Lorde Victarion. Sim, e porque não? Podia não ser a Cadeira da Pedra do Mar, mas seria alguma coisa. Hotho Harlaw estava do outro lado da mesa chupando carne de um osso. Jogou-o fora com um peteleco e dobrou-se para a frente.
— O Cavaleiro vai ficar com Escudogris. O meu primo. Sabia?
— Não. — Victarion olhou para o outro lado do salão, para onde Sor Harras Harlaw bebia vinho de uma taça dourada; um homem alto, de rosto comprido e austero. — Porque daria Euron uma ilha para aquele?
Hotho ergueu a sua taça de vinho vazia e uma pálida jovem com um vestido de veludo azul e renda dourada voltou a enchê-la.
— O Cavaleiro tomou Vila Severa sozinho. Plantou o estandarte junto ao castelo e desafiou os Grimm a enfrentá-lo. Um o fez, depois outro, e outro a seguir. Matou-os a todos… Bem, quase, dois renderam-se. Quando o sétimo homem caiu, o septão do Lorde Grimm decidiu que os deuses tinham falado e entregou o castelo. — Hotho soltou uma gargalhada. — Ele vai ser Senhor de Escudogris, e que lhe faça bom proveito. Com ele longe, sou eu o herdeiro do Leitor. — Bateu no peito com a taça de vinho. — Hotho, o Corcunda, Senhor de Harlaw.
— Sete você diz. — Victarion perguntou a si próprio como Anoitecer se aguentaria contra o seu machado. Nunca lutara contra um homem armado com uma lâmina de aço valiriano, embora tivesse sovado muitas vezes o jovem Harras Harlaw quando ambos eram jovens. Em rapaz, Harlaw fora um grande amigo do filho mais velho de Balon, Rodrik, que morrera à sombra das muralhas de Guardamar. O banquete era bom. O vinho era dos melhores, e havia boi assado, mal passado e em sangue, e também pato recheado e baldes de caranguejo fresco. O Senhor Comandante não deixou de reparar que as servas usavam finas lãs e luxuosos veludos.
Tomou-as por ajudantes de cozinha cativas com as roupas da Senhora Hewett e das suas damas, até que Hoth lhe disse que eram a Senhora Hewett e as suas damas. Eram oito: sua senhoria, ainda bem aparentada embora tivesse ganhado alguma robustez, e sete mulheres mais jovens com idades entre os vinte e cinco e os dez anos, suas filhas e noras.
Lord Hewett, em pessoa, estava sentado no seu lugar habitual sobre o estrado, vestido com todos os seus enfeites heráldicos. Os braços e as pernas tinham sido atados à cadeira, e um enorme rabanete branco fora enfiado entre os seus dentes para que não pudesse falar… embora pudesse ver e ouvir. Olho de Corvo ocupara o lugar de honra à mão direita de sua senhoria. Tinha uma moça bonita e roliça de dezessete ou dezoito anos no colo, descalça e desgrenhada, com os braços em volta do seu pescoço.
— Quem é aquela? — Perguntou Victarion aos homens que o rodeavam.
— A bastarda de sua senhoria — disse Hotho com uma gargalhada.
— Antes de Euron tomar o castelo, era obrigada a servir os outros à mesa e fazer as refeições com os criados.
Euron levou os lábios azuis ao pescoço da rapariga, e ela soltou um risinho e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Sorrindo, ele voltou a beijar-lhe a garganta. A pele branca da rapariga estava coberta de marcas vermelhas onde a boca dele estivera; formavam um colar rosado em volta do seu pescoço e ombros. Outro sussurro ao ouvido, e desta vez o Olho de Corvo riu alto, após o que bateu com a taça de vinho na mesa, pedindo silêncio.
— Boas senhoras! — Gritou para as suas criadas bem nascidas. —Falia está preocupada com os vossos belos vestidos. Não quer vê-los manchados de gordura, vinho e apalpadelas de dedos sujos, visto que lhe prometi que podia escolher a sua roupa entre os seus guarda-roupas depois do banquete. Portanto o melhor é que vocês tirem-nos.
Um rugido de gargalhadas varreu o grande salão, e a cara do Lorde Hewett ficou tão vermelha que Victarion julgou que a sua cabeça se arrebentaria.
As mulheres não tiveram alternativa senão obedecer. A mais nova chorou um pouco, mas a mãe a confortou e a ajudou a desfazer os nós pelas costas abaixo. Depois, continuaram a servir como antes, movendo-se entre as mesas com jarros cheios de vinho para encher todas as taças vazias, só que agora o faziam nuas.
Ele envergonha Hewett como em tempos me envergonhou, pensou o capitão, recordando-se do modo como a esposa soluçara enquanto ele a espancava. Sabia que os habitantes dos Quatro Escudos se casavam frequentemente entre si, tal como os filhos do ferro. Uma daquelas criadas 525
nuas podia perfeitamente ser esposa de Sor Talbert Serry. Uma coisa era matar um inimigo, outra era desonrá-lo. Victarion fez um punho. Tinha a mão ensanguentada onde o ferimento empapara o linho.
No estrado, Euron empurrou a sua cadela para o lado e pulou em cima da mesa. Os capitães puseram-se a bater com as taças na mesa e a bater os pés no chão.
— EURON! G ritavam. EURON! EURON! EURON! — Era de novo a assembleia de homens livres.
— Jurei lhes dar Westeros. — Disse o Olho de Corvo quando o tumulto diminuiu. — E aqui vocês têm um pouco para saborear. Um bocado, nada mais do que isso… Mas nos banquetearemos antes do cair da noite! —
Os archotes ao longo das paredes soltavam um brilho vivo, e ele também, lábios azuis, olho azul e tudo. — O que a lula gigante agarra não larga. Estas ilhas foram em tempos nossas, e agora são de novo… Mas precisamos de homens fortes para defendê-las. Portanto erga-se, Sor Harras Harlaw, Senhor de Escudogris. — O Cavaleiro pôs-se de pé, com uma mão apoiada no botão de pedra da lua do Anoitecer. — Erga-se, Andrik, o Sério, Senhor de Escudossul. — Andrik empurrou as suas mulheres para o lado e se levantou de um salto, como uma montanha que se erguesse súbita do mar. — Erga-se, Maron Volmark, Senhor de Escudoverde. — Um rapazinho sem barba de dezesseis anos, Volmark pôs-se hesitantemente em pé, parecendo um senhor dos coelhos. — E erga-se, Nute, o Barbeiro, Senhor de Escudorroble.
Os olhos de Nute puseram-se cautelosos, como se ele temesse estar a ser alvo de um gracejo cruel.
— Um lorde? — Grasnou.
Victarion esperara que Olho de Corvo entregasse as senhorias às suas criaturas, ao Mão de Pedra, ao Remador Vermelho e ao Lucas Mao Esquerda. Um rei tem de ser pródigo, tentou dizer a si próprio, mas outra voz sussurrou: Os presentes de Euron estão envenenados. Quando revirou a ideia na cabeça, viu-o com clareza. O Cavaleiro era o herdeiro escolhido pelo Leitor, e Andrik, o Sério, o forte braço direito de Dunstan Drumm.
Volmark é um rapaz inexperiente, mas tem em si o sangue do Harren Negro por via materna. E o Barbeiro…
Victarion agarrou-o pelo antebraço.
— Recuse!
Nute olhou-o como se tivesse enlouquecido.
— Recusar? Terras e uma senhoria? Você me fará um senhor? — Libertou o braço com um puxão e pôs-se de pé, gozando os vivas.
E agora rouba-me os homens, pensou Victarion.
O Rei Euron chamou pela Senhora Hewett para que lhe trouxesse uma nova taça de vinho e ergueu-a bem alto acima da cabeça.
— Capitães e reis! Ergam suas taças aos Senhores dos Quatro Escudos! — Victarion bebeu com os outros. Não há vinho mais doce do que o vinho roubado de um inimigo. Alguém lhe disse isso um dia. O pai, ou o irmão Balon. Um dia beberei o teu vinho, Olho de Corvo, e lhe roubarei tudo o que lhe é querido. Mas haveria alguma coisa que fosse querida a Euron?
— Amanhã nos prepararemos novamente para zarpar. Estava o rei dizendo. —Encham as barricas de novo com água da nascente, levem todas as sacas de cereais e barris de carne de vaca e tantas ovelhas e cabras que possamos transportar. Os feridos que ainda estiverem suficientemente vigorosos para puxar por um remo, remarão. Os outros ficarão aqui, para ajudar a manter estas ilhas nas mãos dos seus novos senhores. Torwold e o Remador Vermelho regressarão em breve com mais provisões. Os nossos conveses irão feder a porcos e galinhas na viagem para leste, mas regressaremos com dragões.