— Eu só estava… lembrando. — Sua garganta estava seca. — Você é uma boa amiga, Taena. Não tenho uma verdadeira amizade desde...
Alguém bateu com força à porta.
De novo? A urgência do som a fez estremecer. Terão mais mil navios caído sobre nós? Escorregou para dentro de seu manto e foi ver quem era.
— Perdão por perturbar Vossa Graça — o guarda disse — mas a Senhora Stokeworth está lá embaixo, implorando uma audiência.
— A esta hora? — falou Cersei. — Será que Falyse perdeu o juízo?
Diga a ela que eu estou deitada. Que plebeus estão sendo chacinados nos Escudos. Que fui acordada no meio da noite. Irei vê-la pela manhã.
O guarda hesitou.
— Se Vossa Graça me permite, ela… ela não está com uma boa aparência, se é que você me entende.
Cersei franziu a testa. Assumiu que Falyse estava ali para dizer que Bronn estava morto. — Muito bem. Vou precisar me vestir. Leve ela ao meu aposento privado e diga que me aguarde. — Quando a Senhora Merryweather levantou para ir junto, a rainha objetou. — Não, fique. Uma de nós deve descansar um pouco pelo menos. Eu não deverei demorar.
O rosto da Senhora Falyse estava machucado e inchado, os olhos vermelhos de tanto chorar. O lábio inferior estava cortado, sua roupa suja e rasgada.
— Pela bondade dos deuses — disse Cersei levando-a para dentro do seu aposento e fechando a porta. — O que aconteceu com seu rosto?
Falyse pareceu não ouvir a pergunta.
— Ele o matou — disse numa voz trêmula. — Mãe, tenha misericórdia, ele… ele… — Ela desabou em soluços, com o corpo tremendo.
Cersei despejou vinho em um copo e levou para mulher que chorava.
— Beba isto. O vinho a acalmará. Isso. Um pouco mais. Pare de chorar e me diga por que está aqui.
Foi preciso um jarro inteiro até que a rainha finalmente conseguisse arrancar toda a triste história da Senhora Falyse. Uma vez que tinha ouvido, não sabia se ria ou gritava.
— Um combate singular — repetiu. Não há ninguém nos Sete Reinos em que eu realmente possa confiar? Sou a única em Westeros com uma pitada de juízo? — Você está me dizendo que Sor Balman desafiou Bronn para um combate singular?
— Ele disse que isso seria s-s-simples. A lança é a uma arma de ca-cavaleiro, ele disse, e B-Bron não é um verdadeiro cavaleiro. Balman disse que ia derrubá-lo do cavalo e acabar com ele assim que ele caísse at-at-atordoado.
Bronn não é nenhum cavaleiro, isso era verdade. Bronn é um assassino endurecido pela batalha. O cretino do seu marido escreveu sua própria sentença de morte.
— Um plano esplêndido. Posso me atrever a perguntar o que deu errado?
— Bronn enfiou a lança no peito do pobre cavalo do Balman.
Balman, ele... suas pernas foram esmagadas quando a besta caiu. Ele gritou tão piedosamente...
Mercenários não tem piedade, Cersei poderia ter dito.
— Disse para encenar um acidente de caça. Uma flecha perdida, queda de cavalo, um furioso javali... há várias maneiras que um homem pode morrer numa mata. Nenhuma delas envolve lanças.
Falyse pareceu não ouvir.
— Quando tentei correr para o meu Balman, ele, ele, ele me bateu no rosto. Ele fez meu senhor confessar. Balman estava implorando por Meistre Frenken, para que o tratasse, mas o mercenário, ele, ele, ele...
— Confessar? — Cersei não gostou daquela palavra. — Acredito que nosso bravo Sor Balman controlou a língua.
— Bronn enfiou o punhal em seu olho, e me disse que era melhor eu ir embora de Stokeworth antes de o sol se pôr ou eu teria o mesmo. Disse que me entregaria a guarnição, se algum deles me quisesse. Quando ordenei que capturassem Bronn, um de seus cavaleiros teve a audácia de dizer que era melhor fazer o que o Lorde Stokeworth disse. O chamou de Lorde Stokeworth! — A Senhora Falyse agarrou a mão da rainha. — Vossa Graça têm que me dar cavaleiros. Uma centena de cavaleiros! E besteiros, para retomar o meu castelo. Stokeworth é meu! Eles nem sequer permitiram que eu pegasse as minhas roupas! Bronn disse que eram as roupas de sua esposa agora, todas as minhas sedas e veludos.
Seus trapos são os menores dos seus problemas. A rainha libertou seus dedos para longe do pegajoso aperto da outra mulher.
— Pedi para você que apagasse uma vela para ajudar a proteger o rei. Em vez disso você atira um frasco de fogo vivo nele. O idiota do seu Balman pôs meu nome nisso? Diga-me que não.
Falyse lambeu os lábios.
— Ele... ele estava com dor, suas pernas estavam quebradas. Bronn disse que teria misericórdia, mas... O que vai acontecer com minha pobre mãe? — Eu imagino que ela vai morrer.
— O que você acha? — Senhora Tanda poderia muito bem já estar morta. Bronn não parecia ser o tipo de homem que iria despender muito esforço cuidando de uma velha com o quadril quebrado.
— Você tem que me ajudar. Para onde eu irei? O que vou fazer?
Talvez você possa se casar com o Rapaz Lua, Cersei quase disse. Ele é quase tão tolo quanto o seu falecido marido. Não poderia arriscar uma guerra à porta de Porto Real, não agora.
— As irmãs silenciosas estão sempre felizes em receber viúvas — disse — Elas têm uma vida boa, uma vida de oração, contemplação e boas obras. Levam consolo para os vivos e paz para os mortos. — E também não falam. Não podia deixar a mulher andando pelos Sete Reinos, espalhando contos perigosos.
Falyse era surda para o bom senso.
— Tudo que fizemos, fizemos a serviço de Vossa Graça. Orgulhosos de sermos fieis. Você disse...
— Eu me lembro. — Cersei forçou um sorriso. — Ficará aqui conosco, minha senhora, até descobrirmos um jeito de conquistar seu castelo de volta. Deixe-me servi-la outro copo de vinho. Isso te ajudará a dormir.
Você está doente e com o coração enfermo, isso é fácil de perceber. Minha pobre Falyse. Isso, beba.
Enquanto sua convidada tomava o vinho, Cersei foi até a porta chamar suas aias. Disse a Dorcas para procurar Lorde Qyburn e trazê-lo quando o encontrasse. Despachou Jocelyn Swyft de volta para a cozinha.
— Traga pão e queijo, um pedaço de carne e algumas maçãs. E vinho. Temos sede.
Qyburn chegou antes da comida. A senhora Falyse tinha bebido outros três copos, e começava a adormecer, apesar de às vezes acordar e dar outro soluço. A rainha levou Qyburn de lado e contou-lhe da loucura de Sor Balman.
— Eu não posso deixar Falyse espalhando histórias sobre a cidade.
Sua dor a deixou fraca de espírito. Ainda precisa de mulheres para o seu... trabalho?
— Preciso, Vossa Graça. Os titereiros estão bastante gastos
— Leve ela e faça o que quiser, então. Mas, uma vez que tenha descido para as celas negras... Preciso dizer mais alguma coisa?
— Não, Vossa Graça. Eu compreendo.
— Ótimo. — A rainha sorriu novamente. — Querida Falyse. Meistre Qyburn está aqui. Ele te ajudará a descansar.
— Oh, — disse Falyse vagamente. — Oh, que bom.
Quando a porta se fechou atrás deles, Cersei colocou outro copo de vinho para si.
— Eu estou cercada por inimigos e imbecis, — disse. Não poderia confiar nem no seu próprio sangue, nem em Jaime, que tempos atrás tinha sido sua outra metade. Ele tinha prometido ser minha espada e escudo, e meu forte braço direito. Por que insiste em me irritar? Bronn certamente não era mais que um aborrecimento. Nunca acreditou de verdade que ele estava dando abrigo ao duende. Seu pequeno e deformado irmão era muito esperto para permitir que Lollys desse seu nome ao maldito bastardo que acabou de parir, tendo a certeza de que iria atrair a fúria da rainha sobre ela.