Forçou-se a sorrir.
— O Rei Tommen também perdoará aos pardais, depois de eles regressarem a suas casas.
— A maior parte deles perdeu a casa. Há sofrimento por todo o lado… e luto, e morte. Antes de vir para Porto Real, cuidava de meia centena de aldeolas, demasiado pequenas para terem o seu próprio septo. Caminhava de uma aldeia até à seguinte, celebrando casamentos, absolvendo pecadores dos seus pecados, batizando crianças recém nascidas. Essas aldeias já não existem, Vossa Graça. Ervas daninhas e espinheiros crescem onde os jardins em tempos floriram, e ossos juncam as bermas das estradas.
— A guerra é uma coisa terrível. Essas atrocidades são obra dos nortenhos, e de Lorde Stannis e seus adoradores de demônios.
— Alguns dos meus pardais falam de bandos de leões que os espoliaram… e do Cão de Caça, que era um homem juramentado a você. Em Salinas matou um septão idoso e atacou uma rapariga de doze anos, uma criança inocente prometida à Fé. Usou a armadura enquanto a violava, e a terna carne da menina foi rasgada e esmagada pelo ferro da cota de malha.
Quando acabou, deu-a aos seus homens, que lhe cortaram o nariz e os mamilos.
— Sua Graça não pode ser responsabilizada pelos crimes de todos os homens que um dia serviram a Casa Lannister. Sandor Clegane é um traidor e um bruto. Porque julga que o demiti do meu serviço? Ele agora luta pelo fora da lei Beric Dondarrion, não pelo Rei Tommen.
— É como diz. E no entanto tenho que perguntar o seguinte: por onde andavam os cavaleiros do rei quando estas coisas estavam a acontecer?
Não é verdade que Jaehaerys, o Conciliador, um dia jurou pelo próprio Trono de Ferro que a coroa protegeria e defenderia sempre a Fé?
Cersei não fazia ideia do que Jaehaerys, o Conciliador, poderia ter jurado.
— É verdade — concordou — e o Alto Septão abençoou-o e ungiu-o como rei. É tradicional que cada novo Alto Septão dê ao rei a sua bênção…
e no entanto você se recusou a abençoar o Rei Tommen.
— Vossa Graça está enganada. Nós não recusamos.
— Não veio.
— A hora ainda não está madura.
É um sacerdote, ou um vendedor de hortaliças?
— E o que poderei eu fazer para a tornar… mais madura? — Se ele se atrever a mencionar ouro, lidarei com este como lidei com o último, e encontrarei um piedoso miúdo de oito anos para usar a coroa de cristal.
— O reino está cheio de reis. Para que a Fé exalte um acima dos demais temos de ter a certeza. Há trezentos anos, quando Aegon, o Dragão, desembarcou no sopé desta mesma colina, o Alto Septão trancou-se no interior do Septo Estrelado de Vilavelha e rezou durante sete dias e sete noites, sem ingerir nada além de pão e água. Quando saiu, anunciou que a Fé não se oporia a Aegon e às irmãs, pois a Velha erguera a sua lanterna e mostrara-lhe o caminho em frente. Se Vilavelha pegasse em armas contra o Dragão, Vilavelha arderia, e a Torre alta, a Cidadela e o Septo Estrelado seriam derrubados e destruídos. Lorde Hightower era um homem devoto.
Quando ouviu a profecia, manteve as suas forças em casa e abriu os portões da cidade a Aegon quando ele chegou. E Sua Alta Santidade ungiu o Conquistador com os sete óleos. Eu devo fazer o que ele fez, há trezentos anos. Devo rezar e jejuar.
— Durante sete dias e sete noites?
— Durante o tempo que for necessário.
Cersei sentiu vontade de esbofetear a solene e pia cara do homem.
Podia te ajudar a jejuar, pensou. Podia trancar-te em alguma torre e assegurar-me de que ninguém te traria comida até os deuses falarem.
— Aqueles falsos reis abraçam falsos deuses — fez-lhe lembrar.
— Só o Rei Tommen defende a Santa Fé.
— E no entanto, os septos são queimados e saqueados por toda a parte. Até irmãs silenciosas foram violadas, gritando a sua angústia até ao céu. Vossa Graça viu os ossos e crânios dos nossos santos mortos?
— Vi — teve de dizer. — Dai a Tommen a sua bênção, e poremos fim a essas afrontas.
— E como farei tal coisa, Vossa Graça? Enviará um cavaleiro para percorrer as estradas com cada irmão mendicante? Irá nos dar homens para defender as nossas septãs contra os lobos e os leões?
Vou fazer de conta que não falou de leões.
— O reino está em guerra. Sua Graça tem necessidade de todos os homens. —Cersei não tencionava esbanjar as forças de Tommen para fazer de ama seca a pardais, ou para proteger as conas enrugadas de um milhar de septãs. Metade delas estão provavelmente a rezar por uma boa violação.
— Os seus pardais têm cacetes e machados. Que eles defendam a si próprios.
— As leis do Rei Maegor proíbem-no, como Vossa Graça deve saber. Foi por decreto seu que a Fé pousou as espadas.
— Agora o rei é Tommen, não Maegor. — Que lhe importava o que Maegor, o Cruel, decretara trezentos anos antes? Em vez de tirar as espadas das mãos dos fiéis, devia tê-las usado para os seus próprios fins. Apontou para onde o Guerreiro se erguia por cima do seu altar de mármore vermelho.
— O que é que ele tem na mão?
— Uma espada.
— Ele esqueceu-se de como usa-la?
— As leis de Maegor...
—... podem ser desfeitas. — Deixou aquilo pairar entre ambos, esperando que o Alto Septão engolisse a isca.
Ele não a desiludiu.
— A Fé Militante renascida… isso seria a resposta para trezentos anos de preces, Vossa Graça. O Guerreiro voltaria a erguer a sua espada brilhante e limparia este pecaminoso reino de todo o mal. Se Sua Graça me permitisse restaurar as antigas ordens abençoadas da Espada e da Estrela, todos os homens devotos dos Sete Reinos saberiam que ele é o nosso senhor legítimo e verdadeiro. — Aquilo era bom de ouvir, mas Cersei teve o cuidado de não parecer muito ávida.
— Vossa Alta Santidade falou há pouco de perdão. Nestes tempos conturbados, o Rei Tommen ficaria muito grato se pudesse arranjar maneira de perdoar a dívida da coroa. Parece-me que devemos à Fé cerca de novecentos mil dragões.
— Novecentos mil, seiscentos e setenta e quatro dragões. Ouro que poderia alimentar os famintos e reconstruir um milhar de septos.
— É ouro o que deseja? — perguntou a rainha. — Ou será que prefere ver aquelas poeirentas leis de Maegor postas de lado?
O Alto Septão refletiu naquilo por um momento.
— Como quiser. Essa dívida será perdoada, e o Rei Tommen terá a sua bênção. Os Filhos do Guerreiro irão me escoltar até ele, brilhando na glória da sua Fé, enquanto os meus pardais partem para defender os dóceis e humildes do mundo, renascidos como Pobres Irmãos, como antigamente. —
A rainha pôs-se em pé e alisou as saias.
— Mandarei preparar os papéis, e Sua Graça irá assina-los e dar-lhes o selo real. — Se havia alguma parte de ser rei que Tommen adorava, era brincar com o seu selo.
— Que os Sete protejam Sua Graça. Que tenha um longo reinado.
O Alto Septão fez das mãos um campanário e ergueu os olhos para o céu.
— Que os malvados tremam!
Esta a ouvir isto, Lorde Stannis? Cersei não conseguiu impedir-se de sorrir. Nem mesmo o senhor seu pai poderia ter se saído melhor. De um golpe, livrara Porto Real da praga dos pardais, assegurara a bênção de Tommen, e diminuíra a dívida da coroa em quase um milhão de dragões.
Tinha o coração a pairar bem alto quando permitiu que o Alto Septão a acompanhasse de regresso ao Salão das Lâmpadas. A Senhora Merryweather partilhou o deleite da rainha, embora nunca tivesse ouvido falar dos Filhos do Guerreiro ou dos Pobres Irmãos.
— Datam de antes da Conquista de Aegon — explicou-lhe Cersei.
— Os Filhos do Guerreiro eram uma ordem de cavaleiros que renunciavam às suas terras e ouro e juramentavam as espadas a Sua Alta Santidade. Os Pobres Irmãos… eram mais humildes, apesar de muito mais numerosos. Uma espécie de irmãos mendicantes, embora transportassem machados em vez de tigelas. Vagueavam pelas estradas, escoltando viajantes de septo em septo e de vila em vila. O seu símbolo era a estrela de sete pontas, vermelha sobre branco, de modo que o povo simples lhes chamava Estrelas. Os Filhos do Guerreiro usavam mantos arco-íris e armadura embutida de prata por cima de cilícios, e traziam cristais em forma de estrela nos botões do punho das espadas. Esses eram as Espadas. Homens santos, ascetas, fanáticos, feiticeiros, matadores de dragões, caçadores de demônios… havia muitas histórias acerca deles. Mas todos concordam que eram implacáveis no seu ódio por todos os inimigos da Santa Fé. — A Senhora Merryweather compreendeu de imediato.