, apoiado numa muleta de madeira.

— Vossa Graça, esses são os ossos de homens e mulheres santos, assassinados devido à sua fé. Septões, septãs, irmãos castanhos, pardos e verdes, irmãs brancas, azuis e cinzentas. Alguns foram enforcados, outros esventrados. Septos foram pilhados, donzelas e mães violadas por homens ímpios e adoradores de demônios. Até irmãs silenciosas foram molestadas.

A Mãe no Céu chora em angústia. Trouxemos os seus ossos de todo o reino até aqui, para servir de testemunho à agonia da Santa Fé.

Cersei sentia o peso dos olhos em cima de si.

— O rei saberá dessas atrocidades — respondeu solenemente.

— Tommen partilhará de sua indignação. Isto é obra de Stannis e da sua bruxa vermelha, e dos nortenhos selvagens que adoram árvores e lobos.

Ergueu a voz.

Bom povo, os vossos mortos serão vingados!

Alguns aclamaram, mas só alguns.

— Não pedimos vingança pelos nossos mortos — disse o perneta — apenas proteção para os vivos. Para os septos e lugares santos.

— O Trono de Ferro tem de defender a Fé — resmungou um corpulento labrego com uma estrela de sete pontas pintada na testa.

— Um rei que não protege o seu povo não é rei nenhum. — Murmúrios de assentimento ergueram-se daqueles que o rodeavam. Um homem teve a temeridade de agarrar no pulso de Sor Meryn e dizer:

— É tempo de todos os cavaleiros ungidos renunciarem aos seus senhores terrenos e defenderem a nossa Santa Fé. Junte-se a nós, sor, se amas os Sete.

— Tire as mãos de cima de mim — disse Sor Meryn, libertando-se com uma sacudidela.

— Estou ouvindo — disse Cersei. — O meu filho é jovem, mas ama bastante os Sete. Terão a sua proteção e a minha.

O homem com a estrela na testa não se mostrou aplacado.

— O Guerreiro iria nos defender — disse — não esse rapaz-rei gordo. Meryn Trant estendeu a mão para a espada, mas Cersei parou-o antes que a desembainhasse. Tinha apenas dois cavaleiros no meio de um mar de pardais. Via bordões e gadanhas, clavas e mocas, vários machados.

— Não quero sangue derramado neste lugar sagrado, sor. — Porque serão todos os homens umas crianças tão grandes? Abate-o, e os outros irão desfazer-nos membro a membro.

— Somos todos filhos da Mãe. Venha, Sua Alta Santidade nos espera.

Mas ao abrir caminho na direção dos degraus do septo, um bando de homens armados saiu e bloqueou as portas. Usavam cota de malha e couro fervido, com um bocado de placa amolgada de aço aqui e ali. Alguns traziam lanças e outros espadas. Eram mais os que preferiam os machados, e tinham estrelas vermelhas cosidas nos seus sobretudos branqueados. Dois deles tiveram a insolência de cruzar as lanças e barrar lhe a passagem.

— É assim que recebem a sua rainha? — perguntou-lhes. — Digam-me, onde estão Raynard e Torbert?

Não era hábito desses dois perderem uma oportunidade para a adular. Torbert fazia sempre alarde de se pôr de joelhos para lhe lavar os pés.

— Não conheço os homens de quem fala — disse um dos homens com uma estrela vermelha no sobretudo — mas se pertencerem à Fé, sem dúvida que os Sete tiveram necessidade dos seus serviços.