Cavalgaram ao largo do Ramo Vermelho até os restos de uma aldeia incendiada que haviam cruzado aquela tarde. Ali aconteceu sua dança noturna, entre pedras enegrecidas e cinzas frias e velhas. Durante um momento, Jaime tomou a iniciativa e se permitiu crer que talvez estivesse recuperando sua antiga habilidade. Talvez aquela noite fosse Payne quem iria dormir dolorido e ensanguentado.
Foi como se Sor Illyn tivesse lido seus pensamentos. Deteve o último golpe de Jaime, e lançou um contra-ataque que o fez retroceder até o rio, onde caiu contra a grama. Acabou de joelhos, com a espada do cavaleiro silencioso na garganta, enquanto que a sua havia se perdido entre as plantas.
À luz da lua, as marcas de varíola no rosto de Payne eram grandes como crateras. Emitiu aquele som abafado que talvez fosse uma gargalhada, e subiu a espada pelo pescoço de Jaime até que a ponta repousou entre os seus lábios. Logo retrocedeu e embainhou o aço.
Seria melhor que tivesse desafiado Raff, o Querido com uma puta nos ombros, pensou Jaime enquanto sacudia o barro da mão dourada. Uma parte dele tinha gana de arrancar essa inutilidade e atirá-la ao rio. Não servia pra nada, e a mão esquerda tampouco servia pra alguma coisa. Sor Illyn havia voltado com os cavalos, o deixando só para que se pusesse de pé. Pelo menos, ainda tenho duas pernas.
O último dia de viagem havia sido frio e ventoso. O vento sacudia os ramos das árvores nos bosques sem folhas e inclinava os pés de cana junto aos rios ao longo do Ramo Vermelho. Apesar da capa de inverno de lã da Guarda Real, Jaime sentia os dentes batendo contra o vento enquanto cavalgava com seu primo Daven. A tarde estava muito avançada quando avistaram Correrrio, que sobressaia no estreito cabo onde Pedregoso confluía com Ramo Vermelho. O castelo dos Tully parecia um grande navio de pedra cuja proa apontava rio abaixo. A luz tingia de vermelho e dourado os muros de arenito, que pareciam mais altos e grossos do que Jaime recordava.
Vai ser um osso duro de roer, pensou sombrio. Se o Peixe Negro não ouvia a voz da razão, teria que romper o juramento que havia feito a Catelyn Stark; o que havia feito ao seu rei tinha prioridade.
A barreira do rio e os três grandes acampamentos de cerco eram exatamente como lhe havia descrito seu primo. O de Sor Ryman Frey, ao norte do Pedregoso, era o maior, e também o mais desordenado. Um enorme andaime cinzento, alto como um gigante, se alçava por cima das tendas. Nele divisou uma figura solitária com uma corda em torno do pescoço.
Edmure Tully. Sentiu uma pontada de compaixão. É uma crueldade mantê-lo ali, de pé, dia após dia, com a corda no pescoço. Seria melhor se cortassem a sua cabeça e acabassem com isso de uma vez.
Por trás do andaime se estendiam tendas e fogueiras em um emaranhado desorganizado. Os Frey menores e seus cavaleiros haviam ocupado seus pavilhões rio acima, logo após as trincheiras de latrinas; rio abaixo haviam cabanas de barro, caravanas e carros de bois.
— Sor Ryman não quer que seus garotos se aborreçam, assim que lhes proporciona putas, rinhas de galos e caça de javalis. — lhe contou Daven. — E tem até um cantor. Nossa tia trouxe Wat Sorriso Branco de Lannisporto, acredita nisso? Assim que Ryman também tinha que ter um cantor para não ser menos. Que tal se fizermos uma armadilha no rio e afogarmos todos, primo?
Jaime observou os arqueiros que se moviam por trás das ameias nas muralhas do castelo. Por cima delas ondulavam os estandartes da casa Tully, com a truta de prata desafiante sobre um campo de goles azul. Mas na torre mais alta se via uma bandeira diferente, grande, branca, com o lobo gigante dos Stark.
— A primeira vez que vi Correrrio, era um escudeiro mais verde que a grama do verão. — disse Jaime a seu primo. — O velho Summer Crakehall me enviou para entregar uma mensagem; insistia que não se podia confiar num corvo. Lorde Hoster me reteve uma semana enquanto meditava sobre a resposta. Me sentou junto com sua filha Lysa em todas as refeições.
— Não me estranha que vestiu o branco. Eu teria feito o mesmo.
— Homem, Lysa não estava tão mal.
Na realidade, era uma jovem muito bonita, delicada, com lindos olhos e larga cabeleira castanha.
Mas era muito tímida. Ficava em silêncio a maior parte do tempo e tinha ataques de riso tontos; não tinha nada do fogo de Cersei. Sua irmã maior parecia mais interessante, mas Catelyn estava prometida a um nortenho, o herdeiro de Winterfell. De todos os modos, naquela idade não havia nenhuma garota que interessasse a Jaime tanto como o famoso irmão de Hoster, que havia ganhado fama combatendo aos Nove Pequenos Reis nos Degraus. Quando estava sentado na mesa, fazia caso omisso da pobre Lysa enquanto pressionava Brynden Tully para que lhe contasse anedotas de Maelys, o Monstruoso e o Príncipe de Ébano. Naquela época, Sor Brynden era mais jovem que eu agora, pensou Jaime. E eu era mais jovem que Peck.
A passagem mais próxima para cruzar o Ramo Vermelho estava corrente acima, mais pra lá do castelo. Para chegar ao acampamento de Sor Devan tiveram que atravessar a cavalo o de Emmom Frey, e passar pelos pavilhões dos senhores dos rios que haviam dobrado o joelho para voltar à paz do rei. Jaime se fixou nos estandartes de Lychester, Vance, Roote e Godbrook, nas bolotas da Casa Smallford e na donzela bailando de Lorde Piper, mas os que lhe deram o que pensar foram os que não viu. A águia prateada dos Mallister não estava por ali, nem tampouco o cavalo vermelho dos Bracken, o salgueiro dos Ryger nem as serpentes entrelaçadas dos Paege. Todos eles haviam renovado sua lealdade ao Trono de Ferro, mas não se haviam unido ao cerco. Jaime sabia que os Bracken estavam lutando contra os Blackwood: isso explicava sua ausência, mas os demais...
Nossos novos amigos não são tão amigos. Sua lealdade é superficial. Tinha que tomar Correrrio o quanto antes. Quanto mais durasse o cerco, mais Casas procurariam uma maneira de deixa-los, como Tytos Blackwood.
Na passagem, Sor Kennos de Kayce fez soar o Corno de Herrock.
Isso deveria atrair o Peixe Negro até as ameias. Sor Hugo e Sor Dermont guiaram Jaime até o outro lado do rio; os cascos de seus cavalos chapinharam nas lodosas águas avermelhadas enquanto estandarte branco da Guarda Real, e o leão e o veado de Tommen, ondulavam ao vento. O resto da coluna os seguia de perto.
O acampamento dos Lannister retumbava com o som dos martelos contra a madeira ali onde se alçava uma nova torre de assalto. Já havia outras duas terminadas, semicobertas com couro de cavalo sem curtir. Entre elas viu um aríete, um tronco de árvore com a ponta endurecida ao fogo, pendurado com cordas em uma estrutura de madeira.
Parece que meu primo não tem estado ocioso.
— Meu senhor, onde quer que monte a sua tenda? — lhe perguntou Peck.
— Ali, naquele aclive. — Apontou com a mão de ouro, ainda que não fosse o instrumento ideal para aquela tarefa. — As provisões e o equipamento aqui; os cavalos, do outro lado. Utilizaremos as latrinas, que tão amavelmente escavou o meu primo. Sor Addam, inspecione o nosso perímetro para ver se encontra algum ponto fraco. — Jaime não previa nenhum ataque, mas tampouco havia previsto o que aconteceu no Bosque dos Murmúrios.
— Chamo as doninhas para uma reunião do conselho de guerra? — perguntou Daven.
— Antes quero falar com o Peixe Negro. — Jaime fez um sinal a Jon Bettley, o careca, para que se aproximasse. — Busque um estandarte de paz e leve uma mensagem ao castelo. Informe a Sor Brynden Tully que quero falar com ele ao amanhecer. Me encontrarei na borda do fosso e nos reuniremos em sua ponte levadiça.