Escudogris, Escudo verde e Escudosul caíram antes de o Sol nascer. Escudo de Carvalho resistiu mais meio dia. E quando os homens dos Quatro Escudos desistiram da perseguição movida a Torwold e ao Remador Vermelho e viraram para jusante, foram encontrar a Frota de Ferro à sua espera na foz do Vago.
— Tudo aconteceu como Euron disse — disse Victarion à morena enquanto ela lhe ligava a mão com linho. — Os seus feiticeiros devem tê-lo visto. — O irmão tinha três a bordo do Silêncio, confidenciara Quellon Humble num murmúrio. — Mas ainda precisa de mim para travar as suas batalhas — insistiu Victarion. — Os feiticeiros podem ser muito bons, mas é o sangue e o aço que vence as guerras. — O vinagre fez o ferimento doer mais do que nunca. Afastou a mulher com um empurrão e fechou o punho, carrancudo. — Traga-me vinho.
Bebeu na escuridão, matutando no irmão. Se não der o golpe com a minha própria mão, serei na mesma um fratricida? Não havia homem que Victarion temesse, mas a maldição do Deus Afogado fazia-o hesitar. Se for outro a abatê-lo às minhas ordens, o seu sangue manchará também as minhas mãos? Aeron Cabelo Molhado saberia a resposta, mas o sacerdote estava em algum lugar nas Ilhas de Ferro, ainda com esperança de amotinar os nascidos no ferro contra o seu rei recém coroado. Nute, o Barbeiro, é capaz de barbear um homem com um machado arremessado de vinte metros de distância. E nenhum dos mestiços de Euron conseguiria resistir a Wulfe Uma Orelha ou a Andrik, o Sério. Qualquer deles poderia fazer. Mas sabia que o que um homem pode fazer e o que um homem quer fazer eram duas coisas diferentes.
— As blasfêmias de Euron farão cair à fúria do Deus Afogado sobre todos nós — profetizara Aeron, ainda em Velha Wyk. — Temos de detê-lo, irmão. Ainda somos do sangue de Balon, não somos?
— Ele também é — dissera Victarion. — Não gosto disto mais do que você, mas Euron é o rei. A sua assembleia de homens livres elegeu-o, e foi você mesmo quem lhe pôs na cabeça a coroa de madeira trazida pelo mar!
— Eu coloquei a coroa na cabeça — dissera o sacerdote, com algas a pingar no cabelo. — E de bom grado voltaria a arrancá-la e te coroaria no seu lugar. Só você tem força suficiente para lutar contra ele.
— Foi o Deus Afogado que o elevou — protestara Victarion. — Que seja o Deus Afogado a derrubá-lo.
Aeron deitara-lhe um olhar sinistro, o olhar que tinha fama de tornar imprópria a água de poços e deixar estéreis as mulheres.
— Não foi o deus que falou. Sabe-se que Euron tem feiticeiros e magos malignos naquele seu navio vermelho. Eles atiraram algum feitiço sobre nós, para não conseguirmos ouvir o mar. Os capitães e os reis estavam bêbados com toda aquela conversa de dragões.
— Bêbados, ou com medo daquele corno. Ouviu o som que ele fez.
Mas não importa. Euron é o nosso rei.
— Meu não — declarara o sacerdote. — O Deus Afogado ajuda os valentes, não aqueles que se aninham dentro dos navios quando a tempestade chega. Se não quer se mexer para remover o Olho de Corvo da Cadeira da Pedra do Mar, tenho de ser eu a pôr as mãos à obra.
— Como? Não tem navios e não tem espadas.
— Tenho a minha voz — respondeu o sacerdote. — E o deus está comigo. É minha a força do mar, uma força à qual o Olho de Corvo não pode esperar resistir. As ondas podem quebrar-se na montanha, mas continuam a vir onda atrás de onda, e no fim só restarão pedregulhos onde esteve a montanha. E em breve até os pedregulhos serão varridos para longe, para o chão sob o mar para toda a eternidade.
— Pedregulhos? — Resmungara Victarion. — Está louco se pensa em derrubar o Olho de Corvo com conversas sobre ondas e pedregulhos.
— Os nascidos no ferro serão as ondas — dissera o Cabelo Molhado. — Não os grandes e senhores, mas o povo simples, os que lavram a terra e os que pescam no mar. Os capitães e os reis fizeram subir Euron, mas o povo o derrubará. Irei a Grande Wyk, a Harlaw, a Montrasgo, à própria Pyke. As minhas palavras serão ouvidas em cada vila e aldeia.
Nenhum homem sem deus pode sentar-se na Cadeira da Pedra do Mar! — Abanara a cabeça peluda e penetrara a passos largos na noite. Quando o sol se ergueu no dia seguinte, Aeron Greyjoy desaparecera da Velha Wyk. Nem mesmo os seus afogados sabiam para onde. Dizia-se que o Olho de Corvo se limitara a rir quando o disseram.
Embora o sacerdote tivesse desaparecido, os seus terríveis avisos tinham ficado. Victarion deu-se a lembrar-se também das palavras de Baelor Blacktyde. “Balon era louco, Aeron é mais louco ainda, e Euron é o mais louco de todos.” O jovem senhor tentara zarpar para casa após a assembléia de homens livres, recusando-se a aceitar Euron como suserano. Mas a Frota de Ferro fechara a baía, pois o hábito da obediência estava profundamente enraizado em Victarion Greyjoy, e Euron usava a coroa de madeira trazida pelo mar. O Voador da Noite fora apreendido, e o Lord Blacktyde entregue agrilhoado ao rei. Os mudos e mestiços de Euron tinham-no cortado em sete partes, para alimentar os sete deuses das terras verdes que ele adorara. Como recompensa pelo seu leal serviço, o recém coroado rei dera a Victarion a morena, roubada de algum mercador de escravos a caminho de Lys.
— Não quero nenhuma das suas sobras — dissera desdenhosamente ao irmão, mas quando o Olho de Corvo dissera que a mulher seria morta se não a aceitasse, fraquejara. A língua dela tinha sido arrancada, mas tirando essa parte o restante estava intacto, e era também bela, com uma pele tão castanha como teca oleada. Mas por vezes, quando a olhava, dava-se lembrando da primeira mulher que o irmão lhe dera, para fazer dele um homem.
Victarion quis voltar a usar a morena, mas achou-se incapaz.
— Vai me buscar outro odre de vinho — disse. E depois saia.
Quando ela regressou com um odre de um tinto amargo, o capitão levou-o para o convés, onde podia respirar o ar limpo do mar. Bebeu metade do odre e despejou o resto no mar para todos os homens que tinham morrido.
O Vitória de Ferro permaneceu durante horas ao largo da foz do Vago. Enquanto a maior parte da Frota de Ferro se punha a caminho de Escudorroble, Victarion manteve o Luto, o Lorde Dagon, o Vento de Ferro e a Desgraça da Donzela ao seu redor como retaguarda. Içaram sobreviventes do mar, e viram o Mão Dura afundar lentamente, arrastada para o fundo pelo destroço que abalroara. Quando o navio desapareceu sob as águas, Victarion tinha a contagem que pediu. Perdeu seis navios, e capturou trinta e oito.
— Servirá — disse a Nute. — Aos remos. Regressamos à Vila do Lorde Hewett.
Os remadores esforçaram as costas em direção a Escudorroble, e o capitão de ferro voltou a ir para baixo.
— Podia matá-lo — disse à morena. — Embora seja um grande pecado matar um rei, e um pecado pior matar um irmão. — Franziu as sobrancelhas. — Asha teria me dado a sua voz. — Como ela podia ter esperado conquistar os capitães e os reis com as suas pinhas e nabos? O
sangue de Balon corre-lhe nas veias, mas não deixa de ser uma mulher.
Fugiu após a assembleia dos homens livres. Na noite em que a coroa de madeira trazida pelo mar foi colocada na cabeça de Euron, ela e a sua tripulação tinham desaparecido. Uma pequena parte de Victarion sentia-se satisfeita com isso. Se a mulher mantiver a cabeça no lugar, casará com algum lorde nortenho e viverá com ele no seu castelo, longe do mar e de Euron Olho de Corvo.