— Quando? — A voz era a do Lorde Rodrik. — Quando regressaremos, Vossa Graça? Dentro de um ano? Três anos? Cinco? Os seus dragões estão a um mundo de distância, e o outono chegou. — O Leitor avançou, enumerando todos os perigos. — Galés defendem os Estreitos Redwyne. A costa dornesa é seca e estéril, quatrocentas léguas de redemoinhos, falésias e baixios escondidos, quase desprovida de um desembarcadouro seguro seja onde for. Depois, nos esperam os Degraus, com as suas tempestades e os seus ninhos de piratas lisenos e miranos. Se um milhar de navios se fizer à vela, trezentos poderão chegar ao outro lado do mar estreito… E então, o quê? Lys não nos dará as boas vindas, e Volantis tampouco. Onde encontraremos água doce e alimentos? A primeira tempestade nos dispersará por metade da terra.
Um sorriso brincou nos lábios azuis de Euron.
— Eu sou a tempestade, senhor. A primeira tempestade e a última.
Levei o Silêncio em viagens mais longas do que esta, e em viagens muito mais perigosas. Você se esqueceu? Naveguei pelo Mar Fumegante e vi Valíria.
Todos os presentes sabiam que a Destruição ainda reinava em Valíria. Ali, o próprio mar fervia e fumegava, e a terra fora invadida por demônios. Dizia-se que qualquer marinheiro que sequer vislumbrasse as montanhas de fogo de Valíria a se erguendo acima das ondas morreria rapidamente de uma morte terrível, e no entanto Olho de Corvo estivera lá e regressara.
— Ah vistes? — Perguntou o Leitor, tão suavemente.
O sorriso azul de Euron eclipsou-se.
— Leitor. — Disse, no meio do silêncio — faria você melhor se mantivesse o nariz nos seus livros.
Victarion conseguia sentir o constrangimento no salão. Pôs-se em pé.
— Irmão — trovejou. — Não respondeste às perguntas de Harlaw.
Euron encolheu os ombros.
— O preço dos escravos esta subindo. Venderemos os nossos escravos em Lys e Volantis. Isso e o saque que capturamos aqui nos dará ouro suficiente para comprar provisões.
— Agora somos traficantes de escravos? — Perguntou o Leitor. —
E para quê? Dragões que nenhum dos presentes viu? Deveremos perseguir a fantasia de um marinheiro bêbado qualquer até ao longínquo fim da terra?
As suas palavras geraram resmungos de assentimento.
— A Baía dos Escravos é longe demais — gritou Ralf, o Coxo.
— E perto demais de Valíria! — Gritou Quellon Humble. Fralegg, o Forte, disse:
— Jardim de Cima é perto. Procuremos por dragões ali, digo eu. Da espécie dourada!
Alvyn Sharp disse:
— Para quê navegar pelo mundo quando temos o Vago à nossa frente? — O Ralf Vermelho Stonehouse pôs-se de pé num salto.
— Vilavelha é mais rica, e a Árvore ainda mais. A frota Redwyne anda para longe. Só temos de estender a mão para colher a mais madura fruta de Westeros.
— Fruta? — O olho do rei parecia mais negro do que azul. — Só um covarde rouba um fruto quando pode tomar o pomar.
— É a Árvore que queremos. — Disse o Ralf Vermelho, e outros homens acompanharam-no no grito. Olho de Corvo deixou-se varrer pelos gritos. Então saltou da mesa, agarrou a sua cadela pelo braço, e arrastou-a para fora do salão.
Fugiu como um cão. O controle de Euron sobre a Cadeira da Pedra do Mar pareceu de súbito não estar tão firme como estivera momentos antes.
Eles não o seguirão até à Baía dos Escravos. Talvez não sejam tão cães e tolos como eu temi. Aquilo era uma ideia tão alegre que Victarion teve de empurrá-la para baixo. Esvaziou uma taça com o Barbeiro, para lhe mostrar que não lhe tinha má vontade pela senhoria, mesmo tendo vindo da mão de Euron.
Lá fora, o sol se pôs. A escuridão reuniu-se para lá das paredes, mas dentro delas os archotes ardiam com um brilho alaranjado, e o fumo que deitavam concentrava-se sob as vigas do telhado como uma sombra cinzenta.
Bêbados puseram-se a dançar a dança dos dedos. A certa altura, o Lucas Mao Esquerda Codd decidiu que desejava uma das filhas do Lorde Hewett, e possuiu-a sobre a mesa enquanto as irmãs gritavam e soluçavam.
Victarion sentiu uma pancada no ombro. Um dos filhos mestiços de Euron estava na sua frente, um rapaz de dez anos com um cabelo lanoso e a pele da cor da lama.
— O meu pai quer falar com você.
Victarion ergueu-se, pouco firme. Era um homem grande, com uma vasta capacidade para o vinho, mas mesmo assim bebera demasiado.
Espanquei-a até à morte com as minhas próprias mãos, pensou, mas o Olho de Corvo matou-a quando se enfiou nela. Eu não tive alternativa. Seguiu o pequeno bastardo para fora do salão e pela espiral de uma escada em pedra acima. Os sons da violação e da festança foram diminuindo à medida que subiam, até restar apenas o suave raspar das botas em pedra.
Olho de Corvo ocupara o quarto do Lorde Hewett com a sua filha bastarda. Quando Victarion entrou, a rapariga estava estendida nua na cama, a ressonar baixinho. Euron se encontrava de pé junto à janela, bebendo de uma taça de prata. Usava o manto de zibelina que tirara de Blacktyde, a pala de couro e nada mais.
— Quando era rapaz, sonhei que podia voar. — Anunciou. —Quando acordei, não podia… Ou pelo menos foi o que o meistre disse. Mas e se ele mentiu?
Victarion sentia o cheiro do mar que entrava pela janela aberta, embora o quarto fedesse a vinho, sangue e sexo. O frio ar salgado ajudou a limpar-lhe a cabeça.
— Que você quer dizer com isso? — Euron virou-se para encará-lo, com os magoados lábios azuis encurvados em um meio sorriso. — Talvez possamos voar. Todos nós. Como saberemos a menos que saltemos de uma torre alta qualquer?
O vento entrava em rajadas pela janela e sacudia-lhe o manto de zibelina. Havia algo de obsceno e perturbador na sua nudez.
— Não há homem nenhum que realmente saiba o que pode fazer a menos que se atreva a saltar.
— Está ali a janela. Salta. — Victarion não tinha paciência para aquilo. A mão ferida estava a incomodá-lo. — O que é que você quer?
— O mundo. — A luz da lareira cintilou no olho de Euron. O seu olho sorridente. — Aceita uma taça do vinho do Lorde Hewett? Não há vinho cuja doçura chegue aos calcanhares daquele que é tirado de um adversário derrotado.
— Não. — Victarion afastou o olhar. — Cubra-se.
Euron sentou-se e deu um torção ao manto, de modo a cobrir-lhe as virilhas.
— Tinha me esquecido de como os meus filhos do ferro são uma gente pequena e barulhenta. Quero lhes trazer dragões, e eles gritam por uvas.
— As uvas são reais. Um homem pode empanturrar-se de uvas. O seu sumo é doce, e fazem vinho. O que fazem os dragões?
— Angústia. — Olho de Corvo bebericou da sua taça de prata. — Uma vez tive um ovo de dragão nesta mão, irmão. Um feiticeiro de Myr jurou que conseguia faze-lo eclodir se lhe desse um ano e todo o ouro que me pedisse. Quando me cansei das suas desculpas, matei-o. Enquanto o homem observava as entranhas a deslizando-se por entre os dedos, disse:
“Mas não se passou um ano. ” Soltou uma gargalhada. Cragorn morreu, sabe?
— Quem?
— O homem que soprou o meu corno de dragão. Quando o meistre o abriu, tinha os pulmões carbonizados, negros como fuligem.
Victarion estremeceu.
— Mostra-me esse ovo de dragão.
— Atirei-o ao mar durante um dos meus humores negros. — Euron encolheu os ombros. — Ocorreu-me que o Leitor não se enganava. Uma frota grande demais nunca poderá manter-se unida ao longo de uma tal distância. A viagem é longa demais, e demasiado perigosa. Só os nossos melhores navios e tripulações podem esperar viajar até à Baía dos Escravos e voltar. A Frota de Ferro.