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— O Septão Raynard e o Septão Torbert pertencem aos Mais Devotos — disse Cersei — e ficarão furiosos quando souberem que me obstruíram a passagem. Pretende negar-me a entrada no septo sagrado de Baelor?

— Vossa Graça — disse um homem de barba grisalha com um ombro curvado. — Você é bem vinda aqui, mas os seus homens deverão deixar ficar os cintos das espadas. Não são permitidas armas lá dentro, por ordens do Alto Septão.

— Cavaleiros da Guarda Real não põem de lado as suas espadas, nem mesmo na presença do rei.

— Na casa do rei, deverá reinar a palavra do rei — respondeu o cavaleiro idoso — mas esta é a casa dos deuses.

A cor subiu-lhe ao rosto. Bastaria dizer uma palavra a Meryn Trant e aquele grisalho de costas arqueadas iria encontrar-se com os seus deuses mais cedo do que talvez preferisse. Mas aqui não. Agora não.

— Esperem por mim — disse secamente à Guarda Real. Sozinha, subiu os degraus. Os lanceiros descruzaram as lanças. Outros dois homens encostaram o seu peso às portas, e elas afastaram-se com um grande rangido.

No Salão das Lâmpadas, Cersei foi encontrar uma vintena de septões de joelhos, mas não em oração. Tinham baldes de água e sabão, e estavam a esfregar o chão. As suas vestes de tecido grosseiro e sandálias levaram Cersei a toma-los por pardais, até que um deles ergueu a cabeça. Tinha a cara vermelha como uma beterraba, e bolhas rebentadas sangravam nas suas mãos.

— Vossa Graça.

— Septão Raynard? — A rainha quase não conseguia crer no que estava a ver. — O que faz de joelhos?

— Está a limpar o chão. — O homem que falou era vários centímetros mais baixo do que a rainha e magro como um pau de vassoura.

— O trabalho é uma forma de prece, muito do agrado do Ferreiro. — O homem pôs-se em pé, de escova na mão. — Vossa Graça. Temos estado à sua espera. A barba do homem era grisalha e castanha e cortada curta, o cabelo atado num nó apertado por trás da cabeça. Embora as vestes que envergava estivessem limpas, estavam também puídas e remendadas.

Enrolara as mangas até aos cotovelos enquanto esfregara o chão, mas abaixo dos joelhos o pano estava encharcado em água. A cara era fortemente pontiaguda, com olhos encovados de um castanho de lama. Os pés dele estão nus, viu Cersei, consternada. E também eram hediondos, umas coisas duras e coriáceas, tornadas grossas por calos.

— És a Sua Alta Santidade?

— Somos.

Pai, daí-me forças. A rainha sabia que devia ajoelhar, mas o chão estava molhado com sabão e água suja, e ela não desejava estragar o vestido.

Deitou um relance aos velhos de joelhos.

— Não vejo o meu amigo, o Septão Torbert.

— O Septão Torbert foi confinado a uma cela de penitente, a pão e água. É um pecado que um homem seja tão gordo quando metade do reino passa fome.

Cersei já aguentara o suficiente por um dia. Deixou-o ver a sua ira.

— É assim que me cumprimenta? Com uma escova na mão, a pingar água? Sabeis quem eu sou?

— Vossa Graça é a Rainha Regente dos Sete Reinos — disse o homem — mas na Estrela de Sete Pontas está escrito que tal como os homens se dobram perante os seus senhores e os senhores perante os seus reis, assim os reis e as rainhas devem dobrar-se perante os Sete Que São Um Só. — Estará ele a dizer-me para ajoelhar? Se assim fosse, não a conhecia muito bem.

— O certo seria que tivésseis ido cumprimentar-me na escada, com as suas melhores vestes e a coroa de cristal na cabeça.

— Não temos qualquer coroa, Vossa Graça.

A sua sobrancelha franziu-se mais.

— O senhor meu pai deu ao seu antecessor uma coroa de rara beleza, trabalhada em cristal e ouro tecido.

— E por essa dádiva honramo-lo nas nossas preces — disse o Alto Septão — mas os pobres precisam mais de comida na barriga do que nós precisamos de ouro e cristal na cabeça. Essa coroa foi vendida. O mesmo aconteceu às outras que tínhamos nas caves, bem como a todos os nossos anéis e vestes de pano de ouro e prata. A lã manterá os homens igualmente quentes. Foi para isso que os Sete nos deram as ovelhas.

Ele é completamente louco. Os Mais Devotos deviam estar também loucos, para elegerem aquela criatura… loucos ou aterrorizados pelos pedintes que lhes batiam à porta. Os informadores de Qyburn diziam que o Septão Luceon estava a nove votos da eleição quando aquelas portas tinham cedido, e uma torrente de pardais entrara no Grande Septo, com o seu líder aos ombros e machados nas mãos.

Fitou o homenzinho com um olhar gelado.

— Há algum lugar onde possamos falar com mais privacidade, Vossa Santidade?

O Alto Septão entregou a escova a um dos Mais Devotos.

— Se Vossa Graça nos quiser seguir… Levou-a através das portas interiores, entrando no septo propriamente dito. Os passos de ambos ecoaram no chão de mármore. Partículas de pó dançavam nos feixes de luz colorida que entravam em diagonal pelos vitrais da grande cúpula. Incenso adoçava o ar, e ao lado dos sete altares brilhavam velas como se fossem estrelas. Um milhar tremeluzia para a Mãe e quase outras tantas para a Donzela, mas era possível contar as velas do Estranho com duas mãos e ainda se ficaria com dedos por usar. Até aquele local os pardais tinham invadido. Uma dúzia de cavaleiros andantes mal vestidos estava ajoelhada perante o Guerreiro, suplicando-lhe que abençoasse as espadas que tinham empilhado aos seus pés. No altar da Mãe, um septão liderava as preces de uma centena de pardais, com vozes tão distantes como ondas a bater na costa. O Alto Septão levou Cersei até onde a gelha erguia a sua lanterna.

Quando ajoelhou perante o altar, ela não teve outra hipótese que não fosse ajoelhar a seu lado. Misericordiosamente, aquele Alto Septão não era tão prolixo como o gordo fora. Suponho que deva sentir-me grata por isso. Sua Alta Santidade não fez qualquer movimento para se erguer quando terminou a prece. Parecia que teriam de conferenciar de joelhos. Um estratagema de homem pequeno, pensou, divertida.

— Alta Santidade — disse — estes pardais estão a assustar a cidade.

Quero que vão embora.

— Para onde irão , Vossa Graça?

Há sete infernos, qualquer um servirá.

— Para o lugar de onde vieram, imagino.

— Eles vieram de todo o lado. Tal como o pardal é o mais humilde e comum dos pássaros, eles são os mais humildes e comuns dos homens. — Eles são comuns, pelo menos nisso concordamos.

—Viu o que fizeram à estátua do Abençoado Baelor? Eles conspurcam a praça com os seus porcos, cabras e dejetos noturnos.

— É mais fácil lavar dejetos noturnos do que sangue, Vossa Graça.

Se a praça foi conspurcada, foi pela execução que aqui aconteceu. — Ele atreve-se a atirar-me Ned Stark à cara?

— Todos a lamentamos. Joffrey era jovem, e não tão sensato como poderia ser. Lorde Stark devia ter sido decapitado noutro lugar, por respeito ao Abençoado Baelor… mas o homem era um traidor, que não o esqueçamos.

— O Rei Baelor perdoou aqueles que conspiraram contra si. — Rei Baelor aprisionou as suas próprias irmãs, cujo único crime era serem belas. Da primeira vez que Cersei ouvira contar essa história, dirigira-se ao berçário de Tyrion e beliscara o monstrinho até o pôr a chorar.

Devia ter-lhe apertado o nariz e enfiado uma meia na sua boca.