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— Talvez eu nunca visse um camelo — ela lhes dizia — mas eu reconheço a boceta de um camelo quando eu sinto o cheiro de uma.

De vez em quanto ela fazia alguém ficar com raiva, mas quando isso acontecia, ele tinha sua faca na mão. Ela a mantinha muito afiada, e sabia como usar também. Vermelho Roggo lhe mostrou uma tarde em Porto Feliz, enquanto ele esperava Lanna vir. Ele ensinou-lhe como escondê-la na manga e deslizá-la para fora quando precisasse, e como cortar uma bolsa de modo tão suave e rápido que todas as moedas cairiam antes que seu dono desse por falta delas. Isso era bom de saber, até mesmo o homem bondoso concordou; principalmente à noite, quando os bravosianos e ratos do telhado estavam para fora. Cat havia feito amigos ao longo do cais; carregadores e cantores, fabricantes de cordas e vendedores de velas, taverneiros, cervejeiros, padeiros, mendigos e prostitutas. Eles compraram amêijoas e berbigões dela, disseram contos verdadeiros de Bravos e contaram mentiras sobre suas vidas, e riam do jeito que ela falava ao tentar falar o bravosiano.

Ela nunca deixou que isso se tornasse um problema. Ao invés disso ela mostrou todos os figos, e lhes disseram que eram bocetas de camelo, o que os fez rugirem de tanto rir. Gyloro Dothare lhe ensinou canções sujas, e seu irmão Gyleno disse-lhe os melhores lugares para se pegar enguias. Os cantores fora dos navios lhe ensinaram como um herói se porta, e ensinou-lhe discursos de ‘O Som de Rhoyne’, ‘As Duas Esposas do Consquistador’ e a ‘Senhora Lusty do Comerciante’. Quill, o homenzinho de olhos tristes, que era responsável por todas as farças indecentes do navio, se ofereceu para ensiná-la como uma mulher beija, mas Tagganaro lhe bateu com um bacalhau e o fez parar. Cossomo, o Conjurador instruiu-a no passe de mágica. Ele podia engolir ratos e trazê-los de sua orelha.

— É mágica! — ele dizia.

— Não é — Cat disse. — O rato estava em sua manga o tempo todo.

Eu podia vê-lo se movendo. “Ostras, amêijoas e berbigão” Eram as palavras mágicas de Cat, e, como toda boa palavra mágica, elas podiam levá-la em quase todo lugar. Ela havia embarcado nos navios de Lys, Vilavelha e Porto de Ibben, e vendia suas ostras direto no convés. Alguns dias ela rolava seu carrinho de mão sob as torres dos poderosos para oferecer mariscos cozidos aos guardas em seus portões. Uma vez ela gritou suas mercadorias nos degraus do Palácio da Verdade, e quando outro vendedor tentou espantá-la, ela virou um pouco mais o seu carrinho e deixou suas ostras deslizando em todo o calçamento. Funcionários da alfândega de Porto Chequy iam comprar dela, e remadores da Cidade Afogada cujas cúpulas e torres eram afundadas  até o cotovelo nas águas verdes da lagoa. Uma vez, quando Brea foi para a cama devido ao seu sangue de lua, Cat havia empurrado seu carrinho de mão para Porto Roxo, para vender caranguejos e camarões a remadores fora da barca de prazeres Senhor do Mar, coberto de popa a proa com sorridentes rostos. Outros dias, ela seguiu o rio Águaverde até o Tanque da Lua. Ela vendeu para presunçosos bravosianos em cetim listrado, e guardiões e juízes em monótonas túnicas de marrom e cinza. Mas ela sempre voltava para o porto de Ragman.

— Ostras, amêijoas e berbigões — a menina gritou enquanto empurrava seu carrinho de mão ao longo do cais. — Mexilhões, camarões e amêijoas. — Um sujo gato laranja apareceu atraído pelo som de sua chamada. Mais adiante, um segundo gato apareceu, triste, sujo e cinza, com uma cauda erguida. Gatos gostavam do cheiro de Cat. Há alguns dias, ela tinha visto uma dúzia deles trilhando atrás dela antes do por do sol. De tempos em tempos a garota lançava uma ostra entre eles e assistia para ver quem a conseguiria. O maior raramente ganhava, ela notou, e como acontecia frequentemente, o premio foi para algum animal menor, mais rápido, mais magro e faminto. Como eu, ela disse a si mesma. Seu favorito era um velho magricela com uma orelha mastigada, que a lembrava de um gato que ela uma vez havia perseguido por toda a Fortaleza Vermelha. Não, aquela era uma outra garota, não eu.

Cat percebeu que dois navios que haviam estado lá ontem tinham partido. Mas cinco novos atracaram; uma pequena carraça chamada Macaco de Bronze, um enorme Ibbenês baleeiro que cheirava alcatrão, sangue e óleo de baleia, duas engrenagens violentas de Pentos, e uma galera verde e inclinada partindo para Velha Volantis. Cat parou ao pé de cada prancha para gritar seus mariscos e ostras, uma vez na língua do comércio e novamente na língua comum de Westeros. Um tripulante do baleeiro lhe gritou uma maldição tão alto que assustou seus gatos, e um dos remadores de Pentos perguntou quanto ela queria pelo marisco entre suas pernas, mas ela se saiu melhor em outros navios. Um companheiro da galera verde abocanhou meia dúzia de ostras e disse a ela como seu capitão havia sido morto pelos piratas Lysenos que tentou aplaca-los perto dos Degraus.

— Aquele bastardo Saan, com o Filho da Velha Mãe e seu grande Valiriano. Nós nos distanciamos, só isso.

O pequeno Macaco de Bronze provou ser de Vila Gaivota, com uma tripulação Westeros que estava contente de falar com alguém em sua língua comum. Um perguntou como uma garota de Porto Real passou a ser vendedora de mexilhões nas docas de Bravos, então ela teve que contar sua história.

— Estamos aqui a quatro dias e quatro longas noites — outro disse a ela. — Onde vai um homem para encontrar um pouco de diversão?

— Os cantores no navio estão tocando ‘Os Sete Remadores Embriagados’ — Cat lhes disse — E há brigas de Enguias na Adega Manchada, perto dos portões da Cidade dos Afogados. Ou se você quiser pode ir para o Tanque da Lua, onde os bravos duelam a noite.

— Sim, isso é bom — outro marinheiro disse. — Mas o que Wat realmente estava querendo era uma mulher.

— As melhores prostitutas estão no Porto Feliz, lá embaixo onde navios dos cantores estão atracados — Ela apontou, algumas das prostitutas dos cais eram viciosas, e marinheiros frescos dos cais nunca sabiam quais eram. S’vrone era a pior. Todo mundo dizia que ela havia roubado e matado uma dúzia de homens, rolando seus corpos nos canais para alimentar as enguias. A filha de Drunken podia ser doce quando sóbria, mas não com vinho em seu sistema. E Canker Jeyne era realmente um homem. — Pergunte por Alegria. Alegrira é seu verdadeiro nome, mas todos a chamam de Alegria, ela está sempre alegre.

Merry lhe comprava uma dúzia de ostras toda vez que Cat ia ao bordel e compartilhava-as com suas meninas. Ela tinha um bom coração, todos concordavam. Isso, e o maior par de tetas em toda Bravos. Assim ela gostava de se gabar.

Suas garotas eram muito gentis também; Betânia, a Corada, a Esposa do Marinheiro, Yna de um olho só que podia dizer sua fortuna a partir de uma gota de sangue. A pequena e bela Lanna, e até mesmo Assadora, a mulher ibenense de bigode. Elas podia não ser lindas, mas eram gentis com ela.

— O Porto Feliz é aonde todos os porteiros vão — garantiu Cat aos homens do Macaco de Bronze — Os meninos descarregam os navios, Marry sempre diz, e as meninas descarregam os rapazes que navegam nele.

— E sobre aquelas fantasias de prostitutas de quem os bardos cantam? — Perguntou o mais jovem macaco, um menino de cabelos vermelhos e sardas que não podia ter mais que dezesseis anos. — Elas são tão bonitas como eles dizem? Onde é que eu consigo uma delas?